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Terrorismo

Analistas: morte de Bin Laden tem consequências indefinidas

8 MAI 2011Por TERRA05h:21

A morte do terrorista Osama bin Laden, na madrugada de segunda (noite de domingo no horário de Brasília) teve repercussão imediata. Rapidamente o assunto chegou aos trending topics do Twitter. O anúncio histórico do presidente Barack Obama na TV foi visto por 56,5 milhões de pessoas em um horário em que toda Europa (e grande parte do mundo) estava dormindo. Na manhã seguinte foi assunto único das manchetes nos EUA (e no resto do mundo) e de jornais de TV. A repercussão do caso não saiu da capa de sites de notícias ao redor do mundo.
Naquele dia 2 de maio, à medida que o mundo acordava, ia tentando entender o que poderia significar a morte do terrorista mais procurado de todos os tempos, o inimigo número um dos Estados Unidos, o mentor dos ataques de 11 de setembro. Seria o fim da luta contra o terrorismo? Ou Bin Laden simplesmente seria substituído por outra pessoa? O mundo estava, a partir daquele momento, seguro? Ou a rede Al-Qaeda continuaria com força, já que não faltariam voluntários dispostos a vingar a morte do mito? Ou ainda: será que Bin Laden realmente havia sido morto? Se sim, onde estava o corpo? Onde estão as fotos do corpo?
Durante as primeiras horas após o anúncio da morte, o Terra ouviu especialistas que procuraram iniciar um trabalho nada fácil: entender quais seriam as transformações que o mundo irremediavelmente sofreria a partir do exato instante no qual a operação planejada por meses pela inteligência americana tivesse sucesso. A primeira pista veio de um professor do departamento de Relações Internacionais da Universidade de Bradford, na Inglaterra. Em entrevista ao Terra, Paul Rogers afirmou que a morte de Bin Laden era de importância menor para a guerra contra o terror, já que a Al-Qaeda não dependia mais dele para funcionar.
Ele sugeriu que o mundo não ficaria mais seguro sem Bin Laden. Muito pelo contrário. "Acho que teremos mais problemas, na realidade. Aparentemente, os recentes ataques terroristas no Marrocos não estavam ligados de forma direta a Al-Qaeda. Mas, informalmente, há uma cooperação com o grupo", disse. E naquele momento, diante da maneira como tudo aconteceu. Rogers antecipou questões que estão sendo colocadas agora. "Muitas perguntas terão que ser respondidas sobre a possibilidade de figuras políticas paquistanesas estarem acobertando ele. A colaboração do Paquistão com os EUA enquanto, supostamente, apoia ao mesmo tempo redes terroristas será uma grande questão para o futuro", disse.
Mas Rogers concordou que, de qualquer maneira, a morte de Bin Laden é "uma grande conquista simbólica para os EUA". Opinião compartilhada com o filósofo francês Charles Zarka. Ao receber o Terra no seu escritório na Universidade Paris Descartes, da prestigiada Sorbonne, para repercutir os rumos do terrorismo no século XXI, o autor de Difficile Tolerance (Difícil Tolerância) e Repenser la Démocratie (Repensar a Democracia) afirmou que a morte do líder terrorista é um "golpe violento" no "mito da Guerra Santa Islâmica". "A morte de Bin Laden é importantíssima. É um mito que morreu, e um mito é muito mais do que uma pessoa: é um símbolo vivo, é uma justificativa para certos atos, e é uma referência para muitos", disse.
A opinião de Zarka é que a morte de Bin Laden ultrapassa a barreira do simbólico. Trata-se, segundo ele, da perda de uma referência que sustentava um tipo de luta. Sem essa referência, essa luta deve perder força. "Não digo que esta morte vai acabar com o terrorismo de um dia para o outro. Mas a perspectiva que o sustentava, a de um conflito longo de civilizações, da guerra contra a América e o que ela representava para o Ocidente e para parte do Islã, acabou", afirmou o filósofo Charles Zarka.
