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segunda, 18 de fevereiro de 2019 - 05h16min

QUATRO MESES NO IMOL

Seis dias antes de morrer, Lourival revelou a cuidadora que nasceu mulher

Corpo dele está no IMOL há quatro meses à espera de identificação

5 FEV 19 - 20h:30PAULA MACIULEVICIUS BRASIL

“Eu gosto muito dele e não vai mudar nada. Para mim ele sempre vai ser o seu Lourival”. No passado e no presente da cuidadora, a identidade de Lourival Bezerra de Sá não mudou nem depois da revelação que ele mesmo fez a ela, seis dias antes de morrer, de que se chamava Enedina Maria de Jesus. “Ele olhou para mim e falou que era mulher”, conta.

Da varanda da casa que os dois dividiram nos últimos 36 anos, a cuidadora resume a vida de companheirismo que tiveram, mas deixa bem claro que não eram casados e nem mantinham relacionamento. “Ele era o senhor que eu cuidava, ajudava, lavava, passava e cozinhava”. 

A senhora de 66 anos não quer ser identificada, também se recusa a abrir a casa que junto de Lourival decorou com mais de 11 mil garrafas PET. Num primeiro momento, ela se irrita com as perguntas e diz que Lourival não foi enterrado ainda porque ele mesmo quem procurou por isso ao esconder sua identidade. No entanto, ao voltar ao passado, ela ri das lembranças de quem não comia refeição que não tivesse carne e reclamava quando era moída.

“Ele era enjoado para comer e gostava de pedaço de carne grande, quando eu fazia moída ele dizia: ‘mas eu não te dei dinheiro para comprar carne?’ Eu respondia: ‘e isso não é carne?’ Mas só depois que eu comecei a conversar mais com ele, também... Foram 36 anos”, reflete sobre o diálogo que ficou na memória. 

Imagem do álbum de família de Lourival. 

A história dos dois se inicia em Cuiabá, quando ela, que sofria crises de epilepsia, foi levada pela mãe até um médium novo, recém chegado de Goiás. “Ele passou um remédio para mim que eu nunca mais caí, acho que é por isso que eu tenho devoção ao seu Lourival. Eu devo isso a ele”, diz. Além do tratamento espiritual, ela conta que o médium tirou dinheiro do próprio bolso para que a paciente comprasse remédios e fizesse um eletroencefalograma. 

A senhorinha conta que na época, era um alvoroço só na cidade por conta dele, e então o médium pediu indicação de uma pessoa que pudesse lavar, passar e cozinhar, porque ele mesmo não tinha mais tempo. “Ele pediu para a minha mãe arrumar uma pessoa, e ela falou de mim. Ele disse: ‘então, se ela quiser, eu pago por mês”.

Os dois se mudaram para Campo Grande em 1982. O ano exatamente, a ex-empregada doméstica não se lembra, mas tem na recordação a alegria da cidade ao comemorar a vitória de Wilson Barbosa Martins ao governo do Estado. “Cheguei aqui e continuei trabalhando com ele. Eu era como empregada doméstica e depois cuidadora de uns 10 anos para cá. Ele me pagava todos os meses, mas chegou em um ponto que ele não tinha mais como me pagar”, relata. 

Sobre casamento, a dona de casa prefere dizer que se casou sim, mas com outro marido e teve seus filhos. “Do seu Lourival eu não sei nada da vida dele. Nestes 36 anos eu cuidei dele, ele quase não andava, tinha uma dor no joelho e eu que carregava ele pra lá e pra cá”, fala.

Uma das caminhadas era atravessar a rua e dar direto no centro espírita que Lourival era médium. “Ele pegava no meu braço e eu levava ele até lá, para voltar, quem ele estava atendendo que trazia. Ele nunca fez mal a ninguém”, frisa. 

Os anos juntos transformaram a relação deles entre patrão e empregada em cumplicidade. “Eu fazia companhia para ele e ele para mim, mas cada um no seu lugar, não tínhamos relação”, reafirma. Nas três décadas, a cuidadora diz nunca ter percebido que “seu Lourival era mulher... Ele tinha os maiores cuidados, trancava a porta do quarto dele para tomar banho. Ele nunca vestiu um short”, conta. Outro exemplo que a dona de casa lembra é que ele também não tomava banho de rio, cachoeira e nem piscina. “Eu tenho nove irmãos, final do ano a gente ia para lá e tinha piscina. Ele ia junto, mas não entrava. Seu Lourival foi uma caixa de segredos e até hoje nem a Polícia está resolvendo”. 

