Um documentário sobre humor, amizade, perdas e o peso de sobreviver ao próprio legado
O documentário Mel Brooks: The 99 Years Old Man! nasce menos como uma homenagem clássica e mais como um gesto de urgência. Não a urgência do mercado, mas a do tempo. Mel Brooks completa cem anos em 28 de junho de 2026, e sua trajetória atravessa praticamente toda a história do entretenimento moderno.
Do rádio à televisão, do cinema de estúdio à Broadway, da sátira política ao besteirol absoluto, Brooks não apenas acompanhou transformações culturais profundas como ajudou a provocá-las.
A decisão de registrar essa memória em vida parte de Judd Apatow, um dos nomes centrais da comédia norte-americana contemporânea. Apatow não se aproxima de Brooks como um biógrafo distante nem como um crítico do presente julgando o passado.
Ele se coloca como fã. Seu cinema e sua televisão foram moldados por uma ideia de liberdade criativa que Brooks ajudou a instaurar: a de que o humor pode ser grosseiro, político, autorreferente e profundamente humano ao mesmo tempo.
Mel Brooks costuma ser definido como o inventor do besteirol, mas essa etiqueta nunca deu conta de sua complexidade. Seu humor nasce do vaudeville, do humor judaico, da paródia consciente de gêneros clássicos e da sátira como ferramenta de enfrentamento.
Quando Brooks desmonta o faroeste, o terror ou o musical, ele não está apenas rindo do cinema, mas expondo as estruturas de poder, moral e exclusão que esses gêneros carregam. O riso, para ele, sempre foi uma forma de sobrevivência.
A série se divide em três episódios que não seguem uma cronologia rígida, mas um percurso emocional. O primeiro revisita sua formação, a experiência como soldado na Segunda Guerra Mundial e a entrada no humor televisivo.
O segundo mergulha no auge criativo, quando Brooks redefine a paródia no cinema e se consolida como uma figura incontornável de Hollywood. O terceiro é o mais delicado e, talvez, o mais poderoso. Ele fala de envelhecer, de perder amigos, de vaidade, arrependimentos e da estranheza de se tornar um monumento ainda em vida.
A recepção crítica foi majoritariamente entusiasmada justamente por essa recusa em suavizar o passado. O documentário não tenta “atualizar” Mel Brooks nem pedir desculpas por ele. Há piadas que não entram. Há contextos explicados. Mas nunca existe a sensação de censura retrospectiva.
Explorando Mel Brooks: A Memória de um Gênio da Comédia - DivulgaçãoO próprio Brooks comenta, com lucidez e ironia, o que hoje não faria mais e aquilo que jamais abriria mão. O filme confia na inteligência do espectador para lidar com o desconforto.
Um dos núcleos emocionais mais fortes da série está na relação entre Brooks e Carl Reiner. Os dois foram melhores amigos, parceiros criativos e quase uma entidade única por décadas.
A presença de Rob Reiner, filho de Carl, adiciona uma camada inesperada de emoção. Seus depoimentos foram exibidos poucas semanas após o assassinato de seu filho, uma dor que não é verbalizada diretamente, mas atravessa cada gesto, cada silêncio.
A decisão de Apatow de não editar essas falas para “contextualizar” o luto é essencial. Qualquer tentativa de ajuste quebraria a integridade do registro. O que se vê é um documentário que aceita a dor como parte da vida, sem moldura explicativa.
Isso dialoga profundamente com a própria condição de Mel Brooks, um homem que sobreviveu à maioria de seus contemporâneos e precisa conviver com essa solidão tardia.
Outro aspecto raro é a franqueza com que Brooks fala de sua vida pessoal. Ele se reconhece como um pai ausente, absorvido pelo trabalho e pelo ego criativo. Fala de seu casamento com Anne Bancroft com uma mistura de devoção e insegurança.
Ele a amava intensamente, mas admite o ciúme do talento e do reconhecimento dela. Essa honestidade desmonta a imagem do gênio confortável e revela um homem cheio de contradições, afetos desorganizados e vaidades nunca completamente resolvidas.
Mesmo com piadas datadas e referências que hoje soam politicamente incorretas, o documentário se impõe como um registro essencial. Não porque tenta absolver Mel Brooks, mas porque entende sua importância estrutural. Ele não apenas fez rir. Ele ensinou que o riso pode ser uma forma de enfrentamento do trauma, da opressão e do absurdo do poder.
No fim, Mel Brooks: The 99 Years Old Man! não é apenas o retrato de um comediante lendário, mas de um homem que se recusa a agir de acordo com a sua idade. Não por negação do tempo, mas por fidelidade a si mesmo. Rir, para Mel Brooks, nunca foi um gesto juvenil. Sempre foi um gesto de sobrevivência.