Domingo, 19 de Novembro de 2017

ARTIGO

Viviane Vaz: "Cultura ou estupro?"

Psicanalista, missióloga, escritora

30 OUT 2017Por 02h:00

Representada por uma crença que livra o autor do estupro e transforma a vítima em réu de questionamentos sobre seu comportamento, o termo “cultura do estupro” foi definido no início dos anos 1970, nos Estados Unidos. Segundo o site da Marshall University Women’s Center, é caracterizado por um ambiente em que prevalece a violação, em que a violência sexual é normalizada e desculpada na mídia e na cultura popular. Por meio do uso da linguagem misógina (discurso de ódio, desprezo ou aversão à mulher), da coisificação da figura feminina, do glamour da violência sexual, e de uma sociedade que cultua o fetiche da satisfação sexual a ponto de ignorar os direitos e a segurança das mulheres. A maioria das mulheres e meninas limitam seu comportamento por causa da violação, com medo da violência. