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ENTREVISTA

Susana Vieira e seu eterno agora

A atriz celebra sua história e mergulha na densidade da aristocrata Emília de Éramos Seis

5 NOV 19 - 00h:00GERALDO BESSA/TV Press

Despachada, nada modesta e ciente de sua história, Susana Vieira é do tipo que pode ir da doçura à grosseria na mesma frase. Falar dos grandes feitos de sua carreira parece ser seu maior “hobby”, mas é o presente que mais instiga a atriz. Aos 77 anos, é com empolgação que Susana interpreta a ricaça amargurada Emília de “Éramos Seis”. “Minha personagem é o retrato cruel do papel de mãe. A filha tem distúrbios mentais e a Emília acaba escondendo a menina de tudo e todos. São cenas pesadas e que mexem muito com todos os envolvidos. Chegar a essa altura da minha carreira com um exercício de atuação desses é incrível”, valoriza.

Susana Vieira (Foto: Divulgação)

Natural de São Paulo, Susana atua incessantemente desde os anos 1960. A estreia como atriz de telenovelas foi em 1962, a convite do então diretor da TV Tupi Cassiano Gabus Mendes. Com passagens por emissoras como Excelsior e Record, foi na Globo que se consolidou como uma das maiores intérpretes de sua geração. Com mais de 50 anos de carreira, tem pelo menos uma grande personagem em cada uma das cinco décadas trabalhadas, tipos marcantes como a Cândida de “Escalada”, a Nice da primeira versão de “Anjo Mau”, a Branca de “Por Amor” e a heroína Maria do Carmo de “Senhora do Destino”. “Tenho muito orgulho e nenhuma modéstia sobre tudo o que já fiz na tevê. Sei que posso me superar como atriz a cada novo trabalho e foi isso que me fez chegar ao que sou hoje. Atores e atrizes são vaidosos e egocêntricos mesmo”, destaca, sem meias palavras.

P - Você é uma noveleira assumida e “Éramos Seis” é um dos grandes clássicos do gênero. Como encara fazer parte deste projeto?

R - É uma alegria enorme. A Globo não dá “ponto sem nó”. É uma emissora que sabe de fato o que está fazendo. Através de pesquisas com o público, viu que uma novela com essa riqueza emocional seria muito bem-vinda. É um texto já produzido por outras emissoras e que contou com um grande elenco em suas outras versões, só que chega em 2019 com uma abordagem mais feminista e de olho no mundo de hoje.

P - Você acha importante fazer esse tipo de atualização?

R - Sem dúvida. A história poderia correr o risco de soar mais antiga do que deveria se não trouxesse um olhar diferente em relação ao texto original. Mas uma coisa me impressiona muito no texto: ele não faz concessões para se adequar ao estilo dos folhetins de hoje. Não tem assassinatos misteriosos, ninguém quer roubar a fábrica de ninguém e nenhuma irmã gêmea chega no final da trama (risos). “Éramos Seis” fala com propriedade sobre relações humanas e é isso.

P - Sua personagem tem dificuldade em aceitar as limitações da própria filha, que apresenta distúrbios mentais. Acha que ela é mais uma grande vilã de sua carreira?

P - Ela não quer fazer mal a ninguém, mas posso dizer que é uma mulher má sim pelo modo como trata a Justina (Julia Stockler). Emília é fina, descendente de uma família tradicional, mas se fecha para o mundo depois de dar à luz essa filha com distúrbio mental. Ela não sabe como lidar com essa situação, tem vergonha de ter uma filha com essa condição e tranca a garota, a esconde da família e da sociedade por muitos anos. O pior de tudo é que esse tipo de atitude é mais comum do que se imagina.

P - Como assim?

P - Conheço duas pessoas, que são famosíssimas inclusive, que tiveram filhos com problemas mentais e nunca mostraram ao público. Acho que hoje em dia esses pais e mães fariam diferente. Embora ainda exista muito preconceito, as pessoas conseguem lidar melhor com as diferenças, escolas estão mais receptivas e preparadas.

P - A Emília aparece bastante em “Éramos Seis”. Estava preparada para esse volume de trabalho?

