Artigos e Opinião

OPINIÃO

Juliane Penteado Santana: "A mulher e a Previdência Social"

Advogada Previdenciarista, professora e coordenadora do IBDP para o Centro-Oeste

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Muitos desafios a serem vencidos e a luta pelo direito social feminino - Estamos na semana da mulher. Muitos são os desafios encontrados por elas para ter seus direitos adquiridos, ainda hoje, mesmo depois de tanta luta pelo direito ao trabalho, direito de voto e até mesmo direito de escolhas na vida. Com o advento do direito do trabalho, as mulheres também passaram a ter direitos previdenciários, gerando benefícios.

No que diz respeito à mulher existem alguns pontos a serem levados em consideração. Comecemos então pela questão da desigualdade de gênero. A Organização Internacional do Trabalho- OIT de 1919 tratava de questões no campo da proteção a maternidade e instrumentos internacionais de proteção no campo previdenciário da mulher. Porém a discussão dos direitos da mulher no âmbito da previdência social deriva de dois tipos de diferenças básicas entre os sexos: as diferenças biológicas e as socioculturais.

A reprodução é o principal fator de diferença biológica que enseja cuidados necessários quanto á gestação, amamentação, cuidados médicos e exige mecanismos de proteção como: estabilidade no emprego durante a gravidez e no pós-natal; afastamento do trabalho no período perinatal; vencimentos parciais ou integrais garantidos durante o período de afastamento; ajudas de custo para as despesas de parto; serviços de saúde antes, durante e depois do parto etc.

Uma pesquisa recente do IBGE aponta que mulheres são as chefes em aproximadamente 30% das famílias brasileiras. A mesma pesquisa ainda aponta que as trabalhadoras com até quatro anos de estudo recebiam, por hora, em média, 80,8% do rendimento dos homens com esse nível de escolaridade, enquanto aquelas com 12 anos ou mais de estudo recebiam 61,6% do rendimento-hora masculino. Ou seja, há sim diferença no tratamento salarial para o trabalho da mulher. Além disso, 90% das mulheres brasileiras trabalham fora e ainda cuidam dos afazeres domésticos, que as mantêm ocupadas por mais 4,4 horas diárias.

A Previdência Social estabelece diferenças pontuais relacionadas à segurada. Em que pese a Constituição Brasileira ter igualado homens e mulheres perante a lei. Antes da reforma, para aposentadoria, a mulher tinha direito a 30 anos de contribuição, sem limite de idade, com redução de 5 anos para professoras. A idade de 60 anos de idade, com mínimo de 15 anos de contribuição.

A EC 103/2019, Reforma da Previdência, modificou a aposentadoria para homens e mulheres com idade mínima de 65 anos e 62 anos e carência de 15 anos de contribuição. O valor do benefício mínimo na PEC é de 60%, sendo que antes era de 85%. A análise revela que com essa reforma as mulheres estão em piores condições que os homens, pois recebem os valores mais baixos em situações menos privilegiadas. Nesse aspecto, se os salários são mais baixos que dos homens, a contribuição também cai, o que fará com que a renda de aposentadoria futura seja sempre menor que do homem, já que a média reflete 100% do período contributivo, nos termos da Nova Previdência.

Um dos benefícios devidos à mulher é o salário-maternidade pago a gestante (e, ainda, à mãe ou pai adotante), com duração, em regra, de 120 dias, podendo se estender a 180 dias em alguns casos.

Contudo, a maternidade está longe de ser tratada com o cuidado e a garantia protetiva descrita no texto constitucional. A mulher ainda encontra obstáculos no mercado de trabalho, especialmente em cargos em que há possibilidade de ascender, onde se nota que para muitas é preciso fazer uma escolha entre a carreira e os filhos. Isso só ocorre por conta da cultura social que não procura se ajustar para a melhor adequação dessa diferença biológica da mulher, demonstrando ainda aniquilação do princípio constitucional da igualdade material entre os sexos.

É fato que a igualdade de gênero ainda é uma questão a ser tratada com maior profundidade, seja através de normas legais, mas também com um trabalho de políticas públicas de maior integração das empresas para a ascensão de mulheres em altos cargos, assim como na cultura social em geral.

