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COLUNA CRÔNICA

Com texto fraco e estética antiga, "Topíssima" é feminista na medida para os conservadores

14 JUL 19 - 06h:00GERALDO BESSA/TV Press

O setor de teledramaturgia da Record passou por profundas modificações nos últimos anos. Os fracassos do período acabaram tirando profissionais de televisão da diretoria artística, que agora é comandada por pessoas ligadas a Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus, principal mantenedora da emissora. Atualmente, todos os projetos de séries e novelas passam pelo crivo de Cristiane Cardoso, filha de Macedo e famosa por seus livros e palestras sobre relacionamentos. Voltar às novelas contemporâneas com “Topíssima” foi ideia de Cardoso e está diretamente ligada ao seu trabalho fora da tevê. Afinal, a novela assinada pela experiente Cristianne Fridman é baseada em “Casamento Blindado”, livro escrito por Cardoso em 2012. A junção de duas mulheres em um projeto anunciado como “feminista” soaria progressista e ousado em qualquer emissora, mas é nítido que este tipo de produção não faz parte da identidade artística da Record. Mesmo protagonizada por boas personagens femininas, a novela reza pela cartilha do empoderamento de fachada, onde as mulheres detêm o sucesso e a determinação, mas parecem precisar da permissão ou cuidado de um homem.

Isso fica nítido já na protagonista da história, Sophia, de Camila Rodrigues. Moderna e dona de si, a personagem acabou se desenvolvendo na história a partir de um contexto romântico no melhor estilo “A Megera Domada”, de Shakespeare. Ela se apaixona pelo rústico Antônio, de Felipe Cunha, e sua vida passa a ser guiada por essa paixão. Em 2000, Walcyr Carrasco recorreu à mesma fonte para conceber “O Cravo e a Rosa” e, mesmo em uma novela de época, conseguiu dar mais força e verdade à Catarina, protagonista de Adriana Esteves. Outros pontos da história também traem a ideia “feminista” de Cardoso e Fridman. Caso da trama de aborto, totalmente enraizada nos desejos masculinos e na culpa religiosa, quando a ambiciosa Jandira revela estar grávida do golpista Vítor, personagens de Brenda Sabryna e Vítor Novello. Outro exemplo são os negócios do Grupo Alencar, que só parecem prosperar quando as decisões são tomadas por Paulo Roberto, de Floriano Peixoto.

Por fim, o anacronismo estético de “Topíssima” impressiona. A novela é muito parecida com qualquer produção das sete exibida pela Globo nos anos 1990. Com direção geral de Rudi Lagemann, as cenas não têm qualquer contraste em sua iluminação, exibindo uma imagem “chapada” e extremamente clara a ponto de “estourar” alguns pontos da tela. A direção também deixa a desejar na condução dos atores. Na pele da dondoca Lara, Cristiana Oliveira está sempre alguns tons acima do resto do elenco, enquanto mesmo com pouca maquiagem e exibindo seus fios grisalhos, Silvia Pfeifer não convence na pele da humilde Mariinha. Mesmo que com alguns pontos a ajustar, o retorno da Record aos temas contemporâneos parece ter agradado o público da emissora. Sem recorrer a grandes efeitos visuais ou versículos, a trama acabou por elevar a audiência na faixa das 19h para os tão esperados dois dígitos no Ibope. Com isso, é certo que outras tramas leves e totalmente sem identidade devem pipocar na programação em sequência.

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