Sábado, 24 de Fevereiro de 2018

CARAS PINTADAS

Acadêmicos de artes visuais relembram tempos de movimento estudantil

18 NOV 2010Por VIVIANNE NUNES07h:59

Acadêmicos do curso de artes visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) tentaram um protesto silencioso na manhã de ontem para reivindicar um espaço físico que abrigará o Centro Acadêmico (CA) do curso. O grupo chegou para assistir a aula com o rosto pintado de palhaço. Segundo informações de uma das universitárias que faz parte do movimento estudantil por um espaço, já existe um pedido que foi feito à reitoria há três meses, mas até o momento nada foi concluído. Diante da negativa os acadêmicos se uniram e passaram a utilizar uma sacada abandonada no bloco 8 no campus, mas receberam ordem do chefe do departamento para deixar o local.

Ao chegarem fantasiados para a aula, foram informados pelo professor de que um processo administrativo seria aberto contra eles e que os seguranças seriam chamados para a retirada dos alunos.

Para a presidente do Centro Acadêmico, Nelly Stefani, o que tem sido feito é apenas uma maneira calada de demonstrar a indignação dos estudantes que reivindicam um espaço para dar continuidade às suas atividades. “Grande parte de nós passa o dia no campus da univerdidade e o CA é um lugar de interação”, afirma. Ela explica que a sala era utilizada para guardar materiais que poderão ser partilhados com outros estudantes do curso, como pincéis, tintas e outros. Além disso, ela lembra que o papel de um Centro Acadêmico é também organizar reivindicações e formar uma ponte de diálogo entre a reitoria e os estudantes.

Para a acadêmica do segundo ano do curso, Marina Pacheco, 18 anos, o movimento estudantil é algo adormecido nos dias de hoje e apenas pequenos grupos têm se unido por causas consideradas “nobres” e agindo de maneira ordeira, porém, fantasiosa para que chame a atenção dos responsáveis.

Apesar de muitos não agirem dessa forma, em prol do coletivo, ela acredita que esse sentido natural do jovem, do universitário, de protestar, de exigir o cumprimentodos direitos, possa estar adormecido nas pessoas. “Alguns tem medo, outros estão acomodados e se tivéssemos um pouco mais de voz para lutar por aquilo que acreditamos, nosso cenário político seria bem diferente”, indagou.

Apesar de estar muito distante do que realmente ocorria nos primórdios dos anos 60 e 70 com a participação efetiva dos estudantes em grupos sociais, as caras pintadas são resquícios de uma geração que lutava por um ideal. O cientista social e mestre em sociologia-política Renato Cancian, lembra em um de seus artigos que, ironicamente, já no fim da década de 70, apesar das organizações estarem em pleno funcionamento, o movimento estudantil universitário já havia perdido força e prestígio político. No ano de 1992, o amplo trabalho social de oposição ao então presidente Fernando Collor de Melo fez ressurgir a explosão de ânimo pelo protesto entre a juventude, levando milhares à rua em todo o País, mas, segundo ele, apenas por um preve período.

Especialista

Para a cientista política Eugênia Portela Siqueira Maques, o manifesto dos estudantes se torna positivo quando o que se busca é algo que prevê o bem comum. Ainda que seja uma revindicação “calada” ou mesmo “silenciosa”, como eles mesmos intitulam, é louvável já que une os jovens e traz para eles a responsabilidade em cima daquilo que desejam. Essa, de acordo com Eugênia, é uma características interessante e que se encontra, na maioria das vezes, em colégios públicos.

Relembrando um pouco os momentos passados em que os jovens se “enfiavam” de cara na política, reinvidicando pelo bem comum e não pelo individual e fazendo uma comparação com o que ocorreu hoje em dia, a cientista explica que a falta de interesse da juventude em questões relacionadas à política têm ligação direta com a descrença que possuem sobre os políticos eleitos.

“A mesma descrença que nós adultos nutrimos, muitas vezes, com relação aos governantes, eles também possuem”, afirma. De acordo com ela, questões individuais e pessoais acabam sobreponto os interesses dos jovens. Prova disso é o fato de que em 2006, mais de 3,8 milhões de jovens votaram pela primeira vez e neste ano, o número foi de pelo menos 600 mil a menos. “As lideranças políticas não conseguem consquistar o jovem, eles não possuem representatividade diante da juventude”, argumentou.
Ela explica ainda que as ferramentas digitais são tantas que o jovem acaba tendo muita informação e pouco conhecimento. A minoria reconhece as lutas do passado em prol da democracia, por exemplo.
 

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