Segunda, 22 de Janeiro de 2018

Após a chacina, Guaíra tenta retomar a rotina

28 SET 2008Por 16h:12
     

        Bruno Paes Manso

(O Estado de S. Paulo

Componentes.montarControleTexto("ctrl_texto") Depois de dois dias de luto, o Colégio Estadual Jardim Zeballos, uma das 26 escolas públicas de Guaíra, no oeste do Paraná, abriu os portões às 7h30 de quinta-feira. Na aula de educação física, alunos resistiam em iniciar as atividades na quadra. Na sala dos professores, a diretora, Célia Wessel, discutia com o corpo docente como reerguer o colégio e tirar alguma lição da tragédia que abalou a cidade. Principalmente aquele grupo de mestres e estudantes tentava achar algum sentido para retomar a rotina. Na chacina de 15 pessoas ocorrida na segunda-feira na chácara do Polaco, a 2 km da escola, quatro entre os mortos eram alunos do Zeballos. Mizael, de 16 anos, filho do dono da chácara, estava na 5ª série. Leonardo, também de 16, estudava na 6ª. André e Alex, ambos com 17, estavam na 5ª.
        
        Outros dois alunos sobreviveram. Rogério, de 17 anos, saiu correndo quando viu uma pessoa ser morta ao seu lado, com um tiro na cabeça. Na fuga, levou uma bala nas costas e caiu no chão. Em seguida, ouviu sugerirem outro tiro na cabeça, que não veio. Ele se fingiu de morto por duas horas, ouvindo os demais agonizarem.
        
        Fernando, de 16 anos, dono de boas notas no 2º ano do ensino médio, estava ao lado de Karen Vanderlei Soares, de 18, filha do dono da chácara, no galpão onde sete pessoas foram executadas. No meio da sessão de tiros, Fernando não recebeu nenhum disparo. Na confusão, passou o sangue de Karen no rosto e também se fingiu de morto. Foi ao velório dos amigos, mas não voltou à escola.
        
        Além dos seis mortos e feridos, eram alunos do Zeballos parentes dos executores. Gleibson Corrêa, de 18 anos, filho de Jair Corrêa, de 52, apontado pela polícia como comandante do massacre, estava no 3º ano do ensino médio. Duas netas de Jair, filhas de Dirceu Pereira de França, de 35, morto um mês antes da chacina, estudam na 6ª e 8ª séries.
        
        Na secretaria da escola, enquanto preparava a atividade que trataria do massacre com os alunos, no primeiro dia depois do luto, a professora desabafava com os assistentes. "Se uma tragédia desse tamanho já é dolorida, revolta mais a forma como o crime e as vítimas estão sendo tratados. Fala-se de briga de quadrilha, de morte de traficantes e drogados. Gente... Não podemos simplificar dessa maneira. Morreram alunos, filhos, pais, colegas de classe, pessoas que vivem numa cidade cheia de problemas."
        
        André, por exemplo, colega de Mizael no Zeballos, chegou por volta das 9 horas à chácara para levar uma galinha que acabara de dar cria de um galo índio, que ele e o pai, Lázaro, criavam para disputas de rinhas. A galinha era de Mizael. Foi rendido pelos chacineiros. Como André demorava, Lázaro mandou o sobrinho, Reinaldo Martins de Melo, de 28 anos, verificar o que acontecera. Os dois nunca mais voltaram. "Nem que seja a última coisa que eu faça, preciso provar que meu cunhado não era traficante", dizia aos prantos, na quinta-feira, Eliana Aparecida Bueno, casada com um dos 18 irmãos de André. Desorientada, ela buscava na prefeitura antecedentes do cunhado. A polícia acabou confirmando que André não tinha antecedentes.
        
        Fernando, o aluno do Zeballos que sobreviveu ao fingir-se de morto, havia dado carona a Renato Ramos de Oliveira, o Renatão, agricultor de uma família de bóias-frias. Renatão havia ido buscar a bomba d''água roubada da casa onde morava com a família. Sem saber a origem da peça, Polaco comprara o objeto do ladrão e se comprometeu a devolver. Renato pegou carona na moto dele. "Nesses últimos dias, a gente tinha de carregar a carroça de garrafas para conseguir ter água em casa", dizia Renata Ramos de Oliveira, irmã de Renatão, talvez a vítima mais pobre, que não tinha documentos e foi a última a ser reconhecida.
        