EDITORIAL

O comércio na nova "Guerra Fria"

O desempenho foi alcançado justamente em um período marcado por incertezas no comércio internacional, demonstrando que os produtos de MS são competitivos

11/07/2026 07h15

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Os acontecimentos desta semana ajudam a compreender que o comércio internacional deixou de ser apenas uma questão de competitividade e passou a refletir, cada vez mais, as disputas geopolíticas entre as grandes potências.

As reportagens publicadas pelo Correio do Estado mostram, sob diferentes perspectivas, como Mato Grosso do Sul está inserido nesse novo cenário e como decisões tomadas a milhares de quilômetros de distância produzem efeitos diretos sobre a economia estadual.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) revelam que a participação da China nas exportações sul-mato-grossenses voltou a crescer.

Ao mesmo tempo, mostram que, após um aumento das compras norte-americanas no primeiro trimestre, os embarques para os Estados Unidos perderam ritmo justamente depois do anúncio de um novo tarifaço pela administração de Donald Trump. 

Nesta edição, o Correio do Estado também revela que empresas de Mato Grosso do Sul participam ativamente das discussões sobre a legalidade e as justificativas das tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.

O debate ultrapassa as fronteiras do Direito Comercial. Trata-se de uma disputa que envolve diplomacia, influência econômica e posicionamento estratégico em um mundo cada vez mais dividido entre dois grandes polos de poder.

É justamente a leitura conjunta desses fatos que permite uma conclusão relevante. O tarifaço norte-americano não pode ser interpretado apenas como uma medida de proteção comercial.

Ele se encaixa em um contexto mais amplo de competição entre Estados Unidos e China, frequentemente tratado como uma nova “Guerra Fria”, desta vez travada menos por armamentos e mais por cadeias produtivas, tecnologia, investimentos e comércio exterior.

Nesse ambiente, o Brasil, assim como Mato Grosso do Sul, ocupa uma posição peculiar. À medida que os Estados Unidos elevam barreiras tarifárias, a China amplia sua presença como principal destino das exportações brasileiras.

Em vez de reduzir a capacidade de venda dos produtos nacionais, a crescente demanda chinesa acaba absorvendo boa parte dessa produção e mitigando os efeitos econômicos pretendidos pelas restrições impostas por Washington.

Os números ajudam a explicar esse movimento. Somente no mês passado, Mato Grosso do Sul exportou US$ 1,2 bilhão em mercadorias, estabelecendo um novo recorde para o Estado.

O desempenho foi alcançado justamente em um período marcado por incertezas no comércio internacional, demonstrando que os produtos sul-mato-grossenses continuam competitivos e encontram mercados dispostos a comprá-los.

Mato Grosso do Sul, felizmente, demonstra capacidade para enfrentar esse ambiente complexo. A força de sua produção agroindustrial continua abrindo portas em diferentes mercados e reduzindo a dependência de um único parceiro comercial.

Mais do que nunca, compreender o cenário internacional deixou de ser uma tarefa exclusiva dos diplomatas. Hoje, para quem produz e exporta, a geopolítica tornou-se tão importante quanto o próprio comércio.

ARTIGOS

Um apelo ao STF

O povo brasileiro em geral e toda a imprensa apresentam críticas e posições favoráveis ou contrárias, tratando o Supremo Tribunal Federal como se fosse um poder político, e não o guardião da Constituição Federal

10/07/2026 07h45

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De lá para cá, sempre mantive contato com todos eles – uma proximidade prazerosa que não ocorre atualmente porque, infelizmente, já não consigo mais viajar. Escrevi obras em coautoria com vários ministros e partilho cadeiras em diversas academias literárias e jurídicas com vários deles.

Somente com o ministro Moreira Alves, foram 32 livros que publicamos.

Gostaria, entretanto, de tratar de algo que os recentes editoriais e matérias jornalísticas têm criticado duramente, ou seja, o debate público entre os ministros da Suprema Corte.

Trata-se tanto de divergências sobre o Código de Ética, que uns ministros querem e outros não, quanto de ataques públicos entre colegas, prática proibida pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).

No momento em que tais divergências são levadas a público, fica demonstrado que esses embates estão afetando a política, a estabilidade institucional e a segurança jurídica.

Um exemplo disso é o que a mídia e os jornais comentaram sobre a recente entrevista do ministro Gilmar Mendes no programa “Roda Viva da TV Cultura”, que acabou gerando inúmeras especulações, a ponto de o povo brasileiro estar tomando partido nesta ou naquela linha de pensamento.

