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Campo Grande - MS, sábado, 15 de dezembro de 2018

MEMÓRIA

Liga queria rebatizar Nova Alvorada com nome de Geisel para homenagear divisão

População local vetou proposta feita para agradar presidente que criou MS

27 SET 2018Por RAFAEL RIBEIRO22h:00

ACONTECEU EM 1977...

O dia 11 de outubro de 1977 está marcado nos corações sul-mato-grossenses. Pudera, foi nesta data que com uma canetada o então presidente Ernesto Geisel sancionou a lei que sacramentou o desmembramento do estado mais novo da Região Centro-Oeste de seu vizinho ao norte.

Com a criação, Geisel, quarto e penúltimo presidente do Regime Militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985, criou laços afetivos fortes em nosso Estado. Uma das principais avenidas de Campo Grande, que corta a cidade ligando as regiões norte a sul, tem o seu nome. Além disso, o gaúcho de bento Gonçalves, considerado um dos chefes de Estado mais ponderados do período e responsável direto não só por controlar a linha dura das Forças Armadas como organizar a abertura política que aconteceria em 1979, com a anistia geral, nomeia de rodoviária a praças públicas, passando por hospital e prédio de vigilância sanitária, por todas as cidades de Mato Grosso do Sul.

Mas foi por pouco, muito pouco, que Geisel, ainda em vida, não virou nome de um território. Uma tentativa inicial de 'afago' da então Liga dos Munícipios do Sul de Mato Grosso, principal braço divisionista do antigo estado integrado, que depois seria a maior das homenagens ao então presidente pela separação.

"Nova Alvorada decide domingo se será 'Presidente Ernesto Geisel'", estampava a chamada da página sete da edição do dia 29 de setembro do ano da divisão do Correio do Estado. "Os principais líderes do Distrito de Nova Alvorada, no município de Rio Brilhante, reúnem-se neste domingopara tomar uma importante decisão: autorizar ou recusar a alteraçaoda atual denominação para Distrito 'Presidente Geisel', de acordo com sugestões feitas por divisionistas, que pretendem prestar ao chefe da Nação uma homenagem pela sua decisão em promover a divisão territorial de Mato Grosso", diz o texto.


A reportagem contou que integrantes da Liga escolheram o então território de Nova Alvorada pelo fato do local, situado no 'cruzamento' das BRs 163 (ligação entre Dourados e Rondonópolis, no norte) e 267 (Campo Grande ao estado de São Paulo), ter sido 'inaugurado' há apenas dois anos, ganhando o nome pouco criativo de 'Vila Entrocamento'.

Longe da sede administrativa de Rio Brilhante, a quem pertencia na épóca, o vilarejo foi alçado ao posto de distrito no início daquele 1977, quando camponeses se reuniram e criaram a Comissão Pró-Desenvolvimento de Nova Alvorada e oficializaram o nome, mais agradável e esperançoso.

A ideia da Liga sulista veio com a própria desavença entre os então 800 habitantes do local por causa do nome. Muitos preferiam 'Tarcilândia', uma outra homenagem, mas ao pecuarista dono da fazenda que empregava grande parte dos moradores.

A decisão pela renomeação homenageando Geisel partiu, além da própria  insatisfação parcial local, da esperança que, homenageando o presidente e com o novo estado que estava se formando, a condição de vida melhorasse. Na Nova Alvorada de 1977 faltava água encanada, luz elétrica, saneamento básico, asfalto, novas ruas e um projeto urbano claro.

"Enquanto que uma parte dos alvoradenses acreditam que a mudança e, principalmentea homenagem, obrigará o novo governo do Mato Grosso do Sul a promover várias melhorias na localidade, que vem apresentando um índice de crescimento muito animador nos últimos três anos. Os que defendem, cautelosamente, a nova denominação, afirmam que o governador do novo estado, seja ele qual for, se empenhará em dotar o distrito, na zona urbana, de luz, energia e água encanada", diz o segundo texto do Correio sobre o assunto, já em 14 de outubro.

RESISTÊNCIA

"Nova Alvorada ainda não decide se aceita mudar para 'Presidente Geisel'", é a chamada de reportagem da página 7, três dias depois da oficialização de Mato Grosso do Sul. Segundo a reportagem, duas reuniões foram feitas, sem um sucesso na aceitação ou não da sugestão, que seria deifnitivamente recusada no fim daquele mês. O motivo: evitar seguidas mudanças de nome do antigo vilarejo.
 
O texto diz que as apresentações nos encontros foram pouco aprofundadas. Apesar da pressão das lideranças, fazendeiros e comerciantes, os moradores bateram o pé na troca: homenagear Geisel, mas com melhorias em troca."Senão o presidente homenageado iria acabar se ofendendo com um distrito tão feinho", diz um morador ao Correio, que pondera a realização de um jardim no entrocamento das duas rodovias, feito pelo Departamento Nacional de Estradas de Rodagens, como a única coisa inaugurada no distrito.

"Teme-se, inclusive, que uma indecisão prolongue o impasse e possa surgir outro distrito para homenagear o presidente divisionista, que fatalmente redundará em prejuízos para Nova Alvorada", afirmou a reportagem, ponderando novamente que nenhuma das promessas feitas pelas lideranças políticas em troca da mudança de nome "foram formalizadas até então."

Também pressionado, o então prefeito de Rio Brilhante, Arthur Trombini, minimizou a questão. "Deixou claro que é favorável, mas que não vai interferir, preferindo que os moradores do distrito tomem uma decisão sem pressões a favor ou contra", apontou o Correio.

E a decisão veio, contra a renomeação para homenagear Geisel. Na reportagem a pressão que fez efeito viera de Cuiabá, pelo último governador de Mato Grosso unificado, José Garcia Neto, "contrário à divisão e desinteressado em prestar a homenagem."


DE VILAREJO A MUNICÍPIO

O tempo passou, Nova Alvorada manteve seu nome (apesar do apelido Entrocamento permanecer) e, em 27 de outubro de 1991, uma nova decisão popular, agora por meio de plebiscito, decidiu pela emancipação de Rio Brilhante como município. Com outra caneta 14 anos depois, a do governador Pedro Pedrossian, nascia a 'Cidade Jovem', hoje com cerca de 14 mil habitantes, número quase 17 vezes maior.

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