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MEMÓRIAS

Da glória à tragédia: a Minicopa de 1972 em Campo Grande

Competição que celebrou 'Brasil grande' apresentou futura Capital ao mundo, mas história teve final trágico

20 JUN 19 - 22h:00RAFAEL RIBEIRO

ACONTECEU EM 1972...

Bom dia, boa tarde, boa noite nossos queridos e estimados leitores. Como estão vocês? Espero que maravilhosamente bem... 

Pois bem, estamos de volta após longo inverno para trazer a coluna mais amada do jornalismo sul-mato-grossense, as Memórias do Correio do Estado. E para celebrar esse momento, vamos falar da paixão natural: futebol.

Depois de 20 anos a Copa América volta a ser disputada no Brasil. Chance concreta da Seleção tentar apagar o vexame da goleada por 7 a 1 sofrida para a Alemanha em 2014, ano em que a Copa do Mundo voltou a ser jogada por aqui. 

Mas, se os campo-grandenses só têm a possibilidade de ver as partidas pela televisão, visto que o Morenão capenga com interdições e péssimo estado de conservação, em 1972 a coisa era muito diferente. Em tudo.

Campo Grande se tornaria uma capital de estado apenas cinco anos depois, mas em 1971 podia inaugurar o Morenão pelas mãos do então governador Pedro Pedrossian, que batizaria o espaço oficialmente, mesmo sem ter futebol ainda profissional.

O Morenão integrava o cenário do 'Brasil grande', uma espécie de ideologia imposta pelo regime militar que vigorava no Brasil naquele momento e vivia uma espécie de apogeu, com diversos setores em alta, como economia (vivia-se o milgare brasileiro) e esportivo (a Seleção Brasileira aabara de conquistar o tricampeonato mundial na Copa de 1970, no México).

Não demoraria até esses mesmos setores entrarem em decadência. E é disso que esse texto trata. Dias depois de Campo Grande viver o sonho de sediar uma competição internacional, a Taça Independência, chamada na época de MiniCopa, um dos assuntos dessa coluna, o preço pago foi o desabamento de parte da marquise do Morenão, que por sorte estava vazio. O primeiro da s´rie de incidentes que marcariam a história do principal palco do futebol local.

Venha com a gente vivenciar aquele turbilhão de emoções que guiou os campo-grandenses naquele fatídico 1972, de alegrias e choro, glórias e dramas.

A inauguração: Flamengo x Corinthians, os times mais populares do País, cumpriam as ordens dos militares de plantão e inauguravam mais uma praça esportiva, em 1971

UM MONSTRO CHAMADO MINICOPA

Antes mesmo de Carlos Alberto erguer a taça Jules Rimet no México após a conquista do tri, o general de plantão na presidência, Emílio Garrastazu Médici, já assegurava a criação de um grande torneio de futebol de seleções para comemorar orneio de futebol de seleções para comemorar os 150 anos (ou o chamado Sesquicentenário) da independência do Brasil. 

Correio no dia 20 de junho de 1970: o Brasil entraria em campo para a final contra a Itália. O presidente da vez já falava em uma competição de grande porte para celebrar o gigantismo laureado pela ditadura

A ideia só foi fomentada na Confederação Brasileira de Desportos (CBD), então responsável pelo futebol, no ano seguinte, quando seu então presidente, João Havelange, viu uma chance mais que especial de subir degraus rumo ao grande objetivo pessoal: a presidência da Fifa, entidade máxima do futebol mundial, cuja eleição aconteceria em 1974.

 A ideia parecia boa. De fato era. Tanto é que o maior rival de Havelange, o inglês Stanley Rous, então mandatário da Fifa, não tardou para anunciar apoio à Mini-Copa logo no início daquele ano. Após confirmar a chancela da federação internacional ao torneio, Sir Rous veio ao Brasil em agosto de 1971 acompanhado de alguns dirigentes para verificar a estrutura oferecida nas cidades apontadas como sedes.

No dia 6 daquele mês, um sábado, Stanley Rous anunciou na sede da CBD, no centro do Rio, o regulamento da competição e o resultado do sorteio dos grupos. Haveria uma fase preliminar, com três chaves de cinco seleções cada, nos quais os campeões avançariam à etapa seguinte. Nesta, os três classificados se juntariam aos cinco campeões mundiais (Brasil, Alemanha Ocidental, Inglaterra, Itália e Uruguai), sendo novamente divididos em dois quadrangulares, que apontariam os finalistas, bem como os times que decidiriam o terceiro lugar.

