Correio B

PONTO DE VISTA

"Todas as Mulheres do Mundo": nova série do Globoplay

Em 12 episódios, a trama atualiza universo singelo de Domingos de Oliveira em belo mosaico feminino

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O texto de Domingos de Oliveira sempre tratou o amor com propriedade e liberdade. Falecido em março do ano passado, aos 82 anos, o cineasta e dramaturgo mostrou suas crônicas românticas e revolucionárias pelo cinema, teatro e televisão ao longo de mais de cinco décadas de carreira como produtor, diretor, autor e ator. Agora, recebe uma merecida homenagem na Globo com a série de 12 episódios “Todas as Mulheres do Mundo”, produção homônima e também baseada em um dos maiores clássicos da carreira de Domingos: o filme lançado em 1966 e protagonizado por Leila Diniz e Paulo José. A ideia da série já existia há pelo menos uma década e nasceu do desejo do roteirista Jorge Furtado em atualizar os encontros e desencontros amorosos do longa, com direito a situações e personagens inéditas. Em 2018, coube à atriz Maria Ribeiro, amiga e pupila artística de Domingos, retomar a conexão entre ele e Furtado para que o projeto saísse do papel. Com os direitos devidamente adquiridos pela Globo, o texto do projeto ganhou a colaboração de Janaína Fischer e a produção acabou sendo desenvolvida para a Globoplay, como parte da estratégia de reforçar o catálogo de produções originais da plataforma de “streaming” da emissora. 

Na trama, o arquiteto Paulo, de Emílio Dantas, é um romântico inveterado. De paixão em paixão, acaba conhecendo Maria Alice, de Sophie Charlotte, em uma noite de Natal e se apaixona à primeira vista. Sempre ao seu lado, estão o cético Cabral e libertária Laura, seus melhores amigos, vividos por Matheus Nachtergaele e Martha Nowill, a quem Paulo faz confidências sobre aventuras amorosas e busca consolo para as inevitáveis frustrações. Talvez, nos anos 1960, a figura de Paulo pudesse levantar um encantamento imediato por sua personalidade passional e poética em relação às mulheres. Entretanto, aos olhos de hoje, o personagem defendido por Dantas de forma inspirada soa machista, irresponsável e imaturo em relação aos próprios sentimentos. Talvez para minimizar esta visão de mundo anacrônica, Falcão fez até algumas inversões nos diálogos entre Paulo e Maria Alice – no filme, o desejo de casar é dela e na série é dele.

De qualquer forma, Paulo se comporta como se fosse um trator de emoções, vai passando pelas vidas das pessoas de forma superficial e sem se preocupar muito com as consequências físicas e psicológicas e suas ações. Com um texto “derramado” em mãos, a diretora artística Patrícia Pedrosa até passeia por momentos de maior poesia, mas centraliza os erros de Paulo no realismo do caos afetivo que ele mesmo busca. Apesar de respeitar o aspecto de crônica poética dos “homens de antigamente” contida no trabalho de Domingos, o acerto da direção é não exaltar a postura “machista”, um perseguidor amoral, que o personagem representa hoje, fora do contexto de uma época que a cultura dos jovens pregava o descompromisso e o “amor livre”, tão exaltado pelos hippies.

Longe da tevê desde 2018, Sophie Charlotte surge em cena na medida da leveza e ousadia que Maria Alice exige. A presença da atriz confirma o bom processo de escalação promovido para a série, que reúne atores próximos a Domingos, como Priscilla Rozenbaum - viúva do escritor -, Maria Mariana e Maria Ribeiro, figuras desconhecidas do grande público, caso das ótimas Marina Provenzzano e Samya Pascotto, e nomes disputadores da Globo, como Lília Cabral, Fernanda Torres, Fábio Assunção e Felipe Camargo. Dessa mistura, além de grandes cenas, nasce um trabalho com uma “cara” um pouco mais diferente do que o público está acostumado a ver nas produções da emissora. Como uma espécie de “mimo” técnico que entrega muito charme à série, a trilha sonora de “Todas as Mulheres do Mundo” faz jus ao título e cada episódio é embalado por uma grande cantora da MPB. Na lista, Marisa Monte surge sempre afinada com o clássico “Rosa”, Alcione esquenta o clima com o samba “Gostoso Veneno” e Céu aponta para a modernidade com “Cangote”. Com texto e direção bem amarrados, a produção não só valoriza o feminino, como também é uma bem-vinda homenagem à memória e ao universo sentimental criado com muita singeleza por Domingos de Oliveira. 

balanço

Festival de Inverno de Bonito atraiu 100 mil pessoas e ocupou 98% dos hotéis

Apenas na noite de sábado (29), no show de Seu Jorge, o festival atraiu 25 mil pessoas

01/09/2026 10h45

Show lotado no fim de semana de FIB

Show lotado no fim de semana de FIB Foto: Reprodução Instagram @festivaldeinvernodebonito

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25° Edição do Festival de Inverno de Bonito (FIB) foi histórica, de acordo com a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS).

