Segunda, 11 de Dezembro de 2017

música

A ostentação do funk em festas da Capital

18 FEV 2014Por EDUARDO FREGATTO11h:45

Foi-se o tempo em que o funk se limitava a retratar a juventude do Rio de Janeiro. Ao embalo do “funk ostentação”, o controverso gênero musical de batidas fortes e letras ousadas deixa de ser importado para ganhar representantes regionais, com letras e atitudes próprias.

Há três anos, o Funk de Roda é evento certo em Campo Grande. Ao menos uma vez por mês, os funkeiros e os fãs do ritmo se reúnem na festa que revela talentos locais e traz artistas renomados, como no domingo passado, quando 1.500 pessoas foram assistir ao show do carioca Mc Magrinho, um dos astros do gênero.

Atualmente, a festa acontece em uma casa de shows localizada no bairro Santo Antônio, todos promovidos pelo produtor de eventos Jean Paçoka, 23 anos.

Apaixonado pelo  funk, Jean alega ter trazido o estilo musical para a Capital. “Eu vi uma Roda de Funk que acontece em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e resolvi fazer algo parecido aqui”, relata. “De lá para cá, o público só cresceu”.

Jean responde atualmente por cerca de trinta funkeiros, todos de Mato Grosso do Sul.

Alguns são tão famosos que têm fã-clube.

Mc Teio, Mc Dóllar, os gêmeos da ostentação Igor e Valentim, Mc Granfino, Mc Niel e Mc Peruzzo são apenas  alguns dos nomes que se destacam na Capital, com shows marcados no interior e página de fãs na Internet. As meninas campo-grandenses, por enquanto, não aderiram ao gênero, pelo menos como  Mc.

Da baixada
O adolescente Gabriel Matheus Vieira da Cruz, 19 anos, terminou o Ensino Médio e se prepara para se alistar no serviço militar. “Tenho curso de inglês e informática também”, destaca, preocupado com o mercado de trabalho como qualquer outro jovem de sua idade.

Gabriel busca oportunidades, mas também pode se orgulhar por já ser um artista conhecido em Campo Grande. Nas noites, o adolescente atende pelo nome artístico de Mc Gabriel da Baixada, e é um dos funkeiros mais reconhecidos da Capital.

Na rede social Facebook, a página oficial de Mc Gabriel coleciona 2.125 seguidores, e tem até fã-clube. “Uma menina tatuou o meu nome”, revela, como quem está acostumado com a fama. “As pessoas me param, pedem para tirar foto”.

A vida de celebridade dá ânimo para Gabriel continuar cantando enquanto não entra para o quartel. “O funk não me sustenta, não dá para viver disso aqui”, admite.

Mc Gabriel  veio de Santos (SP), mais precisamente da Baixada Santista. “Me mudei para Campo Grande faz dois anos, sou da Baixada, foi lá que conheci o funk”, explica. “Meu padrinho do funk, o MC Primo, morreu, mas me ensinou tudo”.

Ostentação
Febre em todo o Brasil, o funk ostentação está levando o gênero a um novo patamar em questão de reconhecimento e aceitação do público. Ao menos é nisso que os funkeiros acreditam.

“O Guime foi ao Programa do Faustão”, afirma Jean,  confiante ao citar o reconhecimento de um dos maiores nomes do funk de ostentação, o paulista Mc Guime. “As coisas estão mudando”, aposta.

As letras de ostentação celebram marcas famosas de carros, motos, óculos, bonés, relógios, peças de roupa, destacando o  luxo e o dinheiro. Os temas mais polêmicos, como violência e sexo, são deixados de lado ou citados de maneira superficial.

Em “Tudo o que elas gosta”, funk autoral de Gabriel da Baixada e sucesso na Internet, com mais de 5 mil downloads, o funkeiro promete relógios caros e um carro com teto solar para agradar às garotas.

“A gente começou copiando os clipes americanos de rap e hip hop”, afirma Mc Gabriel, ao falar de sua inspiração.

“Nós falamos dessas marcas, mas não temos nada dessas coisas. Só so funkeiros de Rio e São Paulo estão conseguindo ganhar tanto dinheiro”.

Preconceito
O funk é criticado e marginalizado, seja por suas letras explícitas ou produção simples. “As pessoas acham que eu mexo com drogas, mas eu nunca fiz nada disso”, defende-se Mc Gabriel.

O produtor Jean Paçoka prefere não comentar os ataques que sofre por promover o funk na cidade. “Eu já tenho um público grande. O pessoal que critica, prefiro  ignorar”.
Apesar das críticas, o funk carioca já foi reconhecido até no exterior.

O som da funkeira Deise Tigrona, por exemplo, causou tanto impacto que até hoje é referência para grandes nomes da música, como para o produtor norte-americano Diplo (que já trabalhou com Katy Perry e Britney Spears) e para a elogiada rapper britância M.I.A. Ambos têm músicas de sucesso inspiradas no funk carioca e no trabalho de Deise.

Mc Gabriel é otimista. “Hoje eu canto em bares que não deixavam que me apresentasse. Todos estão ouvindo o funk”, comemora.

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