Pela idade e experiência de vida, a senhora sabia que alguma coisa Lourival escondia, perguntava, mas ouvia como resposta que “a vida dele só cabia a ele”. Os filhos que a Polícia apurou que ele registrou em Goiás também nunca o visitaram. 

Uma das coisas que Lourival mais gostava de fazer era dançar. “E ele dançava muito. Nossa” Nós íamos para a casa dos parentes e ele dançava, falava que tinha ganhado concurso de dança”, lembra entre risadas. 

Seu Lourival fazendo o que mais gostava: dançar.

Segundo a cuidadora, foram seis anos tentando fazer com que Lourival tirasse os documentos que ele relata terem sido roubados, mas ela nunca conseguiu. Lourival só tinha um CPF em seu nome e, conforme investigação da Polícia, chegou a emitir um RG em 1968, quando tinha 29 anos.

“Chegamos até 1968, conseguimos andar 50 anos para trás e achar a cédula de identidade no nome de Lourival. O papel é certo, verdadeiro, emitido por um órgão público, mas o que consta lá dentro que é falso”, informa a delegada responsável pelo caso, Christiane Grossi. A morte dele, em outubro do ano passado, virou caso de Polícia, quando aos 78 anos depois de um infarto, o corpo dele ficou no Imol (Instituto Médico e Odontológico Legal) por não ter, segundo a Polícia, uma "identificação válida" para ser liberado.

Na vida de Lourival, além dos filhos e do trabalho no centro espírita, ele foi pintor, construtor e corretor de imóveis. Ultimamente, de acordo com a Polícia, vivia de doações.  

Para a cuidadora, Lourival só revelou seu segredo porque sabia que estava vivendo os últimos dias. “Ele tinha perdido 43 quilos, teve pneumonia e foi emagrecendo, emagrecendo. Já não andava e quase não comia, só tomava leite com mucilon”, contextualiza a cuidadora. 

Desde que o caso veio à tona, a Polícia Civil já recebeu o contato de duas pessoas através da ouvidoria. “Uma delas achou que poderia ser a mãe que estava desaparecida, mas a data não bate e a outra, que poderia ser a avó materna”, conta a delegada. 

Para a Polícia, a cuidadora não sabia, de fato, que Lourival havia nascido como mulher. “Tanto é que quando descobriu que biologicamente ele seria uma mulher, tinha uma pessoa entrando na casa e presenciou essa discussão”. 

Não há um prazo para que a delegada encerre o caso que já se arrasta por quatro meses. A delegada frisa que não está questionando o fato de que Lourival possa ser um homem transgênero. “A gente não sabe se é identidade de gênero, ou se ele não se sentia homem, mas foi para se esconder de uma situação ou até mesmo oportunidade de trabalho. Não estamos questionando o fato de ele ser homem ou não, a gente tem que saber quem ele é”, diz Christiane. 

Hoje, se Lourival fosse um homem trans, teria acesso à mudança de todos os documentos, o que ele fez por conta própria em 1968. “O Lourival, no mundo legal, não existe e a gente tem que saber quem está por trás dele, porque existe uma família que tem uma pessoa que está desaparecida e biologicamente é uma mulher”, declara a delegada.

Lourival, parte dos filhos e a primeira esposa, já falecida.

A Polícia acredita que os pais, pela idade de Lourival, possam não estar mais vivos, mas irmãos e até filhos podem existir. “Estamos procurando mais por uma questão humanitária”. Sobre o enterro, a delegada fala que cabe ao juiz determinar quando e como vai ser e que à Polícia o objetivo é de esclarecer.

“A aparência dele era de um senhorzinho que tinha família, que tinha aquela vidinha na casinha dele”, resume Christiane. 

Para a companheira de casa, a cuidadora, o que ela mais importa agora é a liberação do corpo. Por que? Porque a pessoa merece ser enterrada”.

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