        O MASSACRE DE GUAÍRA
        
        Sem o filtro da polícia, fica mais fácil ver os dramas por trás do massacre de Guaíra. Ele começou a se desenhar pelo menos um mês antes, em 20 de agosto. Dirceuzinho, o pai das duas alunas do Zeballos, foi assassinado. Ele havia voltado naquele dia de uma viagem a São Paulo, onde entregara uma carga de drogas avaliada em R$ 19 mil. Jossimar Marques Soares, de 41 anos, o Polaco, dono da chácara onde ocorreria o massacre, havia fornecido a droga a Dirceuzinho, que não pagou.
        
        Dono de um boteco chamado Big Brother, colado ao muro do Colégio Zeballos, uma das oito bocas-de-fumo investigadas pela Polícia Federal na cidade, Dirceuzinho e Polaco eram parceiros. O elo foi rompido naquela noite, quando a vítima recebeu um telefonema de Manoel Pascoal da Silva, o Nel, de 28 anos, parceiro de Polaco, que o chamava para conversar. Nel e um comparsa, Nelsinho, armaram uma tocaia para Dirceuzinho, que morreu com seis tiros.
        
        No período entre esse assassinato e o massacre, a Polícia Civil pouco fez. Com oito funcionários e 211 presos na cela dos fundos da delegacia - feita para 50 -, não sobra tempo para as investigações. O padrasto de Dirceuzinho, Jair Corrêa, que um mês depois comandaria a chacina, testemunhou na polícia, dizendo quem eram os autores do crime. Mas eles continuaram soltos.
        
        Coube a Jair tocar o plano de vingança, que começou a desenhar no velório do enteado. Ali disse a alguns que mataria toda a família de Polaco, mandante do crime. Era conhecido como um homem violento, que já havia trabalhado como segurança para Roque da Silveira, nascido em Guaíra, filho do ex-prefeito da cidade, Osvaldino da Silveira, que se tornou um dos principais fabricantes dos cigarros paraguaios contrabandeados para o Brasil. Segundo vizinhos, na noite em que Dirceuzinho morreu, Jair chegou a fotografar o corpo do enteado para manter a raiva acesa.
        
        Na segunda-feira da semana passada, mais de um mês depois, a vingança aconteceu. Começou às 7 horas. Os três matadores chegaram de barco à chácara de Polaco, um amplo terreno na zona rural de Guaíra, a 800 metros do Rio Paraná. Intermediador da maconha que chega do Paraguai com destino a São Paulo, Minas e Rio, Polaco já não obtinha o mesmo faturamento de antes da prisão, no ano passado. Tanto que ele andava na cidade com um velho Corcel e a mulher trabalhava como doméstica na casa de um carcereiro da polícia.
        
        E a chácara não poderia ser classificada simplesmente como boca-de-fumo. O filho de Polaco, Mizael, também vendia porco, galinha e leite à vizinhança. Na manhã do dia 22, estavam no local só Mizael, o pedreiro Claudiomar Felix dos Santos, de 42 anos, que reformava o piso da chácara por R$ 30 ao dia, e o filho dele, Oséias, de 9 anos. Os assassinos vieram com uma espingarda calibre 12, uma pistola 9 mm e um revólver 38, comprados na vizinha Salto del Guairá, no Paraguai.
        
        Depois de dominados, os três foram levados para dentro de casa. Às 7h30, chegou em um Monza Robert Romão Gonçalves Rios, de 34 anos, morador da Favela da Rocinha, no Rio, que havia ido a Guaíra tentar novos negócios com drogas e cobrir dívidas na cidade. Chegou com a mulher, Lurdes, de 16 anos, que conheceu em Guaíra e com quem teve a menina Daniela, de 1 ano. Os três foram dominados logo que chegaram e obrigados a ficar no quarto com os outros três que já estavam no local.
        
        Jair, que seguia encapuzado, como os outros assassinos, retirou a máscara e mandou que Mizael chamasse o pai e a mãe, para cumprir a vingança contra a família. Mizael contou que a mãe trabalhava na casa de um policial. Jair não acreditou e deu um tiro no menino, que agonizou por pelo menos uma hora, antes de morrer.
        