A grande notícia, entretanto, era a confirmação de Campo Grande como sede, única cidade de interior a ter presença na festa e cujo palco, o Morenão, recebia os preparativos finais para ser confirmado por CBD e Fifa como sede.

Naquele sorteio, a divisão dos grupos preliminares ficou assim: no 1, jogado em Salvador, Aracaju e Maceió, estariam Argentina, França, México, Colômbia e o representante asiático, ainda a ser definido. No 2, sediado no Recife e em Natal, jogariam União Soviética, Portugal, Chile, Equador e o representante africano, também pendente. Já no 3, disputado em Manaus e Campo Grande, participariam Iugoslávia, Peru, Paraguai, Bolívia e Venezuela. Também ficaram acertadas as sedes da segunda etapa: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Correio do dia 21 de janeiro de 1972: a língua portuguesa ia mudar. E o Morenão corria contra o tempo pelas adequações exigidas pela Fifa

Ainda naquele mês, foi anunciado que a CBD teria uma despesa total de US$ 4 milhões (o equivalente a Cr$ 21 milhões) na organização do torneio, incluindo passagens internacionais, hospedagem completa, viagens dentro do território nacional e a cota de participação de cada seleção. Deste montante, a entidade esperava recuperar pelo menos US$ 3,5 milhões em receitas. Ao campeão, estava reservado um prêmio total de US$ 150 mil líquidos, distribuído entre as partidas da segunda fase e a final – que valeria sozinha US$ 50 mil.

Correio em 12 de maio: em 'agradecimento', o então governador Pedrossian abre mão de qualquer imposto que o então Mato Grosso unificado teria direito. Qualquer semelhança com 2014 não é mera coincidência

 ENTRE O ANÚNCIO E A BOLA ROLANDO

Mesmo assim, as desistências entre os participantes não demorariam a surgir. Já no fim de 1971 comentava-se que dificilmente os clubes ingleses e italianos liberariam seus jogadores para virem ao Brasil. Em fevereiro do ano seguinte, a Alemanha Ocidental interpôs uma série de exigências que irritaram os cartolas brasileiros, e as conversas foram encerradas. O México também acabou desistindo depois que o presidente do América local, Guillermo Cañedo, recusou-se a ceder quatro jogadores de seu clube para a seleção. Era preciso tapar os buracos.

No caso da Inglaterra, depois de confirmada a desistência, várias alternativas foram tentadas. Falou-se numa seleção britânica, que mesclaria nomes como Gordon Banks, Bobby Moore, Denis Law e George Best, mas a ideia não vingou. Depois, a Espanha passou a ser sondada, mas recusou por pressões de alguns clubes, como o Real Madrid, e pela falta de interesse do técnico Ladislao Kubala. Por fim, apareceu a Escócia, que não colocou empecilhos e ganhou inclusive a vaga direta na segunda fase, a qual os ingleses teriam direito.

Confirmadas as desistências de Alemanha Ocidental e Itália, foram convidadas a Tchecoslováquia (que aceitou oficialmente no começo de março) e a Irlanda (após outras desistências, como de Áustria e Grécia). O ‘sim’ dos irlandeses alterou a formação das chaves, já que esta seleção acabou incluída no Grupo 2 da fase preliminar, remanejando a União Soviética para a segunda fase. Na Ásia, o Irã se habilitou como representante. Já quanto à África e quanto ao substituto do México, a pendência foi resolvida com a organização de combinados regionais.

A capa do boletim elaborado pela CBD, tratando sobre a competição

O torneio também teria ampla cobertura televisiva para o Brasil e o mundo, por meio de um ‘pool’ de emissoras formado por Globo, Tupi e a Rede de Emissoras Independentes (REI), de São Paulo. A Globo exibiu dez partidas, a Tupi mostrou nove e a REI produziu os tapes para o exterior. A novidade era a transmissão em cores, inaugurada há menos de quatro meses no país. Os jogos eram exibidos ao vivo para todo o Brasil, menos para as cidades onde eram disputados, que ficavam com a exibição do videotape, mais tarde.

