Domingo, 21 de Janeiro de 2018

A capelinha de Severino Mororó

9 ABR 2010Por 20h:07

Minha terra cabe toda dentro de mim. Ela é do tamanho de minha infância... Itabaiana! Ah! Terra bem amada! Que carícia te chamar minha terra... minha, sempre minha!

Alguns homens conheci, de estatura religiosa elevada, além do sacerdote, pertencentes à Ordem dos Marianos da igreja católica. O Sr. José Cândido, um deles, residia frontal aos currais de gado, do lado direito da nossa casa, frequentador assíduo da missa domingueira, das quermesses e novenas, açougueiro, homem justo e bom, pai de Assis, que depois seria professor no Colégio Estadual, um dos melhores amigos de folguedos que tive na infância. O outro chamava-se Severino Mororó, de importância capital na expansão do catolicismo na periferia da cidade, de uma consagração espantosa às coisas de Deus, pois chegou a construir, com seus próprios recursos, a igreja de Nossa Senhora de Nazaré, na Rua Padre Ibiapino, lugar onde morava. Esta rua nascia na Pracinha da Maloca e morria nos trilhos da Rede Ferroviária do Nordeste.

Visitei a igrejinha do notável religioso. Após a celebração da missa, aproximei-me do altar. Um manto aperolado cobria Nossa Senhora de Nazaré, anjos de asas abertas rodeavam-na e, acima, numa faixa, podia-se ler: "Glória a Deus nas Alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade". Do lado o Santíssimo (lamparina) ondulava a sua chama, chama pequenina de luz, enorme de crença e de amor. Dei dois passos para frente. Declinei meus desejos a Santa, genuflexo. O Santíssimo continuava seu movimento vibratório de luz. Nunca pensei que aquele azeite e aquele pavio durassem tanto. És tu que não deixas que eles se acabem, Senhora de Nazaré – conversei com a santa em pensamento.

Retirei-me silencioso para a calçada da igrejinha. Nas casas da frente, nas soleiras das portas, velhinhas tangiam bilros, a sorrir e a fazer renda, vestidas de chita, com panos envoltos na cabeça. Severino Mororó despedia-se dos fiéis. Tocou no meu ombro direito enquanto, pausadamente, dizia as últimas palavras a uma senhora devota da Santa:

- Um dia voltaremos para o céu, onde os anjos, irmãos remotos, que não desceram à terra, estão com a mesma infância e as mesmas asas. A senhora é uma forte candidata, pratique sempre o bem...

Quando se voltou para mim, tinha os olhos bons. Nele, de verdade, os olhos eram o espelho da alma. Ali estava um homem de Deus, leigo, que apareceu entre os itabaianenses da lavoura, dizendo palavras de concórdia, de consolo e de doçura, ensinando a esperança, acordando a consciência daqueles irmãos carentes das verdades cristãs. Nele se concentravam a ternura do Cristo a cada minuto e a graça do Céu a todo instante.

Desci a ladeira da Rua Padre Ibiapino, ultrapassei a linha do trem e já na Praça Epitácio Pessoa, defronte aos correios e telégrafos, encontrei-me, por acaso, com a professora Celeste, uma das mais conceituadas pedagogas do agreste paraibano, diretora de escolas e mestra por excelência do Grupo Escolar Professor Maciel. Uma educadora sem preconceito, meiga, dedicada, vocacionada para a lida do magistério. Foi ela, nos primeiros momentos de minha aprendizagem, com esmero, quem apostou no meu futuro, a despeito da minha pobreza.

- De onde tu vens, menino? - perguntou com doçura na voz.

- Da igrejinha do Sr. Severino Mororó, um homem verdadeiro, quase santo...

- Olha, recortei de uma revista este texto, lê, se gostares é teu - falou sorrindo, entregando-me um pequeno papel retangular.

Sentei-me num dos bancos redondinhos da praça e, avidamente, li a poderosa mensagem: "A vida é uma escada. O bom lugar é o meio da escada. Pode ser que, contando os que estão em cima, a gente fique triste. Mas, como quem entristece baixa a cabeça, a gente vê que os que estão embaixo são sem conta. Puxar os que estão em baixo para o meio, é melhor que querer ir para cima. Neste mundo tu não és superior a ninguém, e ninguém é superior a ti. Sê humilde. A humildade vem de Deus. Tu és um pedacinho de Deus na terra..."

Ergui os olhos, a mestra sumira na primeira esquina da praça. Coloquei o recorte no bolso da camisa e preparei-me para, nos anos vindouros, ser um pedacinho de Deus exercitando a humildade.

Reginaldo Alves de Araújo

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