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MEMÓRIA

'Delegado mais famoso do Brasil' veio ver crime que quase atrapalhou criação de MS

Temido, Fleury foi a solução para acalmar crise política

14 FEV 19 - 18h:30RAFAEL RIBEIRO*

ACONTECEU EM 1978...

Sérgio Paranhos Fleury.

Desconhecidos para alguns, para muitos o nome desse fluminense de Niterói, nascido em maio de 1933, é mais do que conhecido.

Pudera. Delegado Fleury, alcunha pela qual entrou para a história fez fama. À frente do Departamento de Ordem e Proteção Social (Dops) de São Paulo por mais de dez anos foi um dos maiores e mais temidos agentes da repressão imposta pelo regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985.

Delegado desde 1966, Fleury chegou ao Dops dois anos depois e fez história por todo o Brasil na primeira operação em que pariticpou: participou da prisão de cerca de 1.000 estudantes da União Nacional dos Estudantes (UNE) em congresso clandestino realizado em Ibiúna (SP), na qual lideranças esquerdistas como José Serra e José Dirceu acabaram detidos pelo regime.

Meses depois, já em 1969, Fleury ganhou mais pontos com os militares ao esquematizar e executar o plano de captura do lider comunista Carlos Marighella, acusado de terrorismo, que acabou morto em suposta troca de tiros com o delegado e sua equipe na região central de São Paulo (SP).

Sem Marighella, espécie de guru dos guerrilheiros esquerdistas daqueles tempos, foi novamente manchete em todo o País ao desarticular inúmeros 'aparelhos', como eram chamadas as bases clandestinas de reuniões dos comunistas.O mais famosos deles foi o da Lapa, bairro da zona oeste paulistana, na qual cinco pessoas foram mortas e dois policiais baleados, naquele mesmo ano.

HISTÓRICO

Bom dia, boa tarde, boa noite...

Tá certo caro leitor, eu sei que você deve estar se perguntando: onde esse escriba quer chegar? O que isso tem a ver com o Mato Grosso do Sul?

Pois bem, desde que a MEMÓRIAS DO CORREIO entrou no ar, nossa missão é resgatar fatos históricos publicados em nossas páginas, quase sempre traçando um paralelo com o ambiente histórico da época.

E se eu contasse para você que as histórias de Fleury e da divisão do Estado em algum momento se cruzaram? Pois bem, como acho que nem nas suas aulas de história a professora falou, essa você só vai ficar sabendo aqui mesmo...

DIVISÃO PACÍFICA, SÓ QUE NÃO

E eis que para nosso espanto, no dia 15 de fevereiro de 1978 o Correio do Estado estampava em sua manchete: "Delegado Fleury chega hoje para investigar morte de Levy Campanhã"     

Vamos aos fatos. Meses após o presidente Ernesto Geisel assinar a famigerada 'Lei da Divisão' que criou o Mato Grosso do Sul, um crime abalou as estruturas do então último governo do estado unificado: Levy Campanhã de Souza, então assessor da Casa Civil mato-grossense, foi morto a tiros durante o trajeto de uma viagem a Campo Grande, em 24 de dezembro de 1977.

A ironia pelo lado sulista e a temeridade pelo lado nortista: Campanhã era divisionista e o objetivo de sua viagem era apresentar dados ao comitê instaurado por Geisel para a criação do nosso Estado, cuja máquina entraria em funcionamento de vez no ano seguinte. 

Da data do crime, na véspera de Natal, até a manchete do Correio, as trocas de acusações e teorias se tornaram frequentes em meio ao não encontro de um mísero suspeito, sempre envolvendo a motivação política do caso. No sul, falava-se que o mando tinha sido de deputados insatisfeitos com a divisão. Um crime desses poderia deover o presidente da ideia da divisão. 

No norte, o então governador Garcia Neto, publicamente contrário à divisão, falava em "golpe contra sua gestão", cobrou publicamente os policiais da então futura capital pela demora em uma solução para a execução e ameaçava pedir ajuda para autoridades de outros estados.