Sou inteiramente favorável que a Suprema Corte recupere o prestígio e a respeitabilidade que possuía no passado e, por isso, faço o apelo, como um velho advogado, para que os senhores ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) voltem a ter uma conduta semelhante àquela que conferiu à Instituição a grande respeitabilidade que possuía. As divergências devem ser internas e não é adequado que sejam levadas a público.

Ora, cultura e valores todos os ministros têm. Posso divergir – e tenho divergido – de várias decisões, mas os debates que estão ocorrendo deveriam se restringir estritamente ao plano jurídico, para não serem explorados pelos jornais como se representassem posições políticas de A, B ou C.

A proposta do ministro Edson Fachin de que se institua um código de ética é, a meu ver, de grande utilidade para todos os integrantes da Suprema Corte. Os ministros André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia também defendem a necessidade dessa normatização.

Creio que um código de ética seria de grande utilidade para todos os ministros, atuais e futuros, pois auxiliaria efetivamente os magistrados a se conduzirem perante a opinião pública.

Divergências conceituais e jurídicas devem continuar sendo apresentadas publicamente nas sessões de julgamento, mas os conflitos de comportamento e as discordâncias sobre a forma de agir deveriam, evidentemente, ser tratados de maneira reservada.

Mesmo que haja críticas mútuas a fazer, que estas ocorram nas sessões internas e administrativas, permitindo que o perfil do STF volte a emergir como o da instituição que, no passado, era a mais respeitada do Brasil.

A democracia não existe em função de palavras. Dizer “eu sou democrático”, “eu defendo a democracia” ou “sou contra a crítica àqueles que não querem a democracia” resume-se apenas a palavras. A democracia faz-se com ações, com exemplos. Dizia São Josemaria Escrivá que “frei exemplo é o melhor pregador”.

A melhor defesa da democracia é a estabilidade das instituições e a respeitabilidade que elas possuem perante o povo.

Não estou, evidentemente, pretendendo dar conselhos ou dizer aos ministros o que fazer, mas peço que reflitam, para que o STF volte a ser o que era no passado.

Afinal, hoje, o povo brasileiro em geral e toda a imprensa apresentam críticas e posições favoráveis ou contrárias, tratando o Supremo Tribunal Federal como se fosse um poder político, e não o guardião da Constituição Federal, que garante a segurança jurídica por ser um poder imparcial e acima de qualquer suspeita.

É exatamente por sempre ter defendido o STF, desde os meus bancos acadêmicos, que faço esse apelo. Os professores que tive e que pertenceram à Suprema Corte sempre me ensinaram a lutar por ela, pois a garantia dos direitos no País depende de seu tribunal máximo.

Se a Suprema Corte perde a respeitabilidade perante o povo, automaticamente a democracia corre risco.

Evidentemente, respeito os meus amigos da Suprema Corte tanto que em meus artigos e nas redes sociais, nunca falo mal de nenhum dos ministros. Posso criticar suas posições, mas nunca critico as pessoas ou a cultura de cada um deles.

A Excelsa Corte, contudo, precisa voltar a ser o que era no passado. Só assim teremos, realmente, a defesa do Estado Democrático de Direito e a salvaguarda da democracia.

É, pois, com esse propósito que venho, mais uma vez – respaldado pelos meus 91 anos de idade, 68 anos de advocacia e 62 anos de magistério universitário, com livros publicados em 21 países, além do privilégio de pertencer a 42 academias e somar 45 títulos acadêmicos –, demonstrar, sem nenhuma vaidade pessoal, que a minha vida sempre foi inteiramente dedicada ao Direito, razão pela qual dirijo este apelo ao STF em prol de um resgate institucional.

Esse resgate institucional, contudo, não depende de reformas estruturais ou de medidas judiciais complexas, mas sim de um esforço estritamente moral e de conduta.

O apelo que aqui se faz é um pedido prático para que se iniciem os debates institucionais, inclusive com a urgente adoção de um código de ética – como bem sugerido pelo ministro Edson Fachin –, de modo que as naturais e salutares divergências jurídicas – bem como os eventuais conflitos pessoais – permaneçam restritas ao ambiente reservado das sessões internas, preservando a imagem da Corte perante a opinião pública.

Dirijo, portanto, este clamor àqueles que são os guardiões máximos da justiça no Brasil para que conduzam o Supremo Tribunal Federal, o pretório excelso do nosso País, de volta ao patamar de respeito e admiração que possuía na época do ministro Moreira Alves.

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