Correio B

SOLIDARIEDADE

Associações lançam campanhas que buscam ajuda ao próximo durante pandemia

Associações, ONGs e profissionais de saúde lançam campanhas para manterem atividades durante o surto de coronavírus

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Em tempos de coronavírus, pensar no coletivo se tornou essencial, associações, ONGs e profissionais de saúde lançam campanhas para manterem atividades durante o surto de coronavírus.

Enquanto a orientação primordial para o combate à disseminação da Covid-19 inclui o isolamento social, ou seja, permanecer em casa e fechar as portas de diversos empreendimentos, a falta de recursos financeiros prejudica a subsistência de diversas famílias em Mato Grosso do Sul.

Neste contexto, a solidariedade ganhou um papel ainda mais importante para que todos possam cumprir as recomendações do Ministério da Saúde, ter uma higiene adequada e evitar os lugares com muita aglomeração.  

Uma das primeiras campanhas lançadas foi da tradutora e empresária Izabel Arruda, 30 anos, que criou o grupo Quarentena Solidária Campo Grande. 

“Somos um grupo de 12 amigos no momento. Porém, crescendo. Unimos para criar essa campanha, pois percebemos que existem muitas famílias em nossa cidade vivendo em condições de pobreza que não permitem que elas mantenham as condições de higiene e saúde necessárias para não contraírem o vírus e, muito menos, para não o espalharem para outras pessoas”, explica Izabel.  

O grupo criou campanha para arrecadar dinheiro pela internet e espera conseguir R$ 7,5 mil para comprar 100 cestas básicas, que incluem um kit de higiene. 

“Também estamos buscando parceria com uma gráfica para imprimirmos folhetos explicativos que acompanharão as cestas, para que essas pessoas saibam exatamente como proceder”, ressalta. 

Até ontem, a campanha tinha conseguido apenas R$ 980. “Acho que um fator muito importante desse trabalho é que as pessoas entendam que ajudar o próximo, nesse caso, é literalmente ajudar a si próprio e à todos nós”, frisa.

O grupo ainda não definiu quais serão as comunidades atendidas pelo projeto. “Estamos em contato com outras pessoas que conhecem melhor as comunidades carentes de nossa cidade para que possamos ajudar quem ainda não está recebendo auxílio de ONGs, outras instituições e os colaboradores receberão informações de quem recebeu as cestas. 

Esperamos poder enviar fotos também dessa ação para inspirar as próximas. 

Existem diversas comunidades carentes em nossa cidade, então, quanto mais recursos arrecadarmos, melhor”, acredita.  

As informações serão publicadas na página do Instagram @quarentenasolidariacg. Para contribuir clique aqui 

AACC  

A Associação das Crianças com Câncer de Mato Grosso do Sul (AACC/MS) também lançou campanha para arrecadar fundos. 

Com o encerramento provisório do atendimento ao público, que inclui o bazar, a lanchonete e o brechó da instituição, o jeito foi lançar uma ação na internet para manter as atividades de cuidado com a saúde dos pequenos pacientes.  

Segundo a assessoria de imprensa da AACC, as medidas para evitar a disseminação do vírus na instituição fizeram com que a arrecadação diminuísse, colocando em risco o bom funcionamento da AACC/MS, que só em 2019 atendeu 667 crianças e adolescentes com câncer de todo o estado de Mato Grosso do Sul, além de ter servido mais de 31 mil refeições e oferecido mais de 22 mil atendimentos multiprofissionais, entre enfermagem, nutrição, atividades lúdico-pedagógicas, psicologia e outras.

Como as crianças com câncer continuam com o tratamento em hospitais de Campo Grande e têm imunidade baixa, o cuidado está redobrado e as doações só poderão ser feitas por depósito. 

A campanha pede que os doadores façam o depósito de qualquer quantia na conta bancária da AACC/MS: Banco do Brasil, agência 4211-0, conta-corrente 1968-2, CNPJ 02.502.223/0001-82.

Pediatras

Além de estar na linha de frente durante a pandemia, um grupo de médicos pediatras de Mato Grosso do Sul decidiu lançar uma campanha para arrecadar produtos que auxiliem no tratamento não só do novo coronavírus, mas de outras enfermidades, como a influenza A (gripe) e a bronquiolite.  

Os pediatras estão solicitando doações de espaçador infantil plástico, sabutalmol spray, álcool 70%, equipamentos de proteção (óculos, luvas de procedimento tamanhos P M G, máscaras N95 e cirúrgicas, capotes e toucas descartáveis), aviamentos (linha para TNT, tricoline e napa), elástico tipo cordão de 205 mm e tecidos (TNT gramatura 80, tricoline, napa).  

Há vários pontos de coleta em Campo Grande e no interior. Na Capital, os seguintes locais estão recebendo as doações: Clínica Nascitá, na Rua Fagundes Varela, nº 9, Jardim São Bento; Valley Pub, na Avenida Afonso Pena, nº 4.150; e na Avenida Des. Leão Neto do Carmo, nº 155, Jardim Veraneio. Mais informações pelo e-mail [email protected].  

Animais

Seis ONGs de auxílio a animais abandonados lançaram uma ação conjunta para arrecadarem recursos, principalmente rações. De acordo com Ana Cristina Castro, presidente da Amicats, as ONGs estão com dificuldades para manter os animais. “Aumentaram os resgates por abandono e também devolução de animais doados antes da pandemia”, explica.  

As doações podem ser feitas em dinheiro, a partir de R$ 5, ou em pacotes de ração que podem ser entregues na Clínica Bourgelat, na Av. Mato Grosso, nº 1.291.  

Já os depósitos podem ser feitos: na Caixa Econômica, agência 2228 e conta 19952-1; no Bradesco, agência 22012 e conta 930717; e no Banco do Brasil, agência 34975 e conta 50475-0. Informações pelo telefone: (67) 99150-1991.  

Diálogo

Enquanto alguns pré-candidatos multiplicam agendas e aparições públicas... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta sexta-feira (10)

10/07/2026 00h02

Diálogo

Diálogo Foto: Arquivo / Correio do Estado

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Barão de Itararé - Escritor brasileiro

"O Brasil é feito por nós. Está na hora de desatar esses nós”.

FELPUDA

Enquanto alguns pré-candidatos multiplicam agendas e aparições públicas, outros preferem adotar a velha estratégia do silêncio calculado. A avaliação é simples: falar menos, errar menos e deixar que os adversários  se desgastem antes da largada oficial. O problema é que política não gosta de vácuo. Quem demora demais para ocupar espaço poderá descobrir que outro já chegou primeiro. E recuperar terreno costuma ser bem mais difícil. Os mais experientes ensinam que política é semelhante ao futebol: quem não faz gol, acaba levando. E dê-lhe!...

Diálogo

Fiscalizando

O Laboratório de Obras Rodoviárias (LABOR), do Tribunal de Contas de MS, intensificou a fiscalização sobre obras de pavimentação no Estado. Em vistoria recente, técnicos avaliaram espessura do asfalto, qualidade dos materiais e conformidade com o projeto. 

Mais

A obra inspecionada soma investimento de R$ 4,4 milhões. O laboratório também atua preventivamente na análise de editais e licitações. A intenção é evitar desperdício de recursos públicos antes mesmo que a primeira máquina entre em ação. 

Diálogo Angélica, Eduardo, Marisa e Sandra. Benquistos irmãos da família Serrano - Foto: Arquivo Pessoal

 

Diálogo Dra. Raffaela Tenorio - Foto: Arquivo Pessoal

Todos juntos?

Nos bastidores, cresce a articulação para que os partidos da base do governador Eduardo Riedel realizem convenções conjuntas em 1º de agosto, transformando o ato em demonstração de unidade e força política. A data já conta com a preferência do PL, MDB e Republicanos e também é discutida pela Federação União Progressista e pelo PSDB. Se confirmada, irá reunir praticamente toda a base aliada, em um único evento. Vamos ver.

Alerta

As recentes operações de combate à corrupção repercutiram na sessão do dia 8 da Assembleia Legislativa de MS. Deputados da esquerda e da direita fizeram alerta para que a população redobre a atenção na hora de escolher seus representantes. Segundo eles, esquemas envolvendo a compra superfaturada de livros didáticos se repetem há anos: os recursos desaparecem, enquanto o material sequer chega às escolas. Pois é!...

Temor

Esses deputados demonstraram preocupação com denúncias envolvendo desvios de recursos destinados à saúde pública. Para eles, é inaceitável que verbas destinadas ao atendimento da população sejam alvo de corrupção, comprometendo serviços essenciais e colocando vidas em risco. Defenderam rigor nas investigações e punição exemplar aos responsáveis, afirmando que combater a corrupção é preservar o direito da população a serviços públicos de qualidade. Tudo indica que temor maior é que a classe política seja colocada no mesmo “balaio”.

