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SOLUÇÃO

Mesmo com horário estendido, postos ficam vazios e UPAs lotadas

Nove meses após ser implantado, funcionamento até as 19h em unidades de saúde ainda não surtiu o efeito esperado

22 OUT 19 - 09h:30ADRIEL MATTOS

O projeto de horário estendido nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSFs) de Campo Grande, implantado há nove meses, ainda não surtiu o efeito esperado.

Em janeiro, quando o programa foi lançado pela prefeitura, a meta era levar atendimento até mais tarde para todas as unidades até o fim do 1° semestre, mas até agora 42 das 68 funcionam no horário estendido.

O Correio do Estado visitou três UBSs que deveriam estar atendendo das 7h às 19h. A UBS 26 de Agosto, no centro da Capital, que deveria atender até as 19h, reduziu o expediente e encerra o atendimento às 17h – horário de antes do programa. Segundo os funcionários da unidade, a medida foi tomada há dois meses.

Na UBS Estrela do Sul, o atendimento vai até as 18h30min. Como os médicos atendem até as 18h, os servidores fecham a unidade de 20 a 30 minutos antes pela falta de segurança, apesar de haver um posto da Guarda Civil Municipal a poucos metros do local.

Membro do conselho gestor da unidade, que faz parte do Conselho Municipal de Saúde (CMS), a aposentada Sandra Mara Santana relatou que a falta de medicamentos, materiais básicos e de médicos especialistas também prejudica o atendimento no local. “Nós já pedimos também a melhoria da calçada para os cadeirantes, sem contar que faltam banheiros adaptados. Por dia, até seis deficientes vêm aqui”, contou.

A reportagem presenciou a dificuldade de um paciente em cadeira de rodas – e do acompanhante – para entrar na UBS. Além da descida íngreme, há uma grade no sistema de drenagem de águas pluviais que dificulta a passagem, já que as rodas ficam presas, atrapalhando a locomoção.

Segundo a conselheira local, aproximadamente 30 mil pessoas são atendidas na região. “Fico triste porque a Rua 14 de Julho é bonita, mas aqui a situação é crítica”, disse Sandra, comparando o Projeto Reviva Campo Grande com a situação da unidade de saúde. Os moradores já pedirampara a prefeitura melhorias na área do posto, como iluminação e mais segurança, mas até agora nada foi feito.

A aposentada criticou a classificação de risco, que determina quando o paciente será atendido. “Isso é uma barbaridade, porque uma pessoa que está com dor de cabeça, por exemplo, quer atendimento na hora, e não consulta para daqui 30, 40 dias”, explicou. O protocolo é definido pelo Ministério da Saúde e de caráter obrigatório.

Quando faltam materiais, a conselheira recorre aos guardas municipais e aos moradores da região. “Alguns exames, como de sangue, não são feitos aqui, então tem de ir para o [posto de saúde] Coronel Antonino. O que a gente faz? Pedimos carona”, relatou. “A nossa realidade nos bairros é muito triste”, finalizou Sandra.

LOTADO

Já na UBS Coronel Antonino, próximo dali e ao lado da UPA de mesmo nome, a reportagem encontrou a unidade praticamente deserta. Funcionários informaram que poucas pessoas procuram atendimento no local.

Por outro lado, a situação na UPA Coronel Antonino é completamente diferente. Com a sala de espera lotada, os pacientes precisam ter paciência até conseguirem ser atendidos.

A professora Maristela Sanches, 53 anos, diz que prefere atravessar a cidade para receber atendimento mais rápido. “Gosto muito do atendimento daqui (UPA Coronel Antonino). Geralmente de manhã é demorado, mas à noite é mais rápido. Já cheguei a esperar nove horas, mas também já fui atendida rápido”, contou.

Apesar de morar na Vila Nasser, que tem uma UBSF com horário estendido, a professora prefere ir à UPA por acreditar que a UBSF é mais lenta para atender. “Eles não atendem a gente se não estivermos muito mal. Como eu trabalho na escola da região, já ouvi que ali nada se resolve. Então, por isso venho aqui”, disse.

EXPLICAÇÃO

O titular da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), José Mauro de Castro Filho, garantiu que, apesar dos problemas que a reportagem constatou, o atendimento diminuiu 20% nas UPAs e nos Centros Regionais de Saúde (CRSs). “Estamos focando em reestruturar essas unidades e habilitá-las para o [programa do governo federal] Saúde na Hora”, explicou.
Mas ainda não há comprovação de que a queda nos atendimentos tenha ligação direta com o horário estendido nas unidades básicas. “[A redução dos atendimentos] pode ter sido por causa do fim da dengue”, disse.

Sobre a situação da UBS 26 de Agosto, que reduziu o expediente, Castro Filho disse que foram necessários ajustes. “Quando se estabelece qualquer programa, precisamos ver as necessidades. Por exemplo, não se pode fazer a triagem de um paciente às sete da noite e fechar a unidade”, justificou.

Já sobre a insegurança, o secretário disse que a questão está sendo avaliada com a pasta de Segurança e Defesa Social. “Estamos discutindo com o secretário Valério [Azambuja], mas não há efetivo para todas as instituições públicas da cidade. Temos rondas, temos videomonitoramento, e dessa forma está sendo feito”, relatou.

Quanto aos horários dos médicos, Castro Filho garantiu que a situação está sendo trabalhada a partir da implantação do ponto eletrônico. “Já existe determinação judicial e estamos aguardando os investimentos para isso. Mas não existe essa questão de sair mais cedo ou mais tarde, vai sair na hora que foi pactuada”, finalizou.

Para a coordenadora do CMS, Maria Auxiliadora Fortunato, falta divulgação do programa de horário estendido. “Falta interlocução, falta divulgação. Por isso não estão conseguindo pôr em prática, já que não tem usuário”, explicou.

O atendimento nas unidades básicas é primordial, já que permite à equipe conhecer e diagnosticar melhor o paciente, o que não acontece nas UPAs e nos CRSs em decorrência do volume de atendimento. “Um problema de saúde não será investigado na UPA. Mesmo que o paciente queira ser atendido com rapidez, precisa de referência. A classificação de risco da UBS é a mesma da UPA”, relatou Fortunato.

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