Campo Grande - MS, domingo, 19 de agosto de 2018

falha sistema

Governo federal deu as costas
à alerta de Guerra na Rocinha

Agentes penitenciários revelaram que tentaram informar ministro

25 SET 2017Por TAVANE FERRARESI19h:16

Agentes penitenciários federais identificaram a visita social como a grande falha no Sistema Penitenciário Federal do Brasil. É por meio desse benefício que presos de alta periculosidade conseguem ordenar assassinatos, rebeliões e ataques como o ocorrido na semana passada, na Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Justamente por causa desse problema já diagnosticado pelo serviço de inteligência de unidades prisionais federais, o Ministério da Justiça determinou em maio deste ano a proibição das visitas íntimas. No entanto, as visitas sociais — aquelas com contato físico, ainda são permitidas e utilizadas pelos detentos como ferramenta de coordenação e execução de ordens criminosas.  

Preso em penitenciária de segurança máxima federal em Porto Velho (RO), o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, mais conhecido por Nem, usou as visitas sociais para comandar a invasão na Rocinha.

"Temos absoluta certeza de que a ordem para o conflito aconteceu durante as visitas que ele tem no presídio. Apesar de serem vigiadas, o preso consegue passar ordens a pé de ouvido de modo que não temos como monitorar. Esse é o grande problema. Nós já o identificamos, mas por falta de apoio político não conseguimos exterminá-lo e quem sofre com isso é a sociedade", afirmou o agente penitenciário federal G. S., 48 anos, que não será identificado por motivo de segurança. 

Segundo ele, o sistema de inteligência identificou durante as visitas sociais que Nem estaria planejando atacar a Rocinha.

"Sabíamos que ele estava tramando algo, mas por não termos o controle do que é conversado na base do cochicho com o visitante não tínhamos os detalhes da operação. Por isso, pedimos dias atrás uma audiência com o ministro da Justiça, Torquato Jardim, para tratar do assunto. Mas ele não nos recebeu", disse o agente ao lamentar a tentativa frustrada de impedir o confronto na Rocinha.

"Nossa intenção era pedir ao ministro que baixasse com urgência uma portaria impedindo a visita social. Só assim Nem ficaria impedido de continuar organizando a invasão", ressaltou outra agente penitenciária federal que pediu para não ser identificada. Conforme ela, as visitas sociais permitem ao preso continuar praticando crime de dentro das penitenciárias.

"Nós já fizemos esse diagnóstico, temos a absoluta certeza de que esse é o calcanhar de Aquiles do sistema prisional federal, mas por falta de apoio político não estamos conseguindo acabar com esse problema", lamentou.

Ainda segundo a agente, não é verdadeira a alegação de que o fim da visita social atrapalharia o vínculo do preso com a família.

"Na verdade, esses presos utilizam os próprios familiares para continuarem ordenando crimes na sociedade. Eles usam o filho, a mãe, a mulher, seja quem for, para passarem ordens de crime no mundo aqui fora", pontuou.

A agente ainda ressaltou que há outras formas de se garantir a relação familiar. "Existem vários meios de manter o contato com a família. Tem o contato por meio de carta, o contato virtual e o do parlatório (sistema em que preso e visitante são separados por um vidro e conversam por interfone). Então, não tem essa de que eles ficarão sem contato com os familiares". 
 
VISITA SOCIAL E VISITA ÍNTIMA

Desde maio deste ano, 561 presos nas penitenciárias federais de Campo Grande (MS), Catanduvas (PR), Mossoró (RN) e Porto Velho (RO) estão proibidos de receber visita íntima. Mas, amigos e familiares podem marcar com antecedência a visita social que é aquela que o preso consegue ter o contato físico. E, conforme o setor de inteligência do sistema prisional federal, é justamente nesse contato que mora o perigo.

"Temos controle do que é conversado no parlatório, nas cartas e nas audiências virtuais, mas a visita social permite um contato que não temos como controlar completamente. E é exatamente isso que precisa ser parado", disse um dos agentes penitenciários federais ouvido pela reportagem.

Segundo ele, a suspensão da visita íntima ocorreu logo depois do assassinato de uma psicóloga que atuava no presídio de Catanduvas. Ela teve a morte encomendada de dentro da penitenciária.

"No período de um ano tivemos cinco colegas mortos. Nós que trabalhamos com os presos e a sociedade em geral somos reféns dessa falha do sistema". "Será que vale a pena permitir que a visita social continue e a segurança da sociedade fique comprometida?", questionou o agente penitenciário federal R.T.

 
  • Foto: Marino Azevedo/Governo do Estado RJ
  • Foto: Marino Azevedo/Governo do Estado RJ

Leia Também