Estimativa realizada pela FCMS aponta que o evento movimentou 100 mil pessoas e elevou a ocupação da rede hoteleira em 98%, entre os dias 26 e 30 de agosto de 2026, em Bonito (MS).

Apenas na noite de sábado (29), no show de Seu Jorge, o festival atraiu 25 mil pessoas.

A reportagem do Correio do Estado solicitou a movimentação financeira gerada no evento, mas a FCMS afirmou que ainda não possui este valor.

Ao todo, foram cinco dias (quarta, quinta, sexta-feira, sábado e domingo) consecutivos de música, shows, cultura, literatura, oficinas, dança, teatro, cinema, artes visuais, pintura, moda, circo, turismo, natureza, artesanato e gastronomia.

As atrações nacionais do evento foram Ferrugem (27 de agosto), Léo Foguete (28 de agosto), Seu Jorge (29 de agosto) e Humberto e Ronaldo (30 de agosto), além de outros shows regionais.

Havia três palcos (Lua, Palco Sol e Palco Sesc Estrela) em diferentes pontos da cidade e várias atrações culturais e musicais em diversas localidades do município.

De acordo com a Fundação de Cultura, o investimento foi de R$ 6,5 milhões. A realização é do Governo de Mato Grosso do Sul, em parceria com a Prefeitura Municipal de Bonito.

O evento estimula a economia, aquece o comércio, gera empregos, lota hotéis e movimenta restaurantes, bares, atrativos turísticos, lojas e serviços.

O FIB consolida agosto como um mês de alta temporada no município, estendendo o bom desempenho do mês de julho.

Em 2025, a 24ª edição do FIB movimentou R$ 23 milhões e atraiu 20 mil pessoas.

crônica

O Sumidouro

01/09/2026 10h45

Arquivo

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Ultimamente, minha casa tornou-se um sumidouro. O escritor Fernando Sabino, que também falava sobre as coisas que costumavam sumir do seu apartamento, usava a expressão “buraco negro” (politicamente incorreta hoje, talvez?) para se referir ao lugar para onde todas as coisas iriam. Não sei a cor do buraco onde as minhas vão parar, mas tenho certeza de que elas vão para algum lugar.

Agora mesmo, enquanto digito esta crônica, trago no rosto um par de óculos manco, faltando uma haste. É o quinto que perco este ano. São Longuinho, o santo protetor dos objetos perdidos, já deve estar cansado das minhas invocações. Depois de clamar pelo santo até a exaustão, passo a revirar os lugares mais improváveis da casa. Aliás, óculos deveriam ser fabricados com dispositivo antifurto ou localizador; afinal, como alguém que não enxerga bem pode procurar — e achar — o objeto perdido?

Sem sucesso, começo a tatear pelos cantos: embaixo de poltronas, da cama, no piso do banheiro e até na área de serviço. Nada. Tenho certeza absoluta de que não saí de casa com ele no dia anterior. Então, onde se escondeu o danado? E por quê? Por que me deixar nesta aflição, tendo que trabalhar com um modelo perneta?

Carrego sempre três tipos de óculos: um para perto, outro para longe e um de sol. Os dois primeiros são campeões de sumiço. Talvez porque as lentes sejam transparentes, vai saber. Nesta semana, entrei em desespero diante do desaparecimento de um novinho, recém-saído da minha ótica favorita. Procurei em casa, liguei para o restaurante, telefonei para a amiga em cujo carro peguei carona... Nada. Quando eu já tinha desistido, lá estava o fujão: bem embaixo do tapete da sala.

Além dos óculos, também desaparecem outros objetos cotidianos: brincos, anéis, livros, mouse de computador, luvas e as famigeradas tampas de potes plásticos. Não, não há nenhum larápio de plantão à espreita. O que existe é uma espécie de portal misterioso, talvez para outra dimensão, que engole os meus pertences. É aflitivo, para dizer o mínimo.

Palpiteiro e insensível disse que é falta de organização. Que basta colocar cada coisa sempre no mesmo lugar para não perder nada. Eu sei, a teoria é linda. O problema é prático: como manter a ordem se, para encontrar o lugar das coisas, eu preciso primeiro encontrar os óculos que me fazem enxergar? É um enigma sem solução.

Enquanto o mistério não se resolve, sigo a vida. Por enquanto equilibrando o manco de uma haste, mas sem perder de vista o próximo sumiço.

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