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Campo Grande - MS, sábado, 15 de dezembro de 2018

MEMÓRIA

O dia em que a redação desabou e o jornalismo de MS conheceu sua 1ª tragédia

Teto do 'Diário da Serra' veio abaixo há poucos dias da divisão do Estado

4 OUT 2018Por RAFAEL RIBEIRO00h:05

ACONTECEU EM 1977...

Faltavam sete dias para Campo Grande festejar a sua transformação em capital do novo estado de Mato Grosso do Sul quando, por volta das 17h, a notícia  chegou: o jornal desabou.

Susto, correria, surreal, insólito... Adjetivos não faltaram para a notícia que soava ficção,mas se provou verdadeira tão logo as primeiras equipes de imprensa da época chegavam à Avenida Calógeras, na região central: o novo prédio do 'Diário da Serra', inaugurado há dois anos, viu seu teto ceder.

"Um dia negro para o jornalismo", destacava o Correio do Estado em sua edição de 5 de outubro de 1977, com uma impactante imagem da redação do então principal concorrente completamente destruída.

No texto, uma mistura entre a incredulidade do que os olhos viam e o sentimento de solidariedade, não havia espaço para a tradicional rivalidade entre veículos de informação distintos. Já em um editorial estampado na capa, a direção do 'DS', como era carinhosamente chamado, agradecia o apoio dado pelo Correio, incluindo a oferta para que suas reportagens e edições fossem produzidas e impressas com a infra-estrutura do irmão de letras. Não poderia ser diferente.

HISTÓRIA

O sonho de ver um Mato Grosso dividido soava uma distopia utópica distante quando a direção dos Diários Associados lançou o 'DS' na então interiorana Campo Grande, no dia 28 de maio de 1968.

O grupo de comunicação criado pelo renomado jornalista e empresário Assis Chateaubriand, com expressiva projeção nacional, muito pela rádio e TV Tupi e também a revista 'O Cruzeiro', verdadeiro fenômenos culturais naqueles tempos. E a inauguração do periódico campo-grandense ocorreu apenas um mês depois de seu falecimento, ainda no clima das homenagens póstumas prestadas à sua memória. 

O jornal, que viria a integrar o Grupo Correio do Estado posteriormente, ainda pertencia ao grupo de Chateaubriand quando ocorreu aquela que seria definida, nas páginas da fatídica edição, "o primeiro acidente grave com uma empresa jornalística, em toda a história do jornalismo local."

"De repente o teto, de gesso, começou a rachar longitudinalmente e, em princípio, pensou-se que era apenas alguém sobre o forro, trabalhando nas instalações", narra a reportagem do Correio, aumento o dom dramático, conforme o relato vai ganhando contornos trágicos. "Mas tudo começou a afundar e percebeu-se que algo de grave estava para acontecer. Então o diretor, César Quintas, gritou para que todos corresem: foi o que salvou a vida de muitos dos jornalistas e funcionários."

O desabamento, "com um terrível estrondo ouvido há longe", diz o texto, levou telhado e forro abaixo, atingindo toda a redação e parte do parque gráfico e departamento de diagramação. A astúcia do diretor Quintas foi prudente: apenas uma jornalista, Ana Lúcia Divas, foi parcialmente atingida, ficando com ferimentos leves na perna.


CONSEQUÊNCIAS

Passado o enfoque narrativo, o Correio tenta buscar respostas para a causa do acidente. Ainda na reportagem, é revelado que para os Bombeiros, a principal causa do ocorrido é a má construção do prédio, principalmente do teto.

"Engenheiros que vistoriaram o local ontem, criticaram a estrutura de madeira de sustentação de todo o teto, explicando que existem falhas graves na montagem: um engenheiro comentou que todo o teto poderia ter desabado há muito mais tempo", informou o Correio na edição do dia seguinte, quando o assunto foi retomado.

Entre troca de acusações do então proprietário do prédio e o engenheiro que projetou a obra, ficava a garantia de ambos de que a estrutura não fora afetada com o ocorrido, informação que se mostrou verdadeira (o prédio está de pé até hoje). Caberia à perícia tirar suas conclusões. E ao 'Diário da Serra' retomar sua vida.

Segundo a reportagem, os prejuízos foram grandes. Maquinários, documentos e até computadores recém-adquiridos foram atingidos pelos pedaços de tijolo, telha e madeira. No caso do último, uma inovação tecnológica, uma boa notícia: estavam encaixotados ainda e foram poupados de avarias.

Depois de um dia sem circular, única interrupção de circulação por motivos alheios às vontades até hoje de um jornal em Campo Grande, a redação foi levada para um prédio improvisado na Rua 14 de Julho. Por cerca de uma semana os exemplares, com páginas reduzidas, foram impresso em outro periódico tradicional daqueles tempos, o 'Jornal do Comércio'. 


  
A vida seguiu e, felizmente, o primeiro grande fato trágico do jornalismo sul-mato-grossense (por que não, afinal a divisão aconteceria em breve) terminou sem vítimas, marcando a memória pelo susto, insuficiente para interromper o jornalismo de seguir seu curso, com a união e solidariedade de todos, independente de marcas ou gêneros.

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