ANIVERSARIANTES 

  • Renata Bossoi Moreira Costa,
  • José Amilton de Souza,
  • Marcela Fabrício Bellé, 
  • Guilherme Ferreira Andrade,
  • Meire Holsback Alvarenga Garcia, 
  • Mário Sérgio Marinho, 
  • Fumiko Arakaki,
  • Nelson Seiguem Shirado,
  • Alexandre Siqueira Gonçalves,
  • Danielly Pisciolaro,
  • Jurandir Fausto da Silva,
  • Genesio Antonio Girolometto,
  • Hermenegildo Vieira da Silva,
  • Jorge Afonso da Silva,
  • Edmar Soken, 
  • Carlos Alberto Xavier de Andrade,
  • Claudiney Benjamin Soares Lechuga,
  • Gustavo Faria de Oliveira,
  • Dr. Luis Carlos Alvarenga Valim,
  • Daniel Alexandre Vicari,
  • Waldir Paes Machado,
  • Eliana Echeto da Silva, 
  • Tereza Cristina Razuk, 
  • Dr. Gilson dos Santos, 
  • Leonardo de Oliveira Millian,
  • Paulo Ferreira de Souza,
  • Aparecido Thomazini,
  • Abadio Alves Costa,
  • Amarildo Brussamarello,
  • Ivo Luiz Pereira da Rosa,
  • Hide Alcides Rezende,
  • Eudes Pache Corrêa,
  • João Rodrigues de Oliveira,
  • Roberto Cesar da Silva Ferreira,
  • José Almeida Valadares,
  • Célia Mara Barbosa,
  • Otacílio de Albuquerque,
  • Heitor Regalci Galdino,
  • Fabricio Macedo Medina,
  • Anajo Costa Metello,
  • Satoru Hayashida,
  • Alfredo Matos Destro,
  • Ciro Antônio Salce Mello,
  • Eliene Ferreira de Matos,
  • José Augusto Machado,
  • Dra. Patrícia Mitie Nakamura, 
  • Elza da Silva Cezar,
  • Quitéria Nakaya,
  • Roseli da Silva Maciel,
  • Expedito Luciano da Silva,
  • José Murilo Ramalho,
  • Maria de Lourdes Barros,
  • Claudir José Schwarz,
  • GuiIherme Antenor Vieira,
  • José Mário Fonseca,
  • Atílio Diniz da Silva,
  • Fabricio de Melo Albuquerque,
  • Maria José Martins,
  • Aracy Lopes,
  • Mariza Soares dos Santos Farias, 
  • Sandra Regina França,
  • Ana Maria Silveira Campos,
  • Regina Caldas dos Santos,
  • Arlete Alves,
  • João Batista Grecco Pelloso,
  • Elina Vieira Saraiva,
  • Maria Rita Zinn,
  • Lenita Mendes Lourenço,
  • Dr. Márcio André Bueno,
  • Dirce Katumi Takigawa,
  • Nereu Schneider,
  • Enio Rieli Toniasso, 
  • Dr. Neimar Gardenal, 
  • Dorival Bernardelli,
  • Dr. Joaquim Oliveira Vieira Júnior, Clarinda Ribeiro Alves,
  • Lindomar de Oliveira,
  • Ramão Waldir Ribas de Araújo,
  • Maria Wilma Casanova Rosa,
  • Marta Andréia de Oliveira,
  • Eliete Serra da Silva,
  • Jackelyne de Araújo Silva,
  • Elizangela Rodrigues Dias,
  • Waldemir Souza Chaves,
  • Marcella Lobo Vieira,
  • Ana Cristina Zaccarias,
  • Nelson Tomoyiki Magamati,
  • Antonio Mauricio da Silva,
  • Ismael Ventura Barbosa,
  • Eliel Alves Teixeira,
  • Antonio Emanuel Figueiredo Lins, 
  • Maria Helena Eloy Gottardi,
  • Katya Mayumi Nakamura Matsubara, 
  • Juan Domingo Mendoza Gonzalez,
  • Madrilles,
  • José Mauricio Barcelos Alves Castello,
  • Marcela Maria Stella,
  • Artur Gabiatti Morisco,
  • Anna Paola Lot Soares de Pinho,
  • Flavia Pizolatto Livramento,
  • Daiane Fchinkel Brito,
  • Francelize da Costa Cordeiro,           
  • Alyne Michaela Rodrigues Ribas,   
  • Arthur Gilberto D´Avila,  
  • Eliana Oliveira de Senna, 
  • Claudio Roberto Madruga Junior, 
  • Francisco Martins de Moura, 
  • Antonio Henrique Gaudensi, 
  • Alcindo Interlando de Almeida.