Em abril de 1972, com a inclusão de Curitiba, o torneio passou a contar com 12 cidades-sede. Além de Campo Grande, alguns estádios também foram erguidos há poucos anos, como o Beira-Rio (Porto Alegre), o Rei Pelé (Maceió), o Batistão (Aracaju) e o Vivaldão (Manaus), outros dois foram construídos com vistas ao torneio: o Castelão (mais tarde Machadão) de Natal e o Arruda, no Recife.

Outros também foram reformados: o Maracanã ganhou nova iluminação e o Couto Pereira foi ampliado, além da Fonte Nova, que já tinha sido reinaugurada com capacidade aumentada no ano anterior. Chegou a ser cogitada a possibilidade de Brasília ser incluída, mas o estádio Pelezão não teve suas obras concluídas a tempo. A tabela também apresentou uma alteração de última hora: o Irã e a seleção da África foram trocados de grupos na fase preliminar.

CAMPO GRANDE EM FESTA

25 de maio: Correio entra de vez na festa pela Minicopa

Com Campo Grande confirmada como sede, três jogos foram marcado para o Morenão: Paraguai x Venezuela, Peru x Paraguai e Ioguslávia x Bolívia.

A Minicopa foi recebida com empolgação pelos campo-grandenses, então se sentindo valorizados em um cenário de que a Capital ainda era uma cidade interiorana pacata. E o Correio não poderia ficar de fora da festa. Por praticamente todo aquele junho de 1972, a competição esteve presente na capa (não raro na manchete).

Para agradar os visitantes, o jornal publicou colunas especiais com notas, dados e curiosidades de todas as seleções participantes.

29 de maio: Havelange aprova o Morenão e confirma Campo Grande como sede ao lado de Manaus no Grupo C

 A Cidade Morena se transformou, segundo os relatos. Os ônibus foram decorados com bandeiras. Na programação às delegações, visitas ao Museu do Índio e banquetes com churrasco típíco.

Delegações e representantes da Fifa e CBD ficaram hospedados no Hotel Campo Grande, que se transformou no quartel-general da organização na cidade, palco de encontro dos vários jornalistas brasileiros e estrangeiros que vieram à cidade para a cobertura do evento (o Correio somou mais de 52 credenciados para os jogos).

Nos bastidores, pressão por parte do comitê campo-grandense para que o jogo entre Paraguai e Bolívia saísse de Manaus para o Morenão "por motivos óbvios", pedido que acabou negado posteriormente por Havelange, para frustração local.

Para garantir o público, o então governador José Fragelli decretou feriado estadual no Mato Grosso unificado nos dias dos jogos realizados no Morenão. Medida deveras exagerada.

1 de junho: ingressos à venda. Enquanto na atual Copa América o preço médio dos bilhetes veira os R$ 500, em 72 o valor não saía mais do que R$ 15 em valores atualizados

OS JOGOS

12 de junho: batalha campal marcou rpimeiro confronto no Morenão

Única seleção não sul-americana do Grupo 3, a Iugoslávia era a favorita da chave e estreou a todo vapor, esmagando a Venezuela por sonoros 10 a 0 no Couto Pereira, com cinco gols de Dusan Bajevic, naquela que se tornaria a maior goleada da seleção balcânica em sua história. Nos outros três jogos, porém, sofreu um bocado: ficou no empate em 1 a 1 com a Bolívia do experiente atacante Ramiro Blacutt e venceu apertado o Paraguai do atacante Carlos Diarte e o Peru, tido como a segunda força do grupo, ambos por 2 a 1.

Foram os paraguaios, no entanto, que terminaram com a segunda colocação, após derrotarem a seleção peruana em seu segundo jogo por 1 a 0. Os peruanos mantinham a base que fez grande campanha na Copa de 1970 (com Teófilo Cubillas, Héctor Chumpitaz, Ramón Mifflin, Hugo Sotil, Alberto Gallardo, entre outros) e mostravam novatos como Juan José Muñante e César Cueto. Mas sucumbiram à desorganização, depois de terem trocado de técnico – o húngaro Lajos Baroti deu lugar ao uruguaio Roberto Scarone – às vésperas da competição.

Outro fato digno de nota foi a verdadeira batalha campal transcorrida no jogo entre Paraguai e Venezuela, vencido pelos guaranis por 4 a 1 em Campo Grande, na rodada de abertura, em 11 de junho. Aos 25 minutos do segundo tempo, com o placar já definido, todos os 22 jogadores mais os reservas de ambas as equipes – que invadiram o gramado – engalfinharam-se sob o olhar complacente do árbitro ganês George Lamptey. Apesar do papelão, que só terminou com a entrada da polícia em campo, ninguém foi expulso.

