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Campo Grande - MS, domingo, 16 de dezembro de 2018

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Após acusações de abuso sexual contra médium, promotora pede para vítimas denunciarem

8 DEZ 2018Por G116h:00

Após mulheres acusarem o médium João de Deus de abuso sexual, a promotora de Justiça Silvia Chakian pede que todas as pessoas que se sentirem vítimas o denunciem ao Ministério Público. Em nota, João de Deus afirma que "rechaça veementemente qualquer prática imprópria em seus atendimentos" .

"Daqui para frente, todos os casos são processados mediante ação penal pública e o titular dessa ação penal é o Ministério Público. Aí a importância de todos esses casos chegarem ao conhecimento do MP sempre", disse em entrevista à TV Globo.

A promotora entende a demora de as vítimas denunciarem os abusos e, por isto, considera fundamental o fato de não se ter prazo para registrar estes crimes. "Em casos como esse, fica muito claro como o prazo era insuficiente para mulheres que sofrem e demoram, muito mais de seis meses, para se compreenderem como vítima de violência. É próprio do pós-trauma essa demora em denunciar”, afirmou.

Dez mulheres relatam terem sofrido abusos sexuais do médium durante atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, na cidade de Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal. As histórias foram reveladas no programa Conversa com Bial desta sexta-feira (7).

João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, é famoso pelos atendimentos e cirurgias espirituais que faz desde 1976, em Abadiânia, uma cidade com menos de 19 mil habitantes. A Casa Dom Inácio de Loyola recebe até 10 mil pessoas por mês – a maioria, estrangeiros. Os relatos sobre as curas obtidas pelo médium, incorporando entidades, se espalharam pelo mundo.

"Não se trata de questionar os métodos de cura de João de Deus, muito menos a fé de milhares de pessoas que o procuram. Estamos apenas dando voz a mulheres que se sentiram abusadas sexualmente pelo médium", disse Pedro Bial durante o programa.

Apenas uma das mulheres ouvidas por Bial, Zahira Leeneke Maus, uma coreógrafa holandesa, aceitou se identificar. Outras, todas brasileiras, preferiram não mostrar o rosto, por sentirem medo e vergonha.

Zahira fez recentemente uma denúncia pública no Facebook, quatro anos após ter sofrido a violência sexual. "Eu sei que tenho sido criticada: 'Por que você está vindo com a sua história, se ele está curando milhares de pessoas?' E essa é uma das razões do porquê eu não disse nada. Porque se fosse só eu, eu que engula, porque ele está curando milhares de pessoas, certo? Mas agora eu sei, ele está abusando de centenas de mulheres e meninas", afirmou Zahira.

Padrão de comportamento

De acordo com os relatos, João de Deus agiu de forma similar em todos os casos. Durante os atendimentos espirituais coletivos, o médium disse para as mulheres que, segundo a entidade, elas deveriam procurá-lo posteriormente em sua sala, porque tinham sido escolhidas para receber a cura. As entrevistadas dizem que, uma vez que elas estavam sozinhas com ele, eram violentadas sexualmente.

"Pegava na minha mão para eu pegar no pênis dele. (...) Ele falava: 'Põe a mão, isso é limpeza. Você precisa dessa limpeza, é o único jeito de fazer isso'", disse uma mulher que procurou João de Deus para cura espiritual.

De acordo com Zahira, ao ouvir os relatos de outras mulheres, ela percebeu que “existe um sistema. A primeira coisa é 'vire de costas, eu vou te curar'. Existe um padrão (...) Você é manipulada a acreditar na cura”.

O jornal "O Globo" ouviu quatro das dez mulheres que falaram ao programa "Conversa com Bial", além de duas outras vítimas. Os relatos, colhidos ao longo de três meses de investigação, foram divulgados na íntegra no site do jornal. Dentre todas as 12 mulheres que denunciaram João de Deus, Zahira foi a única que contou ter sido penetrada por ele.

Segundo uma das mulheres, o médium demonstrou saber que aquilo que estava fazendo com ela poderia ser considerado assédio sexual.

"Calma, eu não estou com tesão, mas preciso fazer isso para te curar", uma delas relatou ter ouvido de João de Deus durante o abuso.

Segundo ela, o religioso a obrigou a masturbá-lo enquanto ela chorava, aos soluços. "Eu sei muito bem o que estou fazendo e que isso seria considerado assédio, eu não sou louco. Dizia que estava me livrando das energias negativas", relatou a segunda mulher, que disse ter sido constrangida a segurar o pênis do médium. Ele também teria tocado partes do corpo dela, como os seios. Em um determinado momento, ele teria dito que não era mais a entidade ali, que era o homem.

Zahira relata estupro

A holandesa Zahira disse que ouviu falar de João de Deus por intermédio que um amigo. E que esteve mais de uma vez em Abadiânia, em busca de espiritualidade e de cura para um trauma sexual. Ela chegou a ser treinada para ser médium.

Ela conta que, numa das vezes em que esteve em Abadiânia, foi convidada para uma consulta particular com João de Deus. E que o médium a levou até um banheiro, na sala dele, e se posicionou atrás dela.

"Aí ele agarrou minha mão direita e a colocou por trás de mim na calça dele. E eu fiquei, tipo... tem esse momento em que você congela. Por que isso está acontecendo? Por que eu tenho que tocar no seu pênis, para ser curada? Ele tem um sofá grande no banheiro. Ele me levou até lá e me botou de joelhos na frente dele. Ele abriu a calça e colocou minha mão no pênis dele. E ele começou a movimentar a minha mão em cima do pênis dele. E eu estava em choque. Eu ainda não posso acreditar nisso. Mas eu estava congelada. E ele continuava falando, conversando, falando sobre minha família. Você está sendo manipulada a acreditar, enquanto ele estava me analisando ou fazendo alguma coisa. Aí ele disse: 'Você deveria sorrir. Você deveria se sentir feliz'. E eu: 'eu não sinto nenhuma alegria'. Isso não é o motivo de eu estar aqui. Aí ele estava se limpando, fechando as calças de novo, ele me levou pro escritório de novo, ele me botou no sofá, abriu um armário com pedras preciosas e disse que eu poderia escolher uma. É como se fosse um pagamento. Isso é um pagamento? O que está acontecendo aqui?”

Zahira disse que sentia como se estivesse sendo manipulada, arrastada para aquela situação. Dias depois, ela voltou à casa. “Ele me puxou de novo para o banheiro. [...] “Um padrão parecido, mas ele deu um passo adiante. Ele me penetrou por trás e, de novo, esses... Eu nem consigo descrever.”

'Não vai falar para ninguém'

Uma das brasileiras entrevistadas disse que já costumava frequentar a casa em Abadiânia. E que em 2013, depois de se divorciar, voltou a procurar o médium. Ela contou que participava de um atendimento em grupo, quando também foi convidada por João de Deus para encontrá-lo mais tarde na sala dele.

"Então ele me conduziu para um baheiro, que mais parece uma sala, poque é muito grande e fechou a porta. Ali ele pediu para ficar de costas pra ele. Ele perguntou se tinha metal. Falei que sim, o sutiã. Pediu pra eu tirar. Pus o braço por dentro e tirei. Ele falou: 'vou ficar atrás de você e fazer realinhamento energético. Aí ele ficou muito próximo, colocou minha mão pra trás, isso ele já estava com o pênis pra fora, ele falou: "Põe a mão aí, isso é limpeza, você precisa da minha energia, que só vem dessa maneira pra fazer a limpeza em você."

Disse que o médium pediu pra ela voltar outras vezes.

"Às 7h da manhã, ele fez a mesma coisa, só que dessa vez ele sentou numa cadeira e pediu para eu fazer sexo oral nele."

"Eu fiz com muito nojo, e realmente eu não fazia, porque... Eu não chegava perto. E ele dizia: 'Faça isso direito, menina. Você não quer as coisas? Como é que fazendo as coisas desse jeito você vai ter as coisas na sua vida?'”

Essa outra mulher, que deu entrevista ao lado do marido, disse que procurou a casa de Abadiânia depois de passar por um tratamento de câncer de mama. Lá, se submeteu a uma cirurgia espiritual – e foi orientada a voltar para uma revisão.

No encontro, recebeu um pedido de João de Deus: “O que eu fizer aqui dentro, você não vai falar pra ninguém". "E ele falou assim: 'você levante que vou te curar'. E você vai ter que se entregar. Aí pediu pra ficar de costas e nisso ele começou a passar a mão no meu corpo, no meu abdomen, no meu seio, pela minha nádega, que até entao, ele ja tava comprimindo meu corpo. Aí eu comecei a chorar, comecei a ficar desesperada e eu só pensava assim: 'como eu vou sair daqui'. Eu olhava pra uma porta, olhava pra outra, e eu pensava: 'se eu gritar, tem milhares de pessas aí fora que endeusam ele, chamam ele de João de Deus'."

Ela conta que o médium ficou irritado e fez uma espécie de ameaça: “Você está sendo ingrata, você não esta se entregando. Se você não fizer o que eu estou falando, a sua doença vai voltar. Você quer que volte?"

'Eu tava ali sendo abusada'

Outra mulher, de 33 anos, contou que procurou João de Deus porque tinha depressão e síndrome do pânico. Segundo ela, logo que ficou sozinha com o médium na sala, ele trancou a porta.

"'Levanta aqui q vou limpar seus chacras' [ele disse]. Nisso ele ficou em pé, eu fiquei na frente dele, e ele já começou a fazer movimento, passando a mão no meu peito. Nisso ele me virou e pediu pra fazer massagem na barriga dele. Eu fazendo essa massagem, ele pedia pra eu fazer com força, pedia pra eu ficar de olho aberto, e eu não conseguia porque eu já tava incomodada. Aí ele me afastou um pouco e já tirou o pênis pra fora. E pegava na minha mão pra pegar no pênis dele, eu tirava a mão e ele falava: 'Você é forte, você é corajosa. O que você tá fazendo tem um valor enorme'. Eu não tava fazendo nada. Eu tava ali sendo abusada. Eu não tava fazendo nada."

'Homem poderoso'

Amy Biank, coach espiritual e autora americana que levava pessoas em peregrinação para a Casa Dom Inácio de Loyola desde 2002, disse que as pessoas que trabalham com o médium sabem do que acontece e que quem tenta denunciar acaba saindo da Casa por medo, já que ele é um “homem muito poderoso”. Amy diz ter sofrido ameaças de morte.

"Uma delas [pessoa que trabalhava para João de Deus] disse que tinha limpado a boca de uma menina. Disseram que era ectoplasma, e ela estava tão doutrinada que não percebeu que era sêmen", disse Amy Biank.

Uma das mulheres relatou que João de Deus disse que fazia parte do processo de cura não contar para ninguém o que havia acontecido. Outra disse que as entidades que ele recebia falavam que ela deveria ficar em silêncio. “Todas as entidades que vinham, umas três, falavam que não era para eu contar o que tinha acontecido ali.”

Ammy disse que uma vez, quando acompanhava um grupo a Abadiânia, ouviu um grito de socorro, entrou na casa e viu João de Deus forçando uma jovem a fazer sexo oral nele. Ele pediu pra eu fechar os olhos e sentar.

"Eu vi que ele estava com a calça aberta, ela estava ajoelhada e com uma toalha no ombro. Ela não estava querendo fazer sexo oral nele, foi por isso que ela gritou. Mas eu sentei no sofá e fechei meus olhos, porque eu estava tão doutrinada a achar que aquilo tudo era divino e especial."

Ammy disse que cruzou com João de Deus, depois numa pousada da região. "Mais tarde ele veio até a pousada em que estávamos, porque ele sabia que eu tinha visto, e aí ele chegou e disse: 'Quando eu sou o João, eu sou somente um homem. E homens têm necessidade. Um homem é somente um homem'."

O que diz João de Deus

Assessoria de imprensa do médium enviou uma nota ao programa, afirmando: "Há 44 anos, João de Deus atende milhares de pessoas em Abadiânia, praticando o bem por meio de tratamentos espirituais. Apesar de não ter sido informado dos detalhes da reportagem, ele rechaça veementemente qualquer prática imprópria em seus atendimentos".

Trajetória do médium

João Teixeira tem seguidores famosos e já recebeu visita de personalidades como a apresentadora americana Oprah Winfrey. Ele foi apadrinhado por Chico Xavier e, antes de fundar a Casa Dom Inácio, em 1976, peregrinava pelo país fazendo cirurgias espirituais, segundo reportagem do jornal "O Globo".

No início do seu trabalho, João de Deus foi alvo de denúncias de exercício ilegal da medicina. Depois, também foi acusado de sedução de uma menina menor de idade. Foi absolvido por falta de provas.

De acordo com a revista "Época", o religioso já foi acusado também de atentado ao pudor, contrabando de minério e até por assassinato. Em nenhum dos casos foi julgado culpado.

Ele nasceu em Cachoeira da Fumaça (GO), filho de um alfaiate e uma dona de casa. Estudou até o segundo ano do ensino fundamental. Tem 11 filhos – cada um com uma mulher diferente. A revista "Época" diz que alguns deles são evangélicos, e não seguem a espiritualidade atribuída ao pai. João de Deus rejeita o rótulo de santo ou de ser um homem especial.

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