Colaborou com Tatyane Gameiro

Literatura Indígena

Daniel Munduruku defende memória, identidade e resistência indígena na FLIB

Escritor refletiu sobre a história dos povos indígenas, o papel da literatura na preservação da memória e a importância da valorização da cultura ancestral durante encontro com o público e crianças da Aldeinha, em Bonito

09/07/2026 12h40

Mariana Piell

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A 10ª edição da Feira Literária de Bonito (FLIB) teve como um de seus momentos mais marcantes nesta quarta-feira (8) a presença do escritor paraense Daniel Munduruku, um dos maiores nomes da literatura indígena contemporânea. 

Em uma conversa realizada no Palco Literário da feira, Munduruku conduziu o público por uma reflexão profunda sobre o tempo, a memória, a identidade e o papel da literatura como ferramenta de transformação social. 

IDENTIDADE BRASILEIRA

Em sua fala, o escritor provocou a plateia com um dado histórico contundente: os povos indígenas só passaram a ser considerados cidadãos brasileiros plenos com a Constituição de 1988. "Até então, nós éramos simplesmente vistos como brasileiros em passagem, porque estávamos numa situação em que tínhamos que abandonar a nossa tradição, a nossa cultura, nossa ancestralidade e assumir a identidade de ser brasileiro. Era incompatível ser índio e ser brasileiro", afirmou.

Munduruku ressaltou que esse reconhecimento tardio explica muito sobre a invisibilidade histórica das populações indígenas. "Há apenas 38 anos é que nós podemos assinar nosso nome como brasileiros. Até 1988, não se podia colocar nome tradicional na identidade, na certidão de nascimento. As associações indígenas não podiam ter CNPJ. As pessoas não podiam ter CPF", lembrou.

Para ele, a presença indígena em eventos literários como a Flib é um sinal inequívoco da "revolução silenciosa" que está em curso no país. "Fazer um evento literário sem a presença da literatura indígena é impossível hoje. Essa presença já é real, ela existe", celebrou, lembrando que o Brasil tem atualmente um ministro dos Povos Indígenas, o sul-mato-grossense Eloy Terena, algo "absolutamente surreal e quase impossível de pensar que podia acontecer há dez anos", destacou.

O autor também ressaltou a importância de se compreender a história das políticas indigenistas no Brasil. Ele mencionou o assimilacionismo, que vigorou nos séculos XVII, XVIII e XIX, transformando aldeias em vilas e municípios para negar a existência indígena. Depois veio o integracionismo, com o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e depois a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que acelerou o processo de integração à sociedade nacional, especialmente durante a ditadura militar. "Era uma política de estado para transformar o índio em comerciante, em empreendedor, para que deixasse de ser índio", explicou.

Foi somente a partir dos anos 1970, com o surgimento do movimento indígena impulsionado pelas comunidades eclesiais de base e pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que as lideranças indígenas começaram a se organizar politicamente. Esse movimento culminou na Constituição de 1988, que reconheceu os indígenas como sujeitos de direitos e como "brasileiros diferenciados". 

"A Constituição Cidadã garantiu que essas populações têm os mesmos direitos de todos os cidadãos, mas, para além disso, um direito diferenciado, por conta da sua cultura, da sua medicina, da sua espiritualidade, da sua cosmovisão de mundo", afirmou.

LITERATURA COMO RESISTÊNCIA

"Este ano, 2026, completa-se 30 anos que eu lancei meu primeiro livro. Portanto, é uma caminhada de 30 anos que eu venho fazendo, tendo a literatura como instrumento, como uma ferramenta de aproximação desses mundos", declarou Munduruku, que iniciou sua carreira em 1996 com Histórias de índio.

Desde então, o autor publicou cerca de 70 livros – muitos voltados ao público infantojuvenil – e conquistou prêmios de prestígio nacional e internacional, entre eles o Prêmio Jabuti por três vezes (2003, 2017 e 2025), o Prêmio da Academia Brasileira de Letras e o Prêmio UNESCO pela promoção da tolerância e da não-violência. Em 2025, foi eleito para a Academia Paulista de Letras, onde ocupa a cadeira número 21.

O autor explicou que sua escrita nasce de um compromisso pessoal com a memória. "Para mim, escrever tem sido um exercício de memória, uma maneira de me colocar novamente no coração do meu povo", disse.