R - Não é nada que eu já não tenha experimentado antes. Quando surgiu o convite, o Silvio de Abreu veio falar comigo sobre o grande espaço que a Emília teria na trama. Ele queria saber se, mesmo com meus problemas de saúde, eu conseguiria dar conta do recado. É claro que minha resposta foi “sim”. Nunca tive medo de trabalhar e não é qualquer adversidade que vai tirar a grande paixão que tenho pelo meu ofício.

P - Há quatro anos que você recebeu diagnóstico de Leucemia Linfóide Crônica e se mantém em constante tratamento. Trabalhar é terapêutico para você?

R - Totalmente. Fico mal quando não tenho nenhum convite. É uma alegria quando me confiam personagens complexos como a Emília, onde posso mostrar tudo o que aprendi ao longo da carreira. É ótimo ver que os autores mudaram seu olhar sobre as atrizes maduras.

P - Em que sentido?

R - Acho que a gente passou por uma fase muito ruim de personagens para atrizes mais velhas. Os novelistas entenderam isso e souberam criar soluções práticas. Aguinaldo (Silva), por exemplo, envelheceu um pouco mais as protagonistas de suas tramas e as colocou na mão de atrizes em que realmente confia. Isso dá uma sobrevida para quem já passou dos 60 e que, com a ajuda de caracterização e muito talento, consegue ter essa versatilidade para interpretar mulheres de idades distintas. Os homens já fazem isso há muito tempo, Tarcísio (Meira) e Tony (Ramos) continuam galãs, por exemplo.

P - Do alto de seus 77 anos, o que a leva a aceitar um papel?

R - Manter meu contrato e garantir meu salário todo mês (gargalhadas). Acho maravilhoso chegar a essa altura da minha vida e ainda ser escalada para papéis que respeitam a minha história. A novela precisa de estrelas e eu estou disposta a trabalhar, isso gera bons encontros.

Susana Vieira (Foto: Divulgação)

Loura gelada

A recente reprise de “Por Amor” na faixa “Vale a Pena Ver de Novo” fez Susana Vieira reviver os tempos de glória de uma das grandes vilãs de sua carreira: a louríssima Branca Letícia. Além de acompanhar a reexibição da trama, a atriz se emocionou com o carinho do público, saudoso das frases e ensinamentos da petulante personagem. “Manoel Carlos é um autor de diálogos incríveis. Acho que também fiz meu trabalho direitinho e foi isso que fez a personagem entrar na história da teledramaturgia. Grande parte das novelas de hoje é apenas um “Oi, tudo bem?”. É só ação, não tem profundidade alguma e isso é triste”, opina.

Por conta da reprise, Susana acabou servindo de inspiração nas redes sociais e protagonizou diversos memes. Assídua em aplicativos como Facebook e Instagram, a veterana se divertiu com as homenagens. “Os jovens de hoje são muito perspicazes. Eles pegam coisas de personagens, entrevistas que dei no passado e até os namorados que tive para criarem essas brincadeiras. Eu adoro!”, conta.

Entre as maiores
Por conta de sucessos como “A Sucessora”, “Anjo Mau” e “Senhora do Destino”, Susana Vieira é uma das grandes atrizes de sua geração, repleta de personagens antológicas divididas em mais de cinco décadas de carreira. “Acho que soube me reinventar a cada novo ciclo da minha vida. Não ficar parada no tempo foi o grande segredo da minha trajetória. Claro que ser espontânea e ter talento ajudou muito. Mas tive amigas melhores que eu”, brinca.

Para a atriz, a intérprete mais completa e talentosa de sua geração foi Marília Pêra, que faleceu em 2015. “Ela iluminava qualquer estúdio. Nós éramos completamente diferentes, mas nos entendíamos muito bem. Para mim, foi a maior e melhor atriz que já tive a oportunidade de assistir”, conta Susana, que contracenou com Marília em produções como “Lua Cheia de Amor” e “Duas Caras”.

Instantâneas

# O nome de batismo de Susana Vieira é Sônia Maria Vieira Gonçalves. A atriz pegou o nome Susana “emprestado” da irmã

# Filha de um militar diplomata, a atriz passou boa parte de sua juventude morando em diversos países como Uruguai, Argentina e Inglaterra.

# Formada em Artes Cênicas pelo Teatro Municipal de São Paulo, Susana fazia parte do corpo de Baile da TV Tupi quando foi chamada para sua primeira novela.

# Ao longo da carreira, a atriz já trabalhou em novelas de outros países como México e Portugal.

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