Campo Grande - MS, quarta, 22 de agosto de 2018

MORADOR-SP

Em carcaça de van, ex-morador de rua cria 'quitinete' com geladeira e fogão

30 JUL 2017Por Folhapress09h:14

 Há uma cama de casal no meio do único cômodo. Em cima dela, uma prateleira guarda as roupas dobradas com cuidado. Em frente, o ventilador, a geladeira, o microondas e o fogão, onde Emerson Amaral dos Santos, 36, prepara arroz, feijão, macarrão, bife e batata frita.

Tudo isso em frente a uma pracinha bem cuidada em Pinheiros, bairro nobre da zona oeste de São Paulo.
A quitinete de Emerson não é um lançamento imobiliário em um novo prédio com studios onde jovens solteiros pagam caro pelo metro quadrado (como um de 38 m² recém-construído na mesma praça). Trata-se de uma van, ou melhor, da carcaça de uma, estacionada na rua, onde ele construiu a sua "casa".

No espaço de cerca de 13 m² (um terço da área do novo prédio vizinho), ele colocou todos os móveis e ainda instalou uma espécie de caixa-d'água, em cima, que abastece a "residência".

Morador de rua, tecnicamente, ele não é. "Eu não sou mendigo, mas, pelos olhos da sociedade, eu sou", define. "Sou tipo um mendigo classe média alta."

Além dos benefícios da casa própria, Emerson tem a confiança dos vizinhos, conquistada depois que podou e limpou a praça quando chegou ali pela primeira vez, em 2012. Ele não permite que outras pessoas durmam no local. "A praça é privada", brinca.

A confiança é tanta que chega ao a ponto de deixarem com ele a chave do carro (Emerson cobra R$ 25 pela lavagem, sua principal fonte de renda) ou abrirem suas casas para que ele troque chuveiros e conserte fiações, entre outros serviços de reparo.

"Eu não sou bom com essas coisas. Eu sou curioso. Manjar de fiação, eu não manjo. Mas eu tento, irmão. Se dá pipoco, vamos ver o que acontece", explica. "Para falar a verdade, eu não sabia nada. Depois que fui para a prisão, aprendi."

É que, antes de morar na van (e depois de viver na rua, em barraca, ao relento, em casa invadida e em apartamento alugado), Emerson também morou 12 anos na prisão.

HISTÓRIA
O périplo de Emerson pelas ruas começou aos seis anos, quando fugiu de casa pra ver as luzes de Natal do shopping Eldorado, conta. "Minha mãe me procurando que nem louco. Eu ia pra rua, minha mãe vinha pra cá, me resgatava e me levava pra casa. Aí eu fugia de novo."

Com amigos que fazia nas ruas, dormia no canto de uma praça próxima ao shopping. Aí vieram os primeiros delitos. "Uns furtinhos aqui, ali, e acabei indo parar na Febem", diz. Os alvos eram entregadores, depois carros, lojas, "uma pá de coisa errada".

Condenado a quatro anos de cadeia por roubo de celular, teve direito à saída temporária no Natal em 2012. Foi quando chegou à praça onde está hoje. Decidiu duas coisas: 1) deixar a vida do crime e 2) não voltar para cumprir o resto da pena ("Jamais vou voltar com as minhas próprias pernas para a cadeia").

Um vizinho permitiu que ele dormisse em sua Kombi abandonada, e ele instalou nela colchão e geladeira. "Deixei a casa top", diz.

Foi pego mais uma vez, depois de meses foragido. Quando deixou a cadeia em novembro de 2015, já sem dever nada à Justiça, voltou à praça. A Kombi estava lá, mas sem nenhum de seus móveis e com uma placa de "vende-se".

Resolveu comprá-la, pagando R$ 100 por semana.

Montou de novo sua casa no veículo, até que "o [agente da] CET começou a embaçar na minha", conta. Emerson então resolveu trocar o veículo (a carcaça dele) com um "brother que estava louco pelo carro".
"Minha Kombi era 1979, você dava um murro e caía ferrugem. O cara vai me oferecer um carro do ano 2000? Com documento em dia? Caiu do céu", lembra-se Emerson.

Depois, vendeu o novo carro por R$ 8.000. "Terminei de pagar minhas contas e gastei um pouquinho também, que eu não sou besta, sou filho de Deus, e fui pro rolê."

Ficou sem ter onde morar, mas por pouco tempo: um vizinho tinha uma van do modelo Sprinter que fora roubada, depenada e abandonada.

"A van estava toda pichada, e só tinha lixo dentro, fedendo. Não tinha banco, não tinha nada, só a carcaça. Aí comecei a dar um talento", explica. Assim, mobiliou mais uma vez a casa, com doações.

No novo lar, recebe visitas até da mãe, ("meu xodó") que já desistiu de convencer Emerson a voltar para casa. Só falta agora televisão e notebook (um vizinho emprestou a senha do wi-fi).

Emerson, porém, sente saudades da Kombi. "Era mais fácil de achar minhas coisas. Aqui é grande, eu perco tudo, passo meia hora procurando", desabafa .

Ideal mesmo seria arrumar um carro com motor. "Aí eu vou pra praia, vou bagunçar em Maresias, Riviera. Isso se eu não for pro México, pra Argentina. Onde der pra chegar dirigindo eu vou."

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