Campo Grande - MS, sábado, 18 de agosto de 2018

118 anos

"Me apaixonei", dizem empresários que descobriram novo caminho profissional

Nunca é tarde para se reinventar

26 AGO 2017Por Silvia Frias07h:00

“Me apaixonei”.  Com a mesma frase, os empresários Renato Genzio Leone Jr., 55 anos, e Luciene Lemes de Aurélio Colino, 36 anos, definiram o sentimento que tiveram ao descobrirem novo caminho profissional. São trajetórias completamente diferentes que apresentam similaridades. Em comum, Campo Grande como cenário da mudança, a força de vontade e a crença de que, apesar das dificuldades, haviam descoberto o que realmente gostavam de fazer.”

Renato Genezio  Leone Jr., 55 anos
Morava em São Paulo e sou engenheiro agrônomo formado. Terminei universidade e entrei como trainne aos 18 anos no Citibank, trabalhei por seis anos até ser gerente da carteira rural. Tinha um amigo que tinha fazenda em Mato Grosso do Sul, me convidou para vir, fiquei 15 dias em Campo Grande, me apaixonei pela cidade. Foi em outubro de 1990. Fiquei maravilhado pela forma da cidade urbanizada, pelo modo de vida interiorano em uma capital em ascensão, uma gama de oportunidades, estava em franco crescimento, a cidade estava amadurecendo. Voltei decidido a sair do trabalho, meu chefe viu que não tinha jeito, me mandou embora.

Tinha 24 anos. Quando vim para cá, com a minha esposa, a proposta era fazer mudança radical ou eu trabalharia como engenheiro no que me interesasse. Vim para fazer coisas que não tinha possibilidade de fazer em São Paulo e coisas que não teria coragem dentro do Citibank. Montei pizzaria, precisava me relacionar, conhecer pessoas, não tem coisa melhor para fazer isso do que mexer com comida. Trabalhei nisso por dois anos, minha network aumentou consideravelmente. A gente veio numa velocidade muito acima do que exigia. Paralelo à pizzaria, dei aula de inglês, tive programa de rádio, montei sistema de informática. Minha esposa dominava três idiomas, trabalhou  como professora.



Renato veio para Campo Grande aos 24 anos, acompanhado da esposa

Aí, trabalhando com a pizzaria, recebi convite para trabalhar com empresa de sementes, como engenheiro agrônomo. Fiquei dois anos e meio, era empresa familiar, tinha ideias diferentes que não casavam. Optei por sair e montei conveniência em posto de combustíveis, mais um ano e meio nisso. Depois, como tinha know-how, trabalhei como consultor e montei uma pizzaria para um amigo, fiquei dois anos nisso. No meio disso tudo, comecei a buscar o que realmente queria e comecei a fazer Mestrado em Engenharia Florestal. Para finalizar os estudos, tive que arrendar uma marcenaria, era sobre introdução de espécies de madeira utilizadas na indústria carvoeira na indústria imobiliária. Eu me apaixonei quando conheci o beneficiamento de madeira na área de mobiliário, minha vida era marcenaria. Antes eu até fazia alguma coisa, mexia uma coisa ali, restaurava para amigos, mas era informal. 

Nem concluí mestrado, não quis a bagagem que eu tinha, não precisava. Fiquei dez anos pegando trabalhos, executando. Em 2006 recebi convite da ONG Gira Solidário para participar da formatação da Escola Pau Brasil (projeto que oferece curso de marcenaria, desing e produção de móveis para jovens aprendizes). Era um projeto grande, o Stephan Hofmann, coordenador do projeto, queria montar escola nos padrões europeus. Ficamos juntos seis anos, com o Fred Lei (outro colaborador) tocando os projetos.

Nisso, a minha empresa continuava existindo, mas não tinha o formato que eu queria, que era trabalhar com sustentabilidade, tratamento de efluentes, queria montar empresa ecologicamente correta. Então, quando surgiu a proposta da ONG, pensei: “era isso que eu precisava”. Os meninos do projeto eu fui contratando para trabalhar na minha empresa, aí constituí a Wood Design Marcenaria.

Constituí minha vida aqui. Me separei, casei de novo, tenho dois filhos, de 13 e 7 anos. A crise afetou o País inteiro, todo mundo sentiu, a gente sente como qualquer cidadão, mas eu nunca parei de trabalhar, deu uma estagnada dois ou três meses do começo de 2017, depois a gente retomou. Como eu trabalho como reutilização de matéria-prima, é um diferencial. Nunca pensei em desistir, jamais; sempre soube que aqui ia dar certo.

Luciene Lemes de Aurélio Colino, 36 anos
Comecei a trabalhar aos 16 anos, como secretária em consultório. Me formei em curso técnico de enfermagem em 2001, mas nunca exerci a profissão. Na época, ganhei a bolsa em projeto do governo estadual, resolvi fazer, fiz até o final, mas não queria isso. De secretária passei para setor administrativo, sempre na área da saúde. Em 2007 fui  para Guaiaquil (Equador), tinha 27 anos. Minha cunhada mora lá e meu marido quis se aventurar, ter uma experiência de vida diferente. No começo foi difícil,  a gente não sabia falar nada em espanhol, mas aí gente foi se adaptando. Nós abrimos uma pizzaria, ficamos dois anos.


Luciene começou a trabalhar em casa para cuidar da filha, Livia Ester

Minha filha nasceu no Equador, em 2009, se chama Lívia Ester. Quando ela tinha seis meses de idade, a gente voltou para o Brasil, a saudade da família bateu. Vendemos a pizzaria para minha cunhada. Aqui em Campo Grande, voltei como auxiliar administrativo, no mesmo laboratório de prótese que havia trabalhado. Fiquei um ano e meio na função. Nesse período, meu marido ficava com a Lívia, ela era pequenininha, mas aí ele começou a trabalhar fora. Como não tinha ninguém que ficasse com ela, saí do laboratório. Aí pensei em trabalhar em casa, quis artesanato. Já mexia em alguma coisa, mas não como profissão. Deus me deu o dom, me apaixonei. Não foi fácil, acho que as pessoas não dão muito valor a arte. Ia para feira, levava material feito em MDF, biscuit, mas não fazia muito sucesso, acredito que falta de reconhecimento que falei. Só começou a dar certo quando resolvi fazer arte em festa, trabalhar com doces personalizados. Trabalho em casa, sozinha, atendendo buffet. 

Juntei as duas coisas, desenvolvo o tema, um pacote fechado para decorar a mesa. Uso MDF, biscuit, scrapbook, tudo personalizado. Atendo três festas por semana, levo uns dois dias por encomenda. E toda semana tem, graças a Deus. Minha renda é toda com festas infantis. Ano passado a crise afetou, foi ruim, mas este ano já voltou ao normal, está sendo muito melhor. 

Campo Grande é um lugar legal para trabalhar, mas sinto falta de achar material, tenho que comprar muito pela internet. Mas a demanda é muito boa, graças a Deus; as pessoas aqui gostam muito de novidade, principalmente na área infantil. Para mim, aqui é bom. Cuido da minha filha, a Lívia está com 8 anos; levo para escola, trabalho, faço a correria atrás do material para as festas, tem almoço, trabalho mais um pouco. Sou apaixonada no que faço, essa é que a verdade.

 
  • Paulo Ribas / Correio do Estado
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