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Campo Grande - MS, terça, 18 de dezembro de 2018

70 mil filiados

Suspeita de pirâmide, empresa
de bitcoins atrasa pagamentos

Minerword é alvo de investigações nas polícias Civil e Federal e na CVM

15 JAN 2018Por EDUARDO MIRANDA06h:00

Você aplicaria seu dinheiro em uma empresa que promete devolver o dobro do valor investido em até 1 ano, por meio de um parque de “mineração” de moedas digitais na China e outro no Paraguai (que ainda não está pronto), e não reconhecida pelos órgãos oficiais que regulam as transações financeiras?

Nos últimos dois anos, parte dos 70 mil filiados da Minerworld, motivados por essa promessa de renda, investiram nos sistemas informatizados desta empresa. Agora, vários deles começam a relatar atrasos nos pagamentos, ao mesmo tempo que há investigações ou determinações de abertura de inquéritos em três órgãos: Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, Polícia Federal e Comissão de Valores Mobiliários (CVM). 

Em agosto do ano passado, o juiz Márcio Alexandre Wust determinou que a 6ª Delegacia de Polícia de Campo Grande abrisse inquérito com informações repassadas pelo Ministério Público Federal, para investigar suposto esquema de pirâmide financeira com o uso da moeda digital bitcoin. Há a suspeita de que a empresa se sustente não com o valor auferido com os bônus oriundos da validação de transações de bitcoins em todo o mundo (a mineração desta criptomoeda), mas com a entrada de novos investidores, o que configuraria a pirâmide, ou pelo eufemismo utilizado no mercado: marketing multinível. Também há inquérito aberto na Polícia Federal, que não liberou o conteúdo das investigações.

A CVM, órgão governamental que protege e regulamenta os investimentos financeiros no Brasil, já avisou que nela não há registro algum da Minerworld.

“Por esse motivo, foi aberto o processo 19957.005648/2017-58, em decorrência de outras denúncias ou consultas recebidas pela CVM. Verificamos que foram identificados indícios de crime contra a economia popular; exigência de pagamento inicial; promessa de retorno financeiro extraordinário (100% em um ano); promessa de indicação de ganhos com a indicação de novos afiliados(…); falta de informação sobre riscos envolvidos; fornece pouca informação sobre a empresa”, indica consulta no órgão governamental. 

ATRASOS

Um dos indícios de que os pagamentos na empresa suspeita de pirâmide não vão bem são os atrasos, que se intensificaram no fim de 2017, e conforme relatos de afiliados (alguns preferiram manter o sigilo) continuam neste início de 2018.

“No mês de dezembro, eles não cumpriram os prazos, e mudaram a forma de saque, que não ocorre mais em real, mas em bitcoins e só por meio da plataforma deles, mediante pagamento de uma taxa”, afirmou o afiliado que pediu para não revelar sua identidade. 

Há afiliados da empresa, contudo, que não escondem a indignação e vão às redes sociais para demonstrá-la. É o caso de Kleber Santos, que já publicou vídeos, e ainda está organizando uma ação coletiva contra a empresa de mineração de moeda digital. “Não estão pagando, e não estão cumprindo o contrato”, diz Kleber. 

Para justificar os atrasos, a Minerworld alega problemas para recebimento de seus ativos em “plataformas trader”  localizadas fora do País. A empresa, que afirma nunca ter se redimido de resolver a situação, informou que nos últimos dois meses do ano foram efetuados saques de 624 bitcoins (R$ 29 milhões na cotação de sexta-feira, 12). A empresa, porém, não revela a quantia de bitcoins já minerada, nem tampouco o quanto recebeu de seus filiados no momento da adesão.

A Minerworld também admitiu que os atrasos ainda não foram resolvidos. “Tão logo o sistema processe e faça o cruzamento dos dados, a empresa fará a quitação dos vencimentos”, respondeu a empresa, em nota. 

INVESTIGAÇÕES

Sobre as investigações da Polícia Federal, Polícia Civil e CVM, a Minerworld informou que jamais recebeu qualquer intimação. Fontes da Polícia Civil e Federal, porém, informaram que não é praxe intimar os investigados enquanto as provas estão sendo levantadas.

“Sobre a CVM, a Minerworld entende que não está na área de atuação do órgão, uma vez que não oferecemos valores mobiliários. Atuamos com hash de mineração”. 

Apesar de, em seus contratos firmados em território brasileiro, com afiliados brasileiros, usar CNPJ de empresa Bit Ofertas de Informática (ME), uma microempresa com endereço na Rua 15 de Novembro, em Campo Grande, a Minerworld alega que não precisa de autorização da CVM para atuar no País. “É uma empresa paraguaia que atende pessoas de todo o mundo, inclusive brasileiros, portanto, está submetida aos órgãos competentes daquele território”, informou a empresa.

A Bit Ofertas pertence a Jonhnes De Carvalho Nunes, diretor de marketing. O presidente da Minerworld é Cícero Saad. Atualmente, ele é réu em acusação por “estelionato”, em processo que tramita na 4ª Vara Criminal de Campo Grande. Saad, que já se defendeu no processo, nega a acusação do Ministério Público Estadual.

O QUE É BITCOIN?

Bitcoin é uma moeda digital, ou criptomoeda, descentralizada (sem ligação com nenhum banco central). As transações em bitcoins - sempre no mundo virtual - são validadas por mineradoras, que adicionam registros destas transações ao livro público de bitcoins.

O trabalho de mineração consiste em encontrar novos blocos de transações (tarefa cada vez mais difícil no mundo virtual), para que as mineradoras sejam recompensadas por isso. 

Na última sexta-feira, quando a cotação do bitcoin chegou a R$ 47,2 mil reais, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) proibiu gestores de fundos de investimentos brasileiros de investirem em criptomoedas.

*Editada às 15h32 para acréscimo de informações.

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