Sábado, 24 de Fevereiro de 2018

Entrevista

BRASIL DAS ÁGUAS está de volta!

5 OUT 2010Por Bruna Lucianer10h:11

 

O Brasil representa a maior reserva de água doce da Terra, com 12% do total mundial. Durante 14 meses, entre outubro de 2003 e dezem  bro de 2004, o aviador Gérard Moss, junto com a esposa Margi, coletaram 1.160 amostras de água doce de rios e lagos espalhados pelo vasto rritório brasileiro utilizando um método inédito: um avião anfíbio. Os resultados das análises dessas amostras ajudaram a desenhar um abrangente panorama da qualidade das águas do país para fins de alerta e conscientização.  Agora, passados alguns anos, o casal está de volta e retoma o projeto Brasil afora.
 
O projeto estava parado? Quais foram as últimas ações?
Margi Moss - O Projeto Rios Voadores completou, em Março de 2009,  os dois anos de patrocínio conforme as condições dos projetos do Programa Petrobras Ambiental. Agora, no final de junho de 2010, saiu a aprovação de mais dois anos com a Petrobras Ambiental, nosso patrocinador principal.  
Já fizemos um voo de coleta de amostras de vapor de água, mas como vocês em Campo Grande também sentiram na pele, com a estiagem deste ano, não está valendo a pena ainda sair catando umidade do ar! Vamos esperar mais um pouco para retomar os voos. 
 
Como acontecerá a retomada? O site será reformulado? Quais serão as novidades?  
Estamos sim renovando totalmente o site, e teremos uma seção para dar prioridade às escolas, fornecendo informações e animações para ajudar professores e crianças a entenderem o fenômeno dos rios voadores. Outra novidade, mas só para ano que vem, é o uso de um balão estático em certas cidades pré-definidas, o que permitiria levar os estudantes para o ar, para medir por exemplo uma diferença de temperatura, umidade, etc. 
 
Quando os voos serão retomados? Vocês pretendem sobrevoar o Pantanal novamente? 
Os voos serão retomados logo, acho, porque finalmente parece que a estiagem está chegando ao fim. Como traba-lhamos em parceria com a INPE e CPTec, eles indicam qual é o melhor momento para realizar um voo acompanhando um rio voador.  A rota do rio voador às vezes nos leva acima do Pantanal, às vezes corta mais pelo leste... mas certamente em alguma ocasião estaremos acompanhando um que passa, sim, pela região do Pantanal, Corumbá e/ou Campo Grande.
 
Os estudos e expedições já renderam livro e várias pa-lestras sobre os rios do Brasil. Quais os resultados que você considera mais importantes nesses anos todos de trabalho? 
Acho que, aos poucos, a população está começando a se dar conta de que não podemos continuar poluindo e poluindo nossos rios, e ao mesmo tempo esperar que esses mesmos rios nos forneçam água limpa! Tem mais pessoas-cidadãos que lutam pela preservação, e ao mesmo tempo, infelizmente, mais políticos que votam e agem contra a preservação, às vezes mesmo contra a lei. Se você mostrar aos jovens a importância do meio ambiente na sua qualidade de vida agora e para o futuro, eles entendem e percebem a lógica. Apenas os adultos, que deveriam entender melhor e querer proteger os filhos, promovem a destruição (seja dos biomas ou das águas) porque apenas querem medir os ganhos momentâneos.  
 
Com a experiência de quem sobrevoa os rios do Brasil há anos, qual você apontaria como o principal problema enfrentado por nossos cursos d’água? 
Atualmente, acho que os principais problemas dos rios são os efluentes jogados sem tratamento. Tanto industriais como domésticos. Uma pesquisa do IBGE divulgada recentemente, com dados de 2008, mostra que mais da metade dos domicílios não têm coleta de esgoto.... Agora, as pessoas esquecem que coleta e tratamento de esgoto são duas coisas distintas. Pelo mesmo estudo, nem um terço (28%) das cidades tratam “adequadamente” seu esgoto.
 
E o principal problema do Pantanal? 
Para mim, o principal problema do Pantanal é vê-lo transformado em pasto. Grandes empresas e indivíduos ricos de São Paulo (mas também de outros lugares) compram as terras e entram logo com motosserra e carvoeiros. Pior, é gente “instruída”, que sabe muito bem o que faz e está nem aí. Parece que essa gente não lê jornal. Porque destruir um paraíso? É necessário? O Brasil vai quebrar se não destruir o Pantanal? Claro que não!  Mas a longo prazo, estão destruindo mais do que algumas árvores e bichos: o Pantanal, como a floresta amazônica, também libera vastos volumes de umidade no ar, umidade evaporada de suas extensas águas ou solo encharcado. Funciona como uma bomba hidráulica lenta. A remoção da vegetação para abrir pastos - ou pior, plantar cana! - pode eventualmente ter um impacto sobre o regime de chuvas em outras regiões como São Paulo, Paraná, e etc.

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