 

19 de junho: a zebra boliviana apronta para cima da favorita Ioguslávia 

A TRAGÉDIA

17 de junho: o Correio exalta a experiência e chor aa saudade. Nunca mais Campo Grande viu um evento esportivo desse porte em seu principal palco, sucateado ao longo dos anos 

 Nos últimos anos, os poucos fãs que se mantém leais ao futebol sul-mato-grossense vivem a agonia da liberação ou não de seus estádios. Sucateado, o Morenão, principal palco do esporte na cidade, vive com o pesadelo de interdições. Mais de 60% do estádio hoje, por exemplo, é fechado ao público.

Mas não é algo essencialmente novo. Dois dias depois do último jogo da Micopa na cidade, os desavisados devem ter levado um susto: parte da marquise do Morenão desabou. Sorte que com o estádio vazio. Primeira de uma série de incidentes registrados no estádio desde então e cuja lenda de que o Morenão era um estádio perigoso ajudou a se perpetuar ao longo do tempo.

20 de junho: a tragédia após a festa 
21 de junho: a icônica capa do Correio que marca o título dessa coluna: ao alto, a dor pela despedida definitiva da Minicopa da cidade. Abaixo, a lamentação do incidente ocorrido no estádio 

A SELEÇÃO BRASILEIRA

A Seleção Brasileira que disputou a Minicopa em 1972, com: Zé Maria, Leão, Brito, Vantuir, Clodoaldo e Marco Antônio; Jairzinho, Gérson, Rivellino, Tostão e Caju

Pelé havia se despedido da Seleção em julho do ano anterior, em amistosos contra a Áustria no Morumbi e a Iugoslávia no Maracanã. Embora muito se tentasse para demovê-lo da decisão, até mesmo alegando-se que a Minicopa seria um palco mais apropriado para o fim de seu ciclo, ele acabou mantendo a palavra e já seria um desfalque certo. E como já havia se passado dois anos do título mundial no México, era a hora do técnico Zagallo começar a pensar em renovação no time, de olho na Copa seguinte, a ser disputada na Alemanha Ocidental.

Alguns novos nomes já haviam sido trazidos nos amistosos de 1971 e na Copa Roca daquele ano. Mas o time do México ainda seguia formando a base. Em 1972, porém, alguns já haviam caído de rendimento ou mesmo não se incluíam mais no estilo de jogo imaginado pela comissão técnica. Era o caso do lateral-esquerdo Everaldo, do Grêmio, tido como um jogador mais tímido no apoio ao ataque, e por isso preterido ao mais audacioso Marco Antônio, do Fluminense, agora livre do argumento da inexperiência que o levou a ser sacado do time no Mundial.

O problema é que abrir mão de Everaldo provocou reação violenta entre a crônica e a torcida do Rio Grande do Sul: num amistoso contra o combinado gaúcho, os torcedores vaiaram o hino nacional, a Seleção e queimaram bandeiras. O lateral, porém, teve reação oposta ao saber do corte: “Agora, de jogador, passo a torcedor da Seleção”. Além dele, outros dois titulares de 1970 se apresentaram fora de forma: o capitão Carlos Alberto Torres (Santos), voltando de lesão, e Piazza (Cruzeiro), que passou à reserva da cabeça de área.

Alguns nomes que se destacaram após a Copa também ganharam chance, como os zagueiros Marinho Peres (Portuguesa) e Vantuir (Atlético-MG) e o atacante Leivinha (Palmeiras). Outros ganhavam nova chance, como o armador Dirceu Lopes (Cruzeiro) e o ponta-direita Rogério (Flamengo), que após ter sido cortado da Copa, permaneceu no México como “espião”. Já o nome mais surpreendente foi o lateral-esquerdo Rodrigues Neto (Flamengo), jogador versátil (podia atuar nas duas laterais, no meio ou na ponta), duro na marcação e dinâmico no apoio.

