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OPINIÃO

Paulo Cabral: "Pandemia e oportunismo"

Sociólogo e professor
21/03/2020 01:00 - Da Redação


Diante do protagonismo assumido por Luiz Henrique Mandetta na crise gerada pela Covid 19, finalmente, o presidente da República decidiu encarar os fatos e convocar uma coletiva que, em tese, teria por finalidade demonstrar a posição do governo diante do problema.

Cabe pontuar que, até 18 de março, coube ao Ministério da Saúde o comando do processo, graças à competência técnica acumulada pelo Brasil na área da saúde pública, resultado de programas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico no setor, bem como da militância pela causa sanitária, retomada em função de uma outra pandemia, a da meningite, que, em 1974, a partir de São Paulo, atingiu todo o Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia. O movimento sanitário propôs, na histórica VIII Conferência Nacional de Saúde, de 1986, a Reforma Sanitária e o Sistema Único de Saúde (SUS), cujos fundamentos permitem o enfrentamento da presente crise.

Assessorado tecnicamente, o ministro pôde atuar com desenvoltura, antevendo cenários, mapeando recursos, antecipando decisões, informando a população quanto às medidas de prevenção individual e coletiva necessárias para que os impactos do coronavírus sejam minimizados. Ele se reuniu com representantes dos poderes Legislativo e Judiciário e dos órgãos de controle, em 17 de março, no STF, para desentravar procedimentos que precisarão ser adequados à situação de calamidade provocada pela pandemia. O ministério adotou também a estratégia de entrevistas coletivas on-line, atendendo ao preceito de isolamento social, ferramenta crucial nesse momento, para evitar a transmissão do vírus. Mandetta teve o seu trabalho reconhecido e elogiado pela mídia, causando ciumeira explícita no presidente.

Parece que a coletiva do dia 18 foi convocada para que o chefe do Executivo dissesse à população “olha, eu estou aqui”. Apesar do comportamento irresponsável no domingo, dia 15, fartamente noticiado e criticado, ele agiu como se não tivesse cometido o deslize, aliás, questionado pelos jornalistas, tergiversou sem assumir culpa alguma. O palco montado com a presença de quase uma dezena de ministros objetivou, também, tentar diluir a liderança de Mandetta. O uso de máscaras, a despeito do seu manejo inadequado, pretendia transmitir a ideia de que agora todos estariam cônscios de sua responsabilidade.

Mas o texto não combinou com os elementos da encenação. O ministro da Saúde poderia ter se abstido de justificar o uso das máscaras. O presidente, por sua vez, manteve o mantra da histeria coletiva e, valendo-se da audiência garantida, fez palanque para seus propósitos políticos e ataques à imprensa. Mais, tentou usurpar o trabalho do Ministério da Saúde, ao afirmar sem qualquer pejo “nosso time está ganhando de goleada. Então, vamos fazer justiça, vamos elogiar seu técnico, que se chama Jair Bolsonaro”. Sim, o time vai bem, apesar do técnico. Se fosse por ele, estaria derrotado, nada teria sido feito. Primeiro, afirmou que o coronavírus era uma fantasia. Depois, contrariando as recomendações das autoridades de saúde, estimulou a convocação da manifestação de seus apoiadores, em todo o País, e ainda se deu ao desfrute de ir cumprimentá-los. Não satisfeito, em um rasgo populista, disse que estará onde o povo está, na barca Rio-Niterói, no metrô paulistano ou no ônibus de Belo Horizonte. Novamente, na contramão de tudo o que se preconiza.

Mas a cereja do bolo foi quando o penúltimo jornalista pediu a Bolsonaro que avaliasse a atuação de Mandetta. Ele respondeu à segunda parte da pergunta, mas se esquivou da avaliação. Compreende-se, para uma personalidade mitômana, impossível render qualquer elogio que não seja para si próprio. O Ministro da Saúde, com o feeling e a inteligência política que o caracterizam, estabeleceu um recuo estratégico, deu espaço para que o presidente e seus colegas aparecessem, de modo a assegurar a atuação técnica do Ministério, imprescindível nesse momento. Mandou bem.

Que a irracionalidade presente em tantos setores da administração federal não atinja o da saúde, até o fim desta pandemia, para o corpo de especialistas e dirigentes do Ministério da Saúde concluir a missão que deles se espera.

Felpuda


As conversas vêm acontecendo muito, mas muito reservadamente mesmo, e dão conta de que suplente poderá receber convocação, assumir a titularidade do cargo e por lá ficar por tempo indeterminado. Como é óbvio, tem gente jurando que nunca ouviu nem sequer falar sobre o assunto. O motivo não seria nada ligado a possíveis atos de irregularidades, mas sim por problemas de ordem pessoal.