Outro aspecto importante das repercussões sobre a morte de Bin Laden diz respeito ao desempenho de Obama. No discurso em que anunciou a morte do terrorista, o líder americano se afirmou como a pessoa que está no comando, sem, no entanto, parecer exagerado ou caricato, como o seu antecessor George W. Bush. Essa é a opinião do cientista político Stephen Duncombe, que falou ao Terra em Nova York. "Obama se apresentou como mais se sente à vontade: calmo, razoável, racional, cool. Fez questão de dividir os louros da vitória, ao mesmo tempo deixando claro que quem está no controle é ele", analisou.
Segundo Duncombe, que é professor da Gallatin School da Universidade de Nova York (NYU), ser, em última instância, o responsável pela morte do terrorista mais procurado o mundo, coloca Obama em uma posição confortável internamente, mas não garante sua reeleição. Tirar Osama de circulação ajuda, mas o que talvez mais pese seja a situação da economia. O professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Maurício Santoro também vê a economia como uma pedra no sapato de Obama, mas crê que sua atuação na missão Bin Laden foi uma vitória política para o presidente. "É uma grande vitória política para Obama. Não só porque foi o presidente que matou Osama Bin Laden, mas porque a morte do terrorista reforça seu argumento de campanha, que era sair do Iraque e se concentrar no Afeganistão e Paquistão, onde se baseava o foco das células terroristas", disse, em entrevista ao Terra.
Polêmicas
No calor da cobertura, ainda na manhã de segunda, quando grande parte do mundo ocidental estava eufórico por ter se livrado de um perigo, Daniel Santiago Chaves, historiador e pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), antecipou ao Terra uma discussão que viria à tona durante a semana: a legitimidade da ação que matou Bin Laden. A justiça foi feita? Ou tratou-se de uma vingança? Para o analista, a segunda opção é a mais provável. "Há, sim, um componente analgésico, psicológico, imediato, relacionado a tudo isso. Isso é verdade, houve um bálsamo sobre a dor de todos, especialmente sobre os que perderam filhos, pais, maridos. No entanto, quando se ouve uma opinião mais crítica a respeito disso fora dos Estados Unidos, nota-se que ninguém levou isso a sério", disse, destacando que a operação rasgou o Direito Internacional.
Nos dias subsequentes não foram poucos os analistas que contestaram a ação americana. À medida que os detalhes da operação realizada em uma mansão da cidade paquistanesa de Abbottabad ficavam mais claros, grupos de Direitos Humanos começaram a questionar a real necessidade de executar o terrorista. Como o país que se considera o detentor das noções de justiça e democracia assassina uma pessoa sem defesa? Não seria uma demonstração de barbárie? Para Stephen Duncombe, sim. "Assassinato, assim como tortura, é o que as 'outras' nações fazem, não nós. A discussão sobre se Bin Laden estava ou não armado é absurda. Assim como se o despejo de seu corpo no mar foi 'respeitoso' e 'de acordo com as práticas islâmicas'. Foi uma execução!', disse o estudioso.
O autor da obra seminal Dream: Re-Imagining Progressive Politics in an Age of Fantasy (Sonho: Re-Imaginando Políticas Progressivas na Era da Fantasia, em tradução livre) tocou ainda em outro ponto crucial da questão Bin Laden: a divulgação (existência?) das imagens do corpo. Para ele, "enterro no Mar da Arábia" foi uma providência relacionada com a preocupação de que se criasse um templo de peregrinação aonde Bin Laden fosse sepultado. "Ele (Bin Laden) se tornaria um ícone, ainda que morto. E os EUA decidiram negar esta presença simbólica a ele. Foi um movimento extremamente inteligente, um tento na batalha da narrativa do espetáculo que domina nossa sociedade. De novo, símbolos e sinais são, mais do que nunca, armas poderosas nas guerras contemporâneas", completou Duncombe.
 

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