terça, 17 de julho de 2018

Dança

A arte sem amarras

5 DEZ 2010Por Thiago Andrade00h:00

A relação entre homens e balé no Brasil sempre foi complicada. Por ser uma arte sempre relacionada ao universo feminino, a participação de homens é vista com estranhamento. É algo parecido com ver mulheres lutando boxe. Puro preconceito cultural! A arte deve ser livre de amarras e, pensando nisso, a Zoe Escola de Dança iniciou em fevereiro deste ano o Projeto Homens no Ballet. Nele, oportuniza-se a crianças e adolescentes carentes da Capital, entre 7 e 15 anos (embora haja adolescentes mais velhos), ter aulas de balé clássico, jazz, street dance, além de palestras e conversas sobre situações de risco que envolvem os adolescentes em idade escolar.

Com a chegada do fim do ano, como é comum nas escolas de dança, acontecem as apresentações finais. Esta é a oportunidade para que o jovens participantes do projeto se apresentem para o grande público junto aos outros alunos da escola. Como lembra André Sousa, bailarino, diretor e professor da escola, o projeto tem proposta inclusiva, portanto, não existe separação alguma entre os alunos do Homens no Ballet e os demais frequentadores da escola. “Queremos oferecer a todos a oportunidade de dançar e aprender essa arte”, descreve o professor.

Ele lembra que o projeto nasceu com o objetivo de diminuir o tempo ocioso de crianças e adolescentes que vivem nos arredores da escola de dança, localizada no Bairro Nova Bahia. “Visitei a Escola Municipal Wanderley Rosa de Oliveira, na qual ministrei palestras para cerca de 300 alunos, além de explicar sobre o projeto. Os alunos teriam aulas diárias e a preparação seria igual a de qualquer outro bailarino da escola”, descreve André.

Atualmente contando com 10 crianças de idades variadas, entre 7 e 11 anos, André explica que muitos alunos já atingiram níveis bastante avançados na dança. Para participar, segundo ele, é imprescindível que a criança esteja matriculada em alguma escola da rede pública. “Procuramos atender crianças em risco social. Elas não pagam nada e também abrimos espaço para que as pessoas ‘adotem’ um bailarino, permitindo que o projeto cresça”, explica. Segundo André, no primeiro ano as crianças passam sete horas e meia estudando balé semanalmente. No segundo ano, a carga é de nove horas.

De aluno a assistente
Márcio Elias Júnior tem 17 anos e estuda na Escola Municipal Wanderley Rosa de Oliveira. Ele acaba de terminar o nono ano e se prepara para começar no ano que vem a primeira série do Ensino Médio. Praticante de capoeira, o jovem assistiu à palestra de André Souza no começo do ano e decidiu tentar o balé. “Eu era instrutor graduado em capoeira. Entrei para a dança clássica por acaso. Em uma aula André percebeu meu potencial e explicou que havia a apresentação de fim de ano, que se eu me dedicasse poderia ter futuro no balé”, conta.

Com o tempo, Márcio passou a se dedicar integralmente, fazendo as aulas do Projeto Homens no Ballet além de outras noturnas com os homens mais velhos que também dançam na escola. “Decidi deixar a capoeira, pois estava com o joelho quase lesionado. Não me arrependo. Sinto-me muito feliz dançando”, descreve.

Em menos de um ano, o adolescente passou a auxiliar André nas aulas do projeto com as crianças menores. Segundo Sabrina Aguilella, que também é professora e diretora na Zoe Escola de Dança, o crescimento de Márcio enquanto bailarino é uma das provas de como o projeto é capaz de abrir portas para jovens se expressarem e descobrirem suas potencialidades. Para Márcio, a oportunidade de subir ao palco e se apresentar para uma plateia são as grandes realizações que espera conquistar com o balé.

Neste fim de semana, os sonhos do jovem se tornam realidade. Para o encerramento das atividades da escola, como já é tradição anual, haverá duas apresentações com os alunos no Teatro Dom Bosco. “Estou empolgado para me apresentar. Convidei toda minha família. Quero sentir como é ser assistido por pessoas que não conheço”, pontua o adolescente.

Arte e cidadania
Uma das características importantes do projeto promovido por André e Sabrina, por meio da Zoe Escola de Dança, é oferecer além das aulas de danças, oportunidades para que os alunos desenvolvam seu potencial enquanto cidadãos. “Todas as sextas, conversamos com os alunos sobre temas como drogas, sexualidade, violência, bullying, entre outros ligados aos perigos que enfrentam nas escolas e na sociedade, buscando conscientizá-los e oferecer ferramentas para que possam enfrentar o mundo”, descreve André.

Com um ano de projeto, ele acredita que além de aprenderem a dançar, os alunos cresceram enquanto pessoas e agentes de mudança nas comunidades em que vivem. “Eles aprendem aqui e reproduzem. É algo bem legal de se ver”, ressalta. Segundo André, a escola sempre teve preocupações sociais, mesmo fora do projeto, mas graças a ele, isso está tomando rumos maiores e atingindo um grande número de pessoas.

Entre elas está o Bruno Bitencourt, de 9 anos, que começou a participar das aulas há quatro meses. “Eu tento manter minhas notas boas para continuar participando do projeto. Gosto muito de dançar”, conta o menino. Cursando a terceira série do ensino fundamental, Bruno recebeu o convite para participar do próprio André. “Já aprendi muita coisa, muitos passos de ballet. Quero ser bailarino quando crescer”, finaliza, entusiasmado.

Serviço
Hoje, às 20h, haverá apresentação do balé “A fazenda”, com alunos da Zoe Escola de Dança, no Teatro Dom Bosco. Os ingressos serão vendidos na bilheteria e custam R$ 20.

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