        Com o filho morto e cinco presos, Polaco chegou desavisado em seu Corcel. Quando viu Jair e o grupo armado, tentou atropelá-los, mas recebeu um tiro na perna. Ferido , foi obrigado por Jair a chamar Manoel, autor da morte de Dirceu, e seus comparsas no negócio das drogas, incluindo Zaqueu Herculano, de 34 anos, e Milton Gonçalves, de 44, o Miltão. Por ordem de Jair, Polaco ligou no celular e os convidou para um churrasco.
        
        Miltão recebeu a ligação em seu bar, o Malvinas, na frente do Zeballos. Avisou sobre a boca livre a Alex, seu sobrinho de 17 anos, estudante do colégio, que o acompanhou. Marcelo Kranke Paulo, de 25 anos, outro integrante do grupo, também foi chamado e levou a mulher, Karen, de 18, filha de Polaco. Enquanto as pessoas iam chegando, os matadores bebiam pinga misturada com as laranjas da fazenda. Ao longo de cinco horas, compareceu à chácara muito mais gente do que o previsto, por diferentes razões.
        
        Rogério, colega de Mizael no Zeballos, também havia ido à chácara com o amigo Fernando Vieira Bradish, às 10h30, falar com o garoto sobre a negociação de um cavalo. Conforme as pessoas chegavam, iam sendo presas e assassinadas, num massacre que alternava mortes isoladas e grandes execuções. Rogério ainda conseguiu escapar. No intervalo da matança, quando Mizael já estava morto havia mais de uma hora, um dos encapuzados, provavelmente Ademar Fernando Luiz, de 28 anos, o Blake, que como Jair teve a prisão decretada, pulou em cima do corpo de Mizael e o encheu de facadas. Segundo testemunhas, quando a pinga acabou, dizia que queria beber sangue.
        
        A situação cada vez mais pareciafugir ao controle. Um papagaio criado na chácara foi estrangulado e jogado na pia. Com os reféns em desespero, Jair apontou a pistola para Daniela, a criança de 1 ano. O pai da menina, Robert, partiu para cima dele. Claudimoar, o pedreiro, também atacou. Nesse momento, Lurdes jogou a criança pela janela e conseguiu escapar com o menino Oséias - depois, apanhou Daniela do lado de fora da casa. O marido dela e o pai do garoto morreram logo em seguida.
        
        A ameaça de reação atiçou ainda mais os ânimos dos matadores. No galpão da chácara, disparos começaram a correr soltos. Testemunhas depois disseram que, no auge, quando as vítimas eram assassinadas por atacado, os tiros duraram cerca de 30 minutos sem parar. Quinze pessoas morreram. E milagrosamente oito escaparam, num caso que - mesmo ainda não totalmente compreendido - marcou para sempre a história e os rumos de Guaíra.
        
        REFLEXÃO
        
        Depois do crime, duas perguntas continuam a assombrar autoridades, professores, pais, filhos e moradores da cidade. Virão novas vinganças? Quando o ciclo será interrompido? Com a tragédia ainda longe de ser assimilada, os alunos do Zeballos desceram para o pátio às 9h30. Cerca de 200 crianças e jovens, entre 11 e 16 anos, sentaram-se nas cadeiras colocadas do lado de fora da sala de aula, esperando para saber o que os professores tinham a dizer.
        
        "Esse é um momento para reflexão", disse a diretora Célia, no microfone. "Precisamos, a partir de hoje, refletir mais sobre nossas vidas. O mundo aí fora oferece muitas escolhas. Devemos pensar nos caminhos que a vida oferece, para escolher os que realmente são melhores."
        
        O pastor evangélico Genésio Araújo, da Congregação Nação de Deus, tomou a palavra em seguida. Cantou uma música, leu um capítulo do Evangelho de Lucas e depois pediu a todos os estudantes que dessem as mãos. "Olhe para quem está ao seu lado. Eu não sou ninguém se quem está ao meu lado não é ninguém. Eu só sou alguém se quem está ao meu lado é alguém", disse. Depois, lamentou ser preciso buscar lições em uma tragédia. "Não é preciso se queimar para aprender que não devemos colocar a mão no fogo. O importante não é o que estou falando. Mas o que vocês estão ouvindo." Quando o encontro acabou, os alunos voltaram à sala de aula. Era preciso tentar retomar a rotina.

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