A lista inicial contava ainda com dois nomes jovens e tidos como promissores, que também causaram surpresa: o zagueiro Osmar (Botafogo) e o ponta-de-lança Washington (Guarani), de 19 e 20 anos, respectivamente. No entanto, a dupla ficaria por pouco tempo no grupo: ambos foram dispensados no início de junho para se juntarem à equipe olímpica que disputaria os Jogos de Munique. Para a vaga de Osmar foi chamado Luís Carlos, do Corinthians, enquanto o ponta-esquerda Lula, do Fluminense, substituiu Washington.

Naquele mesmo dia, Carlos Alberto Torres também foi cortado em definitivo, em virtude de seus problemas de joelho. O palmeirense Eurico, que já havia sido chamado no ano anterior, voltou a ser convocado para a reserva. Semanas antes, houve ainda o corte do goleiro Félix (Fluminense), por uma fissura num dos dedos das mãos sofrida durante uma partida do clube no Campeonato Carioca. Para seu lugar, depois de especulados os nomes de Renato (Flamengo) e Wendell (Botafogo), foi chamado o são-paulino Sérgio, com Leão (Palmeiras) alçado à titularidade.

Os demais eram todos tricampeões: o lateral-direito Zé Maria (Corinthians), o zagueiro Brito (Botafogo), os meias Clodoaldo (Santos), Gerson (Fluminense), Rivelino (Corinthians) e Paulo Cézar Caju (Flamengo) e os atacantes Jairzinho (Botafogo), Dario (Atlético-MG) e Tostão (que havia acabado de trocar o Cruzeiro pelo Vasco). A comissão técnica também era a mesma de 1970, com Cláudio Coutinho de supervisor e Antônio do Passo chefiando a delegação.

Vencedora do Grupo 3 da fase preliminar, a Iugoslávia avançou para o Grupo A da fase final, o qual teve como pré-classificados o Brasil, país-sede, a Tchecoslováquia e a Escócia. Por ironia, a seleção brasileira teria, assim como no México, os tchecos como adversários de estreia e em seguida enfrentaria as duas seleções europeias contra quem duelaria em sua chave na Copa do Mundo da Alemanha Ocidental, dali a dois anos. Os resultados, no entanto, foram bastante diferentes em relação ao Mundial anterior quanto ao seguinte.

Se em Guadalajara, o Brasil sairia atrás, mas golearia a Tchecoslováquia por 4 a 1, no Maracanã não conseguiria furar a defesa adversária, parando num frustrante 0 a 0 na primeira rodada, em 28 de julho. Com Tostão vestindo a camisa 10 e Rivelino com a 9, além de Paulo Cézar fazendo a função de falso ponta, a Seleção chutou pouco a gol e foi presa até certo ponto fácil para a defesa europeia, que mantinha alguns remanescentes de 1970, como o goleiro Ivo Viktor.

Na segunda rodada, em 2 de junho, a Seleção pareceu deslanchar ao bater a Iugoslávia por 3 a 0 no Morumbi. Paulo Cézar se lesionou logo aos dez minutos e deu lugar a Leivinha, que ofereceu mais movimentação ao ataque brasileiro. Rapidamente, os gols saíram: aos 19 minutos, Marco Antônio levantou cobrança de falta na área e Leivinha cabeceou para abrir o placar. Três minutos depois, em outro levantamento de falta, Tostão desviou e novamente o atacante palmeirense apareceu para mandar para as redes. No fim da etapa, Gerson ainda acertou o travessão.

No segundo tempo, os iugoslavos voltaram pressionando e também acertaram trave e travessão num mesmo lance. Mas, depois de Miroslav Pavlovic salvar em cima da linha uma bola de Marco Antônio que chegaria a Clodoaldo, o Brasil voltou a marcar: Jairzinho aproveitou um erro de domínio na defesa iugoslava, invadiu a área e chutou forte, de pé esquerdo, para vencer novamente o goleiro Enver Maric e dar números finais ao placar. No outro jogo, em Porto Alegre, Escócia e Tchecoslováquia empataram sem gols em partida fraca.

O Brasil abriu a última rodada jogando na quarta-feira, dia 5 de julho, voltando ao Maracanã para enfrentar a Escócia. Num jogo muito amarrado, com Billy Bremner e George Graham disputando o controle do meio-campo com os brasileiros, o placar só saiu do zero a oito minutos do fim, quando Rivelino recebeu na esquerda e alçou a bola para a área, encontrando Jairzinho que, de peixinho, mandou para as redes de Bobby Clark, selando a vitória e a classificação.