Ele ressaltou que a literatura indígena contemporânea é fruto de um esforço coletivo e de um movimento que já dura mais de vinte anos, com encontros de escritores e artistas indígenas que revelaram talentos em todo o país. 

"Se a gente tem a lei 11.645, que torna obrigatório o ensino da história e cultura indígena nas escolas, é por conta também da existência dessa literatura consistente dentro da sociedade brasileira", afirmou.

Munduruku também fez questão de destacar a importância dos ilustradores indígenas, mencionando o trabalho de Miguela Moura, que ilustrou uma das obras de sua nova trilogia, o livro ‘Curupira existe, sim!’. 

"A arte indígena não está apenas no texto, mas também nas imagens. Quando uma criança indígena ilustra um livro, ela está dizendo: 'Nós estamos aqui, nós temos nossa própria estética, nossa própria maneira de ver o mundo'", pontuou.

O TEMPO INDÍGENA

Um dos momentos mais aplaudidos da fala de Daniel Munduruku foi sua reflexão sobre a diferença entre o tempo ocidental e o tempo indígena, uma discussão que ecoou o tema da Flib sobre as relações entre literatura, natureza e outras cartografias. 

"O tempo ocidental anda para frente. É o tempo do relógio, o tempo da produção, o tempo em que tempo é dinheiro. Nós passamos o tempo inteiro olhando para o futuro, que nós não temos, e acreditamos que um dia seremos felizes", destacou.

Em contraste, explicou, os povos indígenas vivem o tempo em duas dimensões: o passado, que é memória, e o presente, que é plenitude. "Os povos indígenas não perguntam para as crianças 'o que você vai ser quando crescer?' Porque a criança já é tudo que precisa ser. Ela precisa ser criança, plenamente criança. A infância só é vivida uma única vez", afirmou.

O escritor lembrou o ensinamento de seu avô Apolinário, pajé da etnia Munduruku: "Se hoje, se o agora não fosse bom, não se chamava presente". Essa filosofia, segundo ele, orienta a vida indígena como um constante exercício de gratidão – celebrado com cantos, danças e pinturas corporais. "É por isso que vocês veem os indígenas cantando e dançando, e muitas vezes os chamam de preguiçosos. Mas eles estão celebrando a existência", pontuou.

Ele aprofundou a reflexão ao explicar que, na cosmovisão indígena, a natureza é a grande mestra. "A natureza é sistêmica, interdependente. Uma árvore não vive sozinha. Ela depende de todos os outros seres para crescer e se desenvolver, e na hora certa devolve tudo o que recebeu. Os indígenas chamam a terra de mãe não porque é poético, mas porque acreditam que ela é de fato mãe. Chamam os outros seres de parentes porque sabem que são parentes", contou. Essa visão, segundo ele, ensina a coletividade, a solidariedade e a gratidão, valores que a sociedade ocidental vem perdendo.

ENCONTRO

Antes da palestra noturna, o escritor participou de um encontro especial com crianças indígenas da Aldeinha, uma aldeia urbana localizada no município de Anastácio, que abriga cerca de 129 famílias do povo Terena. 

O encontro aconteceu na Praça da Liberdade, das 15h às 16h, e foi coordenado pelo professor Reinaldo Rohtt, coordenador da ABRAAI (Academia Brasileira dos Autores Aldravianistas Infantojuvenil) e docente da Escola Estadual Indígena Guilhermina da Silva.

Reinaldo, que é Terena e também atua como professor na Aldeinha, explicou o significado da participação das crianças na FLIB. "Nós trabalhamos com as crianças a poesia, inspiradas em Daniel, especialmente na obra O Caraíba, para criar poesias relacionadas às questões indígenas, da sua raiz, da sua identidade, da sua cultura e da sua tradição", afirmou

A Aldeinha, como explicou Reinaldo, é uma comunidade que muitas vezes sofre com o preconceito por estar inserida no ambiente urbano. "As pessoas não acham que ali tem um indígena, porque está inserido no meio urbano. Acham que deixaram de ser índio. Há até uma fala comum: 'Ah, deixaram de ser índios, porque moram em casas de alvenaria, utilizam a tecnologia'." Contra essa percepção, a escola trabalha com duas disciplinas específicas – Língua Materna e Questões Indígenas – para fortalecer a identidade e a cultura Terena, especialmente a revitalização da língua materna, que está em processo de desaparecimento. "Os mais velhos vão indo, e os mais novos não têm essa preocupação em aprender. A escola faz esse papel", afirmou.
 

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