O estopim veio no início de fevereiro, quando Neto criticou o então chefe da Polícia Civil campo-grandense, Aloysio Franco de Oliveira, por ter tirado férias em meio a um "caso de tamanha complexidade." Avisado por subalternos dos planos de colocar a investigação a cargo de um forasteiro, o delegado agiu. E na volta do Rio de Janeiro, onde nascera, trouxe na bagagem o amigo Fleury.

AUTÓPSIA DO MEDO    

Antes de prosseguirmos, vamos voltar de novo no tempo.

Pela sua participação nas ações desenvolvidas pelas Forças Armadas do Brasil durante a chamada "guerra subversiva", foi condecorado pelo Exército Brasileiro com a Medalha do Pacificador e pela Marinha do Brasil com a de Medalha Amigo da Marinha.

Mas a fama do outro lado de Fleury crescia na mesma proporção. Vários depoimentos, testemunhas e relatos de presos políticos apontam que, sistematicamente, o delegado torturava as pessoas durante os interrogatórios que comandava. Vários dos militantes capturados por ele não resistiram às torturas e morreram. 

Ao contrário dos métodos do Exército, empregados na repressão aos movimentos subversivos nos demais estados brasileiros, que copiavam modelos empregados pela França e pelos EUA na luta contra a insurgência, envolvendo equipamentos sofisticados e até o uso de satélites, Fleury adotou a inversão dessa tática. 

Um artigo, publicado na revista Veja de 12 de novembro de 1969, ressaltava que o sucesso de Fleury no combate à luta armada da esquerda se deveu à sua experiência no combate aos criminosos comuns. Para ele, a motivação política era secundária. "Um assalto a banco, praticado por um subversivo, deveria ser investigado como um assalto comum. O subversivo que roubasse um automóvel deveria ser procurado como qualquer "puxador", disse. 

A tática usada no cerco a Carlos Marighella foi a mesma empregada na captura de bandidos comuns. A revista, entrevistando um delegado do Dops paulista, obteve a seguinte informação: "quando a gente prende um malandro, ladrão ou assassino, enfim um bandido, e a gente sabe que ele tem um companheiro, obrigamos o preso a nos levar até o barraco onde o outro mora. O bandido vai lá, bate na porta, o outro pergunta: "quem é?', e o bandido responde: "sou eu". O camarada abre a porta e entram dez policiais junto com o bandido". "Foi assim que Fleury obteve sucesso no combate à subversão: em cada dez diligências, sete eram proveitosas."

Com o fim da 'luta armada' pela esquerda, presa, morta ou exilada, Fleury e seu Dops foram guiados para a contravenção. No caso do delegado, restou o envolvimento com o famoso Esquadrão da Morte, que executava suspeitos de crime sem sequer levá-los ao sistema judiciário, e o tráfico de drogas.

Sobre essa última atribuição, uma curiosidade. Em outubro de 1969, Fleury e sua equipe foram chamados por um comerciante financiador do Esquadrão da Morte que estranhou a movimentação constante de jovens em um prédio residencial vizinho a seu bar na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo (SP). Ao subir no telhado, observou moças seminuas e o consumo de cigarros suspeitos. Quando o temido delegado chegou, a surpresa: era o estúdio de José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que filmava o seu polêmico 'Ritual dos Sádicos', filme quase que desconhecido do diretor que trata sobre o consumo de drogas. Fleury gostou tanto da ideia que topou o convite para gravar cenas em que aparece demonstrando a 'luta policial contra os tóxicos.' Nada adiantou para comover a censura federal, que proibiu totalmente o filme, lançado comercialmente só em 1987, após a redemocratização do País, já rebatizado de 'O Despertar da Besta'.

Fleury em cena de 'Ritual dos Sádicos', o mais polêmico filme de Zé do Caixão, banido totalmente pela Censura no Regime Militar

O COMEÇO DO FIM

Desde sua posse na Presidência, Geisel colocou em andamento o processo que chamou de "abertura lenta, gradual e segura." Isso envolvia, entre outras coisas, domar a linha dura do regime que insisita nos fantasmas da ameaça comunista e defendia a permanência do estado de exceção.

