Quinta, 22 de Fevereiro de 2018

SUPERANDO PRECONCEITOS

Aquecida, construção contrata trabalhador com mais de 40 anos

16 NOV 2010Por Carlos Henrique Braga02h:00

A intensa necessidade de trabalhadores derrubou a barreira de idade na construção civil. O setor é o único que não impõe esse limite nas solicitações à Fundação Social do Trabalho de Campo Grande (Funsat). A partir dos 40 anos, as empresas fecham as portas aos menos qualificados por acreditar que são conservadores demais para recomeçar.

No segmento de obras de infraestrutura e imobiliária, a experiência é o que mais conta. Quatro em dez pessoas que ganham a vida nos canteiros de obras passaram dos 40, segundo estimativa do presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil da Capital (Sintracom), Samuel da Silva Freitas. "O guri de 20 anos não tem a prática de trabalho, tem força, mas não tem experiência", avalia o sindicalista.

A predominância é rara. Dos 237,1 mil empregados na cidade, 85,4 mil (36%) têm entre 40 e 64 anos. A maioria das empresas pede à consultora de recrutamento Márcia Bellé que os candidatos tenham até 35 anos. "O preconceito é enorme. A ideia generalizada que se tem de pessoas nessa faixa é que estão cansadas e são muito resistentes aos novos trabalhos, mas nem todos são assim", defende a consultora. As poucas vagas disponíveis para eles são as de alta confiança, como as de diretoria, ou em programas sociais que os destinam a entrega de panfletos em supermercados, por exemplo.

 

Driblar o preconceito
Aos menos qualificados, que batem de porta em porta, sem sucesso, ela recomenda novos rumos, como abrir um pequeno negócio ou desenvolver uma atividade informal. Os casos de depressão entre os desempregados são comuns. O economista Áureo Torres, que analisa mensalmente a evolução do emprego na Capital, indica aos desempregados de mais de 40, e aos que vão chegar lá, que se qualifiquem e aceitem mudanças. "Se o empregado for muito turrão, cabeça dura, tem mais dificuldade de conseguir trabalho", analisa Torres.

O eletricista alagoano Manoel Simplício da Silva, 54 anos, nunca teve dificuldades em conseguir emprego em 35 anos de carreira. Aposentado há seis meses, ele atua como prestador de serviço em um banco de Campo Grande, onde é o "velhinho" do chefe. Aos mais jovens, o conselho para ficar no mercado de trabalho: "a pessoa tem que respeitar os horários e ser correta".

O encarregado de manutenção da empresa paulista Conbras, Hamilton Gonçalves, chefe do eletricista, não recusa ninguém por idade porque "o que conta é o currículo, a experiência acumulada".

Nem sempre a construção civil e suas ramificações aceitaram de braços abertos os barrados pelo mercado. Em 2003, quando o setor amargou a pior crise da história em Mato Grosso do Sul, segundo o presidente do sindicato dos trabalhadores, cerca de 80% dos funcionários não tinham emprego - nem jovens, nem de meia idade. "Agora que o mercado está aquecido, as coisas mudaram", diz Freitas. 

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