Segunda, 19 de Fevereiro de 2018

Alunos testam adição da cinza do bagaço de cana ao concreto

20 SET 2010Por Bruna Lucianer11h:26

Moramos no país que mais produz cana-de-açúcar no mundo. Só em 2009, foram 686 milhões de toneladas em uma área de aproximadamente 86 mil quilômetros quadrados, o equivalente a dois Estados do Rio de Janeiro. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que estima ainda um aumento de 1,8% na produção para 2010.

Agora faça as contas: cada tonelada de cana processada gera 250 quilos de bagaço. Esse “resto” precisa ir para   algum lugar, certo? Uma prática comum para o destino do bagaço é a queima em fornalhas, onde esses 250 quilos resultam em apenas seis quilos de cinzas. Mais uma vez, as cinzas precisam ir para algum lugar.
Tem gente que espalha essas cinzas na lavoura. Tudo bem do ponto de vista ecológico, visto que elas não são poluentes. Mas aí bate o vento e levanta esses milhões de partículas, levando-as para as estradas e cidades, causando desconforto para a população. Não é agradável.
Tem gente que retira essas cinzas das fornalhas com jatos d’água, através de suspensão, armazenando-as em lagoas de decantação. Aí podemos contar com o imprevisto do rompimento dessas lagoas, e a possibilidade de as cinzas escorrerem até o manancial mais próximo, sujando a água. Também não é legal.
Seria perfeito se existisse alguma maneira de reaproveitar as cinzas, fechando o ciclo renovável da produção de cana-de-açúcar. E existe. Acadêmicos do curso de Engenharia Civil da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp/Anhanguera), sob  orientação do professor doutor Sidiclei Formagini, avaliam a possibilidade de incorporar a cinza do bagaço da cana-de-açúcar (CBC) na fabricação do concreto.
O conceito é relativamente simples: substitui-se uma parte do cimento, estudos garantem a viabilidade de até 20%, por CBC peneirada e moída. Os primeiros resultados são animadores e mostram que há ganho na resistência do concreto com a incorporação da cinza. “É um material nobre que está sendo descartado, temos que reaproveitá-lo da melhor maneira”, explica o professor Sidiclei.
A substituição não influencia no custo do processo, mas o ganho ambiental é enorme. “A produção de uma tonelada de cimento emite quase uma tonelada de gases de efeito estufa (GEE) para a atmosfera. Se substituirmos 20% do cimento, reduziremos em 20% as emissões”, explica o professor.

Porque não é produzido em larga escala?

Porque, para colocar um produto novo no mercado, são necessários muitos estudos. Para que a indústria de cimento incorpore um elemento novo no processo de fabricação, há a necessidade da elaboração de normas técnicas, e isso só acontece depois de muita pesquisa.
Os primeiros passos já estão sendo dados pela equipe do professor Sidiclei, que garante empenho na continuidade dos estudos. “Mesmo assim, podemos esperar a popularização do processo para daqui há mais ou menos 10 anos”, estima.

Queima do bagaço não emite CO2?

Segundo o professor Sidiclei, a emissão de gás carbônico causada pela queima do bagaço da cana é neutralizada pela absorção do mesmo durante o crescimento da lavoura. “Para crescer, a cana-de-açúcar absorve o CO2 emitido pela incineração do bagaço. A utilização das cinzas, que são o último resíduo, torna o ciclo totalmente renovável. Essa é a principal característica que a diferencia da produção de cimento, poluente e não-renovável”, explica.

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