Terça, 21 de Novembro de 2017

GERAR UM BEBÊ

Americano transgênero conta
como foi ficar grávido e ter um filho

1 OUT 2017Por G104h:00

Parece a história de novela, só que na vida real: o trânsgenero americano Trystan Reese engravidou. Hoje, dois meses depois do parto, curte o filho biológico. Em entrevista ao G1, ele conta como foi a sua experiência de gerar um bebê.

A descoberta da gravidez na ficção se deu no capítulo desta sexta-feira (29). Depois de começar a trama como Ivana, a personagem de Carol Duarte se descobre, aos poucos, um homem transexual -- e, depois de alguma resistência da família, assume o nome de Ivan.

Já Trystan, que fez a transição para assumir sua identidade masculina quando ainda estava no ensino médio, parou de tomar testosterona por alguns meses para conseguir engravidar. Aos 34 anos, ele teve uma gravidez tranquila, queixando-se apenas das queimações no estômago.

“Foi um pouco estressante, porque ficar grávido é estressante para qualquer pessoa, há muitos hormônios pelo seu corpo que são realmente projetados para manter você e o bebê seguros. Então tentei prestar atenção nisso, para não me sentir tão estressado, cuidar bastante dos meus filhos, ser um bom parceiro e me assegurar de que a gravidez ia bem”, afirma.

Quando a barriga começou a aparecer, Trystan se sentia um pouco sem jeito de sair de casa. “Algumas vezes ficava um pouco nervoso em sair em público, porque mais perto do fim [da gravidez] parecia muito obviamente grávido, não só cheinho”, lembra.

Ele e o companheiro, Biff Chaplow, que já têm dois filhos adotados em 2011, decidiram então tornar pública a decisão de ter um filho biológico e chamaram a atenção da imprensa internacional.

Ao contrário das críticas violentas que recebem pela internet, Trystan afirma ter encontrado apoio no seu entorno -- diferentemente de Ivan, que enfrentou a resistência da mãe, Joyce (Maria Fernanda Cândido). Em um dos capítulos, Joyce disse ter vergonha do filho.

Carol Duarte contou ter feito laboratório, no qual os atores pesquisam sobre assuntos que vão viver, para interpretar Ivana/Ivan. “Ouvi muitas histórias de homens trans, e em cada um o corpo, a risada nervosa/envergonhada/constrangida/sincera/engraçada, os tempos, os silêncios e as pausas me contavam até mais que cada palavra", disse ela ao G1, em maio.

No caso do americano, os amigos dos seus filhos e os pais se mostraram bastante receptivos. “Eles foram muito solidários e ficaram muito felizes, pois sabem que somos pais muito amorosos, gentis e cuidadosos com os nossos filhos mais velhos. As pessoas apareciam aqui com presentes, flores, comida e coisas assim. Foi realmente maravilhoso”, afirma.

“Portland, no Oregon, onde vivemos, é um lugar muito aberto e as pessoas se preocupam mais se as crianças estão seguras, felizes, saudáveis, bem assistidas e amadas. E não se por acaso elas têm ou não pais que são um homem e uma mulher, ou uma família tradicional e heterossexual, isso é um pouco menos importante para nós aqui”, observa.

Nascimento

A equipe médica que acompanhou a gestação passou por treinamento para acompanhar o casal. Em 14 de julho, Leo nasceu saudável, com mais de 4 kg. “Tive o Leo em um hospital, com a presença de médicos, meu pai estava lá, minha sogra estava lá e, é claro, meu parceiro Biff estava lá. Todos foram muito prestativos e maravilhosos.”

O anúncio do nascimento foi feito no Facebook. “Pai grávido, nove meses, um bebê e uma família muito feliz”, dizia o post com as primeiras imagens do casal com Leo nos braços.

Desde então, Leo alegra a casa e parece encantar os irmãos em fotos e vídeos de cenas cotidianas que o casal disponibiliza nas redes sociais.

“Agora nós temos o Leo. Ele é um bebê realmente muito tranquilo e alegre, ele dorme muito bem e come muito bem. E nós o amamos muito.”

Transição

Trystan conta que decidiu iniciar sua transição ainda no ensino médio. “Eu dizia que era um homossexual em um corpo de mulher. Comecei a tomar testosterona e meu corpo começou a mudar. Emocionalmente foi muito difícil, mas em seis meses, eu era um homem”, diz, em vídeo postado no Facebook do casal e reproduzido pela rede americana CNN. Em "A Força do Querer", Ivan também passa a tomar remédios durante o processo.

Ele ressalta que nunca quis ter um corpo exatamente igual ao do parceiro e, por isso, não fez a cirurgia para redesignação do órgão sexual. “Nunca quis que o meu corpo não fosse um corpo de transexual. Estou bem sendo um homem que tem útero, que tem a capacidade de ter um bebê”, afirma.

Assim como aconteceu com Ivan, Trystan conta estar satisfeito com as modificações. “Acho que meu corpo é impressionante. Sinto que é um presente ter nascido com o corpo que tinha. Fiz as mudanças necessárias para que pudesse continuar vivendo nele, através de hormônios e de outras modificações."

Maternidade

Trystan afirma ainda que a aceitação da sua condição lhe permitiu encarar com naturalidade a gravidez. “Sou feminista. Penso que mulheres são impressionantes. Não acho ruim ser uma mulher. Só não aconteceu de ser [por fora] como eu era por dentro. Por isso, é ok entrar nesse sagrado mundo da maternidade. E isso não me faz sentir menos homem. Só sou um homem capaz de ter um bebê e decidi fazer isso”, declara no vídeo.

 

 

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