A liderança do outro grupo e a vaga na final contra o Brasil ficaram mesmo com Portugal. Até a disputa da Eurocopa em 2004, quandof oi derrotada pela GRécia, esta foi a única final da seleção portuguesa na história.

A DECISÃO

Brasileiros dão a volta olímpica para comemorar o título

Disputada em 9 de julho no Maracanã, a final teve como preliminar a decisão do terceiro lugar, na qual a Iugoslávia não teve dificuldade para bater a Argentina por 4 a 2. Bajevic abriu o placar, teve um outro gol anulado e, logo depois, bateu falta que Santoro deu rebote e Josip Katalinski aproveitou para ampliar. Na etapa final, Oscar Más descontou de pênalti aos 14, mas no minuto seguinte Dzajic, o melhor em campo, fez o terceiro dos balcânicos cobrando falta.

Até que, aos 23 minutos, uma troca de socos entre o atacante Roque Avallay e Katalinski fez o tempo fechar. A briga, que teve participação até dos reservas, durou cerca de sete minutos e terminou com o lateral iugoslavo e Pastoriza expulsos. Após a batalha campal, o nível do jogo caiu, mas ainda houve tempo de Bajevic aproveitar erro de passe de Rubén Díaz defesa argentina e marcar o quarto, antes de Brindisi diminuir em novo pênalti.

Brasil e Portugal, por sua vez, fizeram uma partida tensa, repleta de drama e decidida apenas no fim. Ainda no primeiro tempo, a Seleção perdeu Marco Antônio, que sentiu a coxa e deu lugar a Rodrigues Neto aos 35 minutos. Na etapa final, Zagallo lançou o centroavante Dario no lugar de Leivinha, e o ataque brasileiro passou a incomodar mais, mas os lusos também levavam perigo em contra-ataques e chegaram a acertar o travessão num lance com Jordão.

Quando os portugueses já começavam a gastar o tempo aguardando a prorrogação, Jairzinho apanhou uma sobra da defesa portuguesa, fez jogada pela direita e foi derrubado pelo lateral Adolfo aparentemente dentro da área, mas o árbitro israelense Abraham Klein marcou falta fora, quase na linha de fundo. O camisa 7 chegou a se posicionar para bater, mas Rivelino pediu a bola. O meia levantou na área e o Furacão apareceu antes do goleiro José Henrique, desviando para as redes e pondo fim ao sufoco. Aos 43 minutos, êxtase no Maracanã.

Não houve tempo para mais nada em campo. No banco, Zagallo abraçava o supervisor Antônio do Passo. Nas tribunas, após o apito final, o capitão Gerson (que herdara a braçadeira do cortado Carlos Alberto) recebia a taça das mãos do presidente Emílio Garrastazu Médici. Por ironia, o meia, então já na descendente da carreira, faria ali sua despedida da Seleção. Brito (outro que não manteve o nível nos anos seguintes) e Tostão (que penduraria as chuteiras em breve) também nunca mais defenderiam o Brasil após a Minicopa.

Das oito seleções que disputaram a fase final do torneio, três não chegariam à Copa de 1974: mesmo com a campanha animadora na Minicopa, Portugal perderia a vaga no Mundial para a Bulgária. A Tchecoslováquia seria eliminada pela Escócia. E a União Soviética, depois de superar França e Irlanda em seu grupo europeu, decidiria não vir a Santiago enfrentar o Chile pela repescagem intercontinental, após ter rompido relações diplomáticas com o país andino em meio ao golpe militar que levou o general Augusto Pinochet ao poder.

Se a Taça Independência não chegou a ser um sucesso de público (exceto nos jogos do Brasil e, em menor escala, de Portugal), nem agradou plenamente do ponto de vista técnico, serviu como prévia das dificuldades que o Brasil encontraria na Copa seguinte contra equipes mais fechadas do que no México. E contribuiu ainda para alimentar não só o clima de ufanismo incentivado pelo regime militar (que surfava na onda das conquistas do futebol), como também para impulsionar a candidatura de João Havelange à chefia da Fifa, vitoriosa dali a dois anos.

*SOBRE O AUTOR: Rafael Ribeiro é jornalista desde 2004, graduado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Paulistano, mora em Campo Grande desde 2016 e também é graduado em História pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Estudos Brasileiros pela Fundação Escola Paulista de Sociologia e Política de São Paulo.

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