Mas o presidente se manteve firme m seu próposito. Em 1976, acabou com o temido AI-5, que dava plenos poderes ao Governo para prender e cassar mandatos de oposicionistas. No ano seguinte, horas depois de dividir o Mato Grosso do Sul, demitiu o então ministro da Guerra Sylvio Frota, uma pedra no sapato da redemocratização, que ameaça golpear Geisel e interromper a abertura. Foi a vitória da República, como ficou conhecida a afirmação, pela primeira vez em anos, do poder republicano sobre as tramoias da caserna militar brasileira.

Geisel, que nunca fora dos porões nos anos de chumbo, tinha motivos muito mais que humanitários para acabar com o sistema repressivo do Estado. O mundo mudara desde os anos 1960. A imprensa estrangeira e as organizações dos Direitos Humanos apresentavam a atuação dos agentes de repressão e do Esquadrão da Morte como a banditização do regime.O Palácio do Planalto teve a ideia de trocar tudo por um golpe publicitário e anunciou que os agentes do crime seriam punidos, o que mereceu o primeiro editorial do The New York Times favorável ao Governo desde 1964. Mais do que o barulho, gestões como a do democrata Jimmy Carter nos EUA chamavam o Brasil de ditadura escancaradamente e ameaçavam sanções econômicas.

Com isso, iniciou-se a perseguição aos torturadores, Fleury entre eles. Desde 1968 Fleury vinha sendo investigado por seu envolvimento com o tráfico de drogas e por ter metralhado Domiciano Antunes Filho, conhecido com Luciano, a mando de um traficante de drogas rival, José Iglesias, conhecido como Juca.Em função desse crime, em 1973 teve sua prisão preventiva decretada,mas foi beneficiado por uma alteração no Código de Processo Penal decretada pelo então presidente do Regime Militar, Emílio Garrastazu Médici, sob a forma da Lei 5.941, que facultava a liberdade aos réus primários e com residência fixa. A lei passou a ser conhecida como Lei Fleury e considerada uma vergonha jurídica pelos especialistas. 

Também foi investigado e denunciado pelos promotores de Justiça Hélio Bicudo (um dos fundadores do PT) e Dirceu de Mello por supostos assassinatos praticados pelo Esquadrão da Morte. O delegado foi apontado como o principal líder da milícia, posto que não fazia muita questão de esconder, pois se apresentava exatamente dessa forma a colegas policiais, com a promessa de para cada policial morto, matar dez bandidos.

Um dos casos, misturando impunidade com onipotência, ocorreu em 17 de junho de 1970, quando acompanhado por nove comparsas, entrou no Presídio Tiradentes, na capital paulista, de onde retirou cinco presos. Fleury buscava vingar a morte de um policial assassinado horas antes por Adjovan Nunes, o Guri. Horas depois os cinco presos eram mortos em Guarulhos (SP), outros cinco presidiários foram mortos nas horas seguintes, até que Adjoan foi achado morto em um matagal em Itaquera (SP) com 150 tiros.

Apesar da iniciativa federal e da predisposição do judiciário paulista, o Governo de São Paulo foi contra: o governador Abreu Sodré formou uma comissão tendo o general Luís Felipe Galvão Carneiro da Cunha, um ex-torturador, como presidente. Mesmo assim, Hélio Bicudo conseguiu acusar dois investigadores e um informante, além de apontar a ligação de Fleury com o tráfico de drogas e ter fotos dele antes da emboscada de um bandido em Guarulhos, fornecidas por um padre canadense.

Fleury teve sua prisão pedida, o STF negou um habeas corpus e a reação da ditadura foi imediata: o padre canadense foi empurrado de cima da torre da igreja, mas sobreviveu. Bicudo foi afastado do inquérito e ameaçado pela Receita Federal. Bicudo havia identificado 41 execuções e Fleury estava envolvido em 22.

POUCA PRODUTIVIDADE

É nesse cenário, de acusado e rebaixado do extinto Dops de São Paulo (fechado no início daquele ano) para um cargo burocrático do Departamento Estadual de Investigações Criminais daquele Estado, que Fleury desembarcou em Campo Grande.

"Fleury já analisou crime de Campanhã", diz uma chamada na capa do Correio do dia 17 de fevereiro de 1978.

Na reportagem publicada na página 2, um bem humorado Fleury trazera junto com as malas e dois investigadores um suspeito de ter cometido crime em Coxim. No discurso, insistiu que viera apenas visitar amigos. 

"O meu governador é outro. Trabalho num órgão do Governo do estado de São Paulo e para atender o convite do governador de Mato grosso eu precisaria do aval do meu, Paulo Egydio Martins", disse o famoso delegado, negando outros boatos, como o pedido de um político local para que se investigasse outros crimes, como ameaças de sequestros de seus familiares.

Segundo o Correio, Fleury pouco saiu do hotel em que ficou hospedado. Quando o fez, foi para almoçar. No texto, informações de que pudera estar estudando o inquérito do caso que supostamente teria vindo solucionar.

Na verdade, contudo, muita briga interna. O próprio jornal escancara a desconfiança e até certo ponto incômodo com a presença dos policiais paulistas. Muitos desdenhavam do que Fleury poderia fazer e consideravam "sorte" o colega famoso desvendar o que fosse.

HISTÓRIA SEM FIM

Os policiais locais estavam certos. Dois dias da última chamada sobre o asusnto, o Correio estampava em sua capa o pedido de prisão de Fleury feito pelo Ministério Público de São Paulo, revelando que a viagem poderia ter interesses particulares mesmo, como plano de fuga do "delegado mais famoso do Brasil", como é chamado por seu biógrafo, o hoje jornalista da 'TV Record', Percival de Souza, autor de 'Autópsia do Medo'.

Seja como for, Fleury jamais cumpriu pena, mesmo depois de condenado. Beneficiado pela Lei da Anistia, que revogou crimes à direita e à esquerda das pessoas envolvidas na luta armada na ditadura, morreu em 1º de maio de 1979 por afogamento, segundo a sua mulher, Maria Izabel Oppido, presente em sua lancha naquela madrugada. Seu corpo foi sepultado sem ter sido necropsiado, o que gerou comentários de que ele teria sido assassinado pela esquerda como vingança ou como "queima de arquivo" pelos seus antigos colaboradores da ditadura.

Em 'Memórias de uma Guerra Suja', publicado pelo ex-delegado do Dops do Espírito Santo Cláudio Antônio Guerra, que assume a condição de um ex-agente da repressão aos opositores da ditadura militar, Fleury teria sido assassinado por ordem dos próprios militares. 

Segundo Claudio Guerra, "o delegado Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar e não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria". Ainda segundo Guerra, "Fleury teria sido dopado e levado uma pedrada na cabeça antes de cair no mar, fato que justificaria a estranha ausência da necrópsia do cadáver".

O delegado Fleury era conhecido e temido publicamente no Estado de São Paulo como agente apoiador da ditadura, torturador e assassino de opositores ao regime militar. Assim, quando sua morte foi anunciada pelo jornalista Juca Kfouri no famoso Comício do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), ainda durante o 1º de maio, a notícia de sua morte foi supostamente festejada e efusivamente aplaudida por aproximadamente 100 mil pessoas.

Assunto proibido até hoje, sua morte nunca foi devidamente esclarecida pelos órgãos de segurança de São Paulo. Tampouco a de Campanhã, cujo inquérito fora arquivado em 1982, após ausência total de provas. Fleury ao menos em 2017 quase foi homenageado em bloco de carnaval organizado por movimentos de extrema-direta nas ruas de São Paulo (SP), mas que teve a realização suspensa pela Justiça.

*SOBRE O AUTOR: Rafael Ribeiro é jornalista desde 2004, graduado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Paulistano, mora em Campo Grande desde 2016 e também é graduado em História pela Universidade de São Paulo, com mestrado em Estudos Brasileiros pela Fundação Escola Paulista de Sociologia e Política de São Paulo.

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