Quinta, 08 de Dezembro de 2016

CRÔNICA

Leia a crônica de Theresa Hilcar: "Escolhas"

29 NOV 2016Por 04h:30

Viu a pequena fresta logo cedo. Antes mesmo que seu corpo estivesse pronto para se levantar da cama. Feriado sabe como é bom ficar na cama mais um pouco. Pegou o celular e leu o recado no Messenger. 

Dormiu mais um pouco e, quando acordou, pensou que tinha sonhado. Depois do café, porque sem ele não dá pra pensar, olhou de novo a mensagem. Sim, era uma fresta. Pequena, tímida, mas ainda assim dava pra ver a possibilidade. 

A primeira depois de quase dez anos. A princípio quis responder como nos diálogos de filme americano: “Achei que nunca ira fazê-lo”. Mas pensou melhor e deixou pra lá. Esta história de comunicação virtual tem lhe causado alguns problemas ultimamente. Escreve uma coisa, a pessoa entende outra.

Como detesta terminar as frases com os indefectíveis risos (Kkkkkk), muitas vezes é mal interpretada. A tecnologia tem suas vantagens, mas também muitos prejuízos.

Resolveu responder de forma simples, direta e informal. Mas não tanto que pudesse parecer
íntima, ou muito à vontade. Passou o dia lendo, assistindo série policial – que adora – e foi
dormir cedo.

Mas percebeu que o fato, embora agradável e, a bem da verdade, surpreendente, não mudou sua rotina, nem ocupou espaço na sua cabeça, sempre com milhares e milhares de pensamentos. Será isto o que chamam de maturidade? pensou, adormecendo em seguida.

Ao acordar percebeu que a tal fresta - quem sabe, uma janela? - apareceu novamente. Não teve pressa de responder. Na ordem de prioridades, ou de hábitos, havia o café, a leitura e distraindo-se com uma ou outra coisa nem ouviu o telefone.

O que não é novidade. Há tempos desenvolveu certa ojeriza de atender telefone, companhia ou interfones em geral. É capaz de ficar tranquilamente ouvindo o som sem mover um músculo sequer.

 No princípio, quando esta mania de não atender os chamados começou, pensou que seria só uma fase. Só depois, muito depois, quando resolveu cortar o telefone fixo, é que percebeu que a coisa era pra valer. Simplesmente não consegue se concentrar com o aparelho no ouvido.

Qualquer conversa que passe de 30 segundos se torna, digamos, inútil, quase enfadonha. Deve ser por isto que quase não receba ligações.

A segunda chamada não só ouviu como se apressou para atender. Do outro lado alguém com voz firme confirmava: havia sim uma fresta. Mas a possibilidade, claro, precisava de um local.

Melhor se fosse algo diurno, um cinema, um café. Ficaria mais confortável. Mas não nenhuma delas era a opção. E precisava decidir, sob pena de parecer displicente ou, pior, mal educada.

Era preciso sair da zona de conforto, ouviu de um amigo. Mas conforto é uma palavra deliciosa, argumentou. Não se preocupar em sair, em se arrumar, nem fazer as unhas, deixar o cabelo embranquecendo até não poder mais, até alguém reclamar que ela está ficando desleixada demais. Não ter que se submeter às pequenas vaidades, é quase um luxo, argumentou.

Ao pegar o espelho de aumento para tirar uns fios da sobrancelha, viu o que há muito tempo desconfiava, mas não queria admitir: a pele flácida, as manchas, as rugas, o rosto envelhecido, igual a tantos da mesma idade.

Lembrou-se da amiga que certa vez disse: é bom que percamos a visão de perto com a idade. Assim não vemos o tempo passar. Mas ali estava aquele estúpido espelho lhe dizendo a verdade. A crua e mais pura verdade. Foi ao banheiro se olhar em outro.

A diferença era gritante. De longe tudo parecia bem. Mas de perto... De perto os fios brancos eram mais brancos e em maior número. A pálpebra já estava em rota de decomposição, o estrago do tempo era visível. Não dá, falou alto consigo mesma. Não saberia recomeçar, o que dizer, vestir, falar. Perdeu o jeito e a vontade.

Achou mais prudente enviar mensagem de texto dizendo: meu tempo é outro. Sinto muito, obrigada.

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