Domingo, 04 de Dezembro de 2016

Ciência

Implante pode ajudar a detectar e combater a metástase

16 OUT 2016Por GALILEU23h:00

Se a luta contra um câncer já é dura, a tarefa se torna ainda mais árdua quando o diagnóstico indica uma metástase. Ou seja, quando se constata que a doença se afastou do ponto inicial e já atingiu outros órgãos. Mas e se fosse possível detectar as células que causam metástase antes da formação de um novo tumor?

É esse o objetivo de um grupo de pesquisadores liderado por Lonnie D. Shea, da Universidade Michigan, nos EUA. Sua equipe desenvolveu um implante capaz de capturar células metastáticas antes que elas se instalem em um novo órgão. Associado a um exame de imagem extremamente sensível, o implante não só possibilitou o diagnóstico precoce como desacelerou a progressão da doença. O estudo, feito com animais, foi divulgado no fim de setembro na revista britânica “Cancer Research”.

Atualmente, as metástases costumam passar despercebidas até que a função de um ou mais órgãos seja afetada, o que diminui as chances de tratamento. A equipe defende que, ao identificar o problema antes que um órgão seja significativamente prejudicado, abre-se uma janela de oportunidade para a adoção de novas ações terapêuticas.

Para explicar como o implante funciona, é importante falar sobre nichos pré-metastáticos. Esses nichos foram descobertos em 2005, quando pesquisadores americanos mostraram que as células tumorais não saem de um órgão e simplesmente se estabelecem em outro – antes disso, o câncer libera “emissários” responsáveis por preparar o terreno para sua disseminação. Esses emissários promovem em outro órgão o surgimento de um microambiente, formado por vários tipos de célula, mais favorável à instalação e ao crescimento do novo tumor. Estudos recentes mostraram que células do sistema imune desempenham um papel importante nesse processo inicial, agindo como mediadoras da metástase.

Ao desenvolver o implante, a equipe buscou tirar vantagem dessa mediação do sistema imune na formação de nichos pré-metastáticos. O dispositivo funciona como uma isca, capaz de atrair células do sistema imune que, por sua vez, atraem as células tumorais circulantes.

No estudo, os cientistas instalaram o implante em ratos com câncer de mama. A partir daí, os implantes foram monitorados por meio de exames de imagem (ISOCT, sigla para inverse spectroscopic optical coherence tomography). A análise mostrou que, nos primeiros cinco dias, já era possível detectar células tumorais no implante, mas não encontrou nenhuma nos pulmões, no fígado ou no cérebro, que são os órgãos geralmente atingidos na metástase do câncer de mama. Ou seja: as células tumorais migraram primeiramente para “a isca”.

Quinze dias após a formação dos tumores, a equipe fez outra constatação importante. Os tumores formados no fígado e no cérebro dos ratos com implante eram 64% e 75% menores, respectivamente, do que aqueles encontrados nos animais sem implante. Isso sugere que, além de diagnosticar o problema, a nova técnica também ajuda a reduzir a velocidade com que ele avança.

Os tumores foram retirados antes que os sinais comuns de metástase se manifestassem, e a equipe também observou que a nova forma de monitoramento ampliava as chances de sobrevivência dos animais.

Biodegradável, o implante tem uma durabilidade de aproximadamente dois anos. Os pesquisadores também destacaram que, uma vez identificada a presença de células tumorais no dispositivo, seria possível retirá-lo para avaliar as características das células capturadas e, assim, descobrir qual seria o tratamento mais efetivo para cada caso.

De acordo com os pesquisadores, a proposta é versátil, com potencial para ser utilizada na detecção de metástases de vários tipos de câncer, além do de mama. Contudo, mais testes são necessários para comprovar sua eficiência em humanos. Ainda não há informações sobre ensaios clínicos (com pessoas) usando a nova tecnologia.

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