Quinta, 29 de Setembro de 2016

CORREIO RURAL

Controle biológico de pragas terá a adesão de produtores

Agressividade de fungos e insetos faz agricultura adotar esse sistema

19 SET 2016Por MAURÍCIO HUGO15h:00

Os produtores rurais de Mato Grosso do Sul já estariam conscientizados da necessidade de adoção do controle biológico de pragas, em função da exigência cada vez maior do uso de defensivos agrícolas e a consequente resistência que algumas pragas passam a ter desses mesmos agroquímicos, comprometendo a ação em favor da produção agrícola ou pecuária na região. 

Essa consciência do produtor foi constatada na opinião de uma das lideranças do agronegócio regional, o presidente da Fundação MS, Luis Alberto Moraes Novaes, ouvido pelo Correio Rural, durante a realização do Workshop sobre Controle Biológico de Pragas, realizado na semana passada em Campo Grande.

“Nós temos obtido sucesso nos nossos sistemas produtivos, conseguido bons índices de produtividade, bons resultados na rotação de culturas. Mas, ao mesmo tempo, nos assusta ver a agressividade das pragas atacando nossas lavouras. É uma concentração de poucas pragas, mas com uma agressividade preocupante. E, como consequência, também vemos a escalada crescente na utilização de defensivos químicos, e o número de aplicações aumentando, o que deixa claro que precisamos tomar atitudes”, analisou a liderança.

Explicou que uma das atitudes louváveis é o workshop que reunia institutos de pesquisa, produtores, governo do Estado e fundações, para debater o assunto, tão importante, e a busca por subsídios para a elaboração do Plano de Controle Biológico de MS, que teve sua minuta preparada no fim do evento.

O presidente da Fundação MS admitiu que a resistência de algumas pragas a princípios ativos de diversos agroquímicos, tornando-os ineficientes no combate às pragas, é algo muito preocupante. “Mas as causas desse fenômeno são diversas. E por isso precisamos falar e debater sobre diversas práticas que evitariam o problema. Precisamos falar de alternância de princípios ativos nos agroquímicos, precisamos falar da importância da rotação de culturas, precisamos falar do controle biológico”, salientou Luis Alberto Moraes Novaes.

Questionado como ele via a receptividade dos produtores rurais a essa prática, do controle biológico, ele garante que, “no momento em que vivemos, a tendência é cada vez maior de uma boa receptividade. Quando nós produtores vemos nossos sistemas produtivos sendo afrontados, como vêm sendo, a cada ano em uma situação diferente, exigindo mais e mais aplicações de defensivos, temos de buscar o apoio científico dentro de nossos sistemas produtivos. E o controle biológico é uma das formas de se chegar a isso”. E frisou, ainda, que esta é apenas uma forma de se chegar ao objetivo, lembrando que não é abandonando totalmente o controle químico, e sim utilizando todas as formas recomendadas e sempre buscando o apoio da ciência, das instituições de pesquisa. 

Uma coisa colabora com a outra, e o controle biológico vem para prestar essa complementação, permitindo inclusive a redução no volume de defensivos aplicados nas lavouras, o que garante, também, menos agressão ao meio ambiente e até alguma redução nos custos de produção das lavouras. “Podemos trabalhar de uma forma mais científica, e os produtores, certamente, diante das dificuldades que têm vivido nesses aspectos, estão abertos e apoiando”, complementou.

Outro aspecto salientado pelo representante dos produtores rurais foi os cuidados maiores que o controle biológico exigirá à medida que for aplicado. “Nós podemos ter redução nos custos, mas no contraponto os níveis de riscos serão maiores. Com o controle biológico, nós entramos com um risco maior, afinal, estamos tratando de organismos vivos, que dependem das condições do ambiente. Por isso, teremos de trabalhar com muita técnica, sabendo a hora certa de soltar esses inimigos naturais nas lavouras, a temperatura certa, a umidade correta, exigindo um acompanhamento técnico-científico. Isso precisa ser bem divulgado para os produtores, para que não ocorram problemas e depois se divulgue que o controle biológico não apresentou resultados”, salientou.

Por fim, ouvido sobre as chamadas biofábricas, que produzem em laboratório os inimigos naturais, e que hoje estão distantes de Mato Grosso do Sul (o maior número delas está em São Paulo e há algumas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul), Novaes disse que “esta é uma missão muito importante e vamos começar a trabalhar nisso, inclusive com a possibilidade que a própria Fundação MS possa agir nesse sentido, pois precisamos trazer essas condições para cá. Não acho que seja um investimento tão grande. Acredito que podemos, com o apoio do governo do Estado, de políticas públicas, de algum incentivo viabilizar isso”.    

CONTROLE NA SOJA

No workshop, o controle biológico foi abordado nas diversas culturas agrícolas e também na pecuária e florestas. Nesta edição, focaremos no trabalho desenvolvido pelos pesquisadores Gabriela Silva, Adeney de Freitas Bueno e Samuel Roggia, a primeira doutoranda em Entomologia, na Universidade Estadual de Londrina, e os outros dois pesquisadores em Entomologia, formados na mesma universidade.

Seguem as conclusões do trabalho que realizaram focado na “vespinha” Telenomus podisi, usada para o controle dos percevejos na soja.

A soja tem grande importância econômica, e entre os principais desafios para sua produção está o manejo de pragas, como o complexo de percevejos que atacam as vagens, sendo o percevejo-marrom (Euschitus heros) o mais encontrado. O controle desta praga é feito utilizando inseticidas químicos, porém, a pequena variedade de produtos disponíveis e a resistência da praga tem sido os grandes obstáculos. Uma alternativa, cada vez mais difundida, é o controle biológico, tática que deve ser utilizada dentro do Manejo Integrado de Pragas – MIP. 

Entre os inimigos naturais, a “vespinha” Telenomus podisi, um parasitoide de ovos, merece destaque por sua alta capacidade de parasitismo. Diversos estudos mostram que T. podisi apresenta alta longevidade e que suas fêmeas têm a capacidade de parasitar ovos por inúmeros dias. Esta espécie é encontrada em diferentes agroecossistemas e uma de suas principais características é a preferência por ovos de E. heros, além de grande capacidade de busca por estes ovos, que podem estar escondidos na planta e em locais de difícil cobertura pela aplicação tradicional de inseticidas. Assim, o parasitoide encontra os ovos do percevejo, oviposita dentro destes ovos, e após aproximadamente 14 dias, emergem os adultos que darão continuidade ao controle proporcionando um efeito duradouro, comparado ao controle químico convencional. 

Outra vantagem na utilização de parasitoides de ovos no MIP está no fato de o controle ser exercido sobre o ovo, antes de o dano ocorrer. Isso permite que, caso haja alguma falha de controle, outra medida de manejo possa ser adotada sem prejuízos na produção da lavoura. A utilização desse parasitoide ainda depende de pesquisas que estabeleçam todas as recomendações para a sua utilização (pacote tecnológico), estando em andamento investigações na Embrapa Soja, UEL e outras instituições parceiras que deverão viabilizar o seu uso.

Assim, acredita-se que em breve o Telenomus podisi poderá ser utilizado como alternativa de controle para Euschitus heros, mantendo a população do percevejo em níveis que não apresentem ricos de danos à cultura. 

Na próxima edição do Correio Rural, abordaremos outros temas e também entrevistas feitas com importantes pesquisadores, de diversos locais do País, que participaram do workshop de controle biológico.

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