Fale conosco no WhatsApp

Por sua segurança, coloque seu nome e número de celular para contatar um assessor digital por Whatsapp.

Palestra

'Império das barrinhas de cereal' deu projeção a ex-assessor de Michel Temer

11 JUN 17 - 21h:00Folhapress

Quando chegou a São Paulo para prestar vestibular, na década de 1960, Rodrigo Rocha Loures, pai e homônimo do filho deputado preso em Brasília, não conseguia dormir por causa do barulho. "Aquele barulho de trem, de bonde", contou, numa palestra a estudantes.

Nascido em Curitiba, de tradicional família paranaense, seu destino era cuidar das fazendas dos Rocha Loures no Norte do Paraná -pelo menos assim queria o pai.

Em vez disso, o jovem que sonhava em ser empreendedor cursou administração e foi um dos fundadores da Nutrimental, empresa de alimentação com faturamento de R$ 300 milhões, pioneira em barrinhas de cereal no Brasil.

O filho, atualmente detido no presídio da Papuda sob suspeita de receber propina da JBS, integrou um importante capítulo da história da empresa, que hoje vive um período de vacas magras -mas não por causa da prisão de Rodriguinho, afastado da diretoria desde 2002.

Ele foi o responsável, como gerente de marketing e novos mercados, por encampar a ideia da barrinha nos anos 1990, que virou o carro-chefe da empresa.

"É o Zé Alencarzinho do Paraná", cunhou o presidente Lula sobre o então candidato a vice-governador do Paraná, na chapa de Osmar Dias (PDT), que perdeu a eleição. A comparação com o vice-presidente, o industrial José Alencar, parecia apropriada.

À época, a Nutrimental registrava recordes de faturamento. Fundada em 1968, ela foi uma das principais fornecedoras de merenda escolar no país. "Nós inventamos uma sopinha bem brasileira", costuma dizer Rocha Loures, o pai, sobre o processamento de pó de feijão, cebola, alho e macarrão. A mistura, feita com tecnologia inédita, foi vendida em todo o Brasil por pouco mais de 20 anos.

Em 1991, suspeitas de superfaturamento suspenderam os contratos da empresa e de outras concorrentes com o governo federal. O TCU (Tribunal de Contas da União) relatou sobrepreço, pagamentos antecipados e aditivos em excesso. O governo deixou de pagar o que devia, e a maioria das empresas quebraram.
A barrinha foi a salvação da Nutrimental, inspirada em um "pé de moleque gringo".

PÉ DE MOLEQUE
Quem levou a sugestão foi a antropóloga Mary Allegretti, que trabalhava com comunidades amazônicas e experimentou barrinhas de castanhas brasileiras nos EUA. Ela queria desenvolver produto semelhante numa empresa nacional, usando castanhas amazônicas e revertendo parte da renda aos produtores.
Allegretti não conhecia Rodriguinho. "Bati na porta e quem me atendeu foi o próprio", conta à reportagem.

Recém-formado em Administração, ele tinha 24 anos. Foi "muito receptivo" à ideia, diz a antropóloga, e chegou a viajar ao Acre e Amapá para conhecer a produção de castanhas. "A equação era: a menor quantidade de castanha ao maior valor agregado possível", contou o deputado, numa entrevista concedida em 2009. A ideia era preservar a floresta, sem extrair matéria-prima excessivamente.

A Nutrimental tinha tecnologia para isso: poucos anos antes, havia desenvolvido alimentação desidratada para o navegador Amyr Klink, que atravessou o Atlântico.

Ao longo dos últimos 20 anos, a empresa se profissionalizou. Proibiu a ocupação de cargos executivos pelos sócios ou seus herdeiros, como forma de proteger a companhia, e instituiu um sistema de gestão horizontal, em que os funcionários participam das decisões. Pai e filho se afastaram da direção.

Demonstrando inclinação à política, o patriarca foi presidente da Federação das Indústrias do Paraná por oito anos e concorreu à prefeitura de São José dos Pinhais, sede da Nutrimental, em 2012. Ficou em terceiro lugar.

"A empresa que só pensa no lucro é pobre. Não tem grandeza. A causa é que move as pessoas", afirmou, em entrevista recente, Rocha Loures pai, que é considerado uma referência em sustentabilidade e inovação. Hoje, se dedica à defesa do filho.

Com a crise, a Nutrimental reduziu os investimentos a quase zero e cortou funcionários. O prejuízo nos últimos anos é de R$ 31 milhões.

Ainda é, porém, líder no mercado de barrinhas. Em 2016, parou de fornecer à administração pública brasileira -mercado que "não tem mais importância econômica para os negócios da empresa", segundo a diretoria.

Na sua última campanha para deputado, em 2014, Rodriguinho esteve na Nutrimental. Circulou pela fábrica e distribuiu santinhos aos funcionários. Não se reelegeu.

Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.

Leia Também

EX-PRESIDENTE DO PT

Segunda Turma do STF arquiva investigação contra Berzoini

300 MORTOS

Grupo Estado Islâmico reivindica atentados no Sri Lanka

90 DIAS

PF pede prorrogação de inquérito que apura atentado contra Bolsonaro

PREVIDÊNCIA

Porta-voz: governo sabe que enfrentará ainda fortes resistências à reforma

Mais Lidas