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Campo Grande - MS, quarta, 14 de novembro de 2018

FUTEBOL 2018

PSG admite caso de discriminação e exclusão racial adotada por seus olheiros no interior da França

9 NOV 2018Por TRIVELA18h:01

Entre os episódios revelados pelo Football Leaks ao longo da última semana, muitos não se restringem à fortuna e à ambição desmedida de alguns poderosos clubes da Europa. Há mesmo casos escabrosos, como o ocorrido nas categorias de base do Paris Saint-Germain. Segundo o site Mediapart, parceiro da revista Der Spiegel nas investigações, o clube parisiense rejeitou um garoto promissor que vinha sendo sondado à sua academia por causa da cor de sua pele. O rapaz, de origem marfinense, era negro. Além disso, os relatórios mostram que apenas um jogador negro foi recrutado pelos olheiros parisienses no interior da França entre 2013 e 2018. Embora tenha negado os escândalos financeiros até o momento, desta vez o PSG admitiu o escândalo, embora tenha repassado a culpa.

Conforme os documentos revelados, o PSG possuía fichas de observação em que era necessário incluir a origem étnica dos garotos observados, se encaixando em quatro categorias: ‘francês’, magrebino, antilhano e africano negro. “Era um verdadeiro arquivo de identidade étnica”, aponta o Mediapart. A medida fere a própria constituição francesa. As leis locais proíbem a mera compilação de dados revelando a origem racial ou étnica de indivíduos. Além do mais, o clube ignorava que os descendentes de africanos ou antilhanos nascidos na França também são franceses por direito, conforme a legislação do país, assim como os imigrantes que cresceram no território francês e atendem a determinados requisitos de permanência.

Segundo a apuração, Yann Gboho tinha 13 anos quando foi descartado pela base do PSG por ser negro. Atualmente, o meia de 17 anos defende o Rennes e costuma ser convocado à seleção francesa sub-18. Serge Fournier, olheiro dos parisienses, deu notas excelentes ao jovem de origem marfinense e ressaltou ainda outras virtudes de seu jogo, como sua capacidade técnica e seu faro de gol. Entrevistado pelos jornalistas do Mediapart, Fournier declarou: “O PSG não queria que os olheiros recrutassem jogadores nascidos na África, porque ninguém está certo sobre suas datas de nascimento. Em vez de ‘francês’, os jogadores deveriam ser chamados de ‘brancos’, especialmente porque todos os jogadores que nós recomendávamos eram franceses.”. A reportagem declara que, na época, a diretoria do clube decidiu encobrir os envolvidos no escândalo.

Em nota oficial, o clube inicia o texto apontando que “reafirma a sua firme condenação de todas as formas de racismo, discriminação ou monitoramento étnico”. Contudo, confirma que métodos ilegais foram utilizados entre 2013 e 2018 pelo responsável por fazer observações de jovens jogadores no país fora da Île de France – a região metropolitana de Paris. “Essas formas de recrutamento foram introduzidas somente por iniciativa pessoal do chefe deste departamento. Ao descobrir o caso em outubro de 2018, o PSG lançou uma investigação interna para entender como estas práticas poderiam existir e o que seria feito. Como os jovens talentos em ascensão no clube provam, as contratações são decididas somente pelas habilidades e pelo comportamento, dentro e fora de campo”, adiciona.

Ao que o PSG indica na nota, a descoberta do racismo nas categorias de base só se tornou possível através das reportagens preparadas pelo Football Leaks. O clube foi contatado por jornalistas sobre os formulários usados pelos funcionários do departamento de recrutamento. “Estes formulários continham um campo de identificação inaceitável. A administração do clube em nenhum momento estava ciente do monitoramento étnico no departamento ou mesmo teve em posse o formulário. Esses métodos traem o espírito e os valores do PSG”, reafirmam, na nota oficial.

Além disso, a reportagem do Mediapart apresenta declarações de 2014, feitas pelo tal chefe do departamento, com teor racista e discriminatório. Marc Westerloppe apontou que o clube deveria encontrar um “equilíbrio melhor” sobre as origens étnicas de seus pratas da casa e também teria reclamado que “há muitos africanos e antilhanos em Paris”. Segundo os parisienses, dirigentes do clube cobraram o funcionário “por suas afirmações repreensíveis”, mas, “como não havia evidências concretas para corroborar tais declarações, o clube não estava apto a implementar as medidas disciplinares apropriadas”.

O PSG ainda aguarda a investigação interna, acompanhada por um escritório de advocacia, para entender as práticas e decidir as medidas necessárias. Mas, no momento, se compromete a definir uma metodologia controlada de recrutamento, a ser aplicada por todos os olheiros e regularmente observada; implementar um código de conduta ética; configurar um procedimento sobre condutas que firam estas orientações éticas; e fortalecer a promoção de uma cultura ética entre todos os funcionários. O clube encerra declarando que “lutar contra todas as formas de discriminação é um compromisso do clube”.

Atualmente, o elenco do Paris Saint-Germain possui nove jogadores que chegaram ao clube ainda nas categorias de base. Oito possuem origem imigrante. Destes, quatro chegaram à academia parisiense a partir de 2013, o período referido na reportagem. Um deles veio dos Estados Unidos, enquanto os outros três nasceram justamente na região da Île-de-France – que, de fato, concentra a maior parte dos imigrantes no país, mas também dá indícios da política excludente adotada pelo recrutamento no interior da França.

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