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Campo Grande - MS, domingo, 21 de outubro de 2018

Árvore seca

9 ABR 2010Por 20h:08

No topo, triste e solitária, está a velha e porosa árvore desgalhada.

Do alto, ela domina a amplidão.

Parece ter vergonha dos irmãos copados e folhudos, cheios de sombra e pássaros esvoaçantes.

Quando muito, o corvo e o pinhé lhe sentam à galharia disforme, seca, retorcida, esbranquiçada...

É o símbolo da desolação essa árvore erguida, espectralmente, no ermo.

Somente o fogo da queimada de agosto lhe faz carícias. Às vezes lhe alcança o tronco ressequido, devorando-o em poucos minutos, para transformá-la num montão de cinzas, logo após...

Dias mais, brotarão ali a urtiga e o joá. Então, aparecerá o lagarto de papo amarelo. Ele gosta de se esquentar ao sol, escarrapachado em monte de cinza nova. A cinza esquenta o papo e, lagarto de papo quente, fica ligeiro e brabo, brigador...

A lenda crioula diz que essa árvore reflete a alma do estancieiro mau.

O sangue do próximo por ele derramado secou a sua seiva. E quando o cristão morre pelos maus-tratos, ela também sucumbe.

Na sepultura do morto, dá formiga preta; no cinzeiro dela, urtiga e joá.

O sertanejo acredita na lenda, por isso, passa de longe; não lhe amarra cavalo no tronco.

Árvore desgalhada põe canseira no pingo.

E, conforme a lua, provoca garrotilho dos brabos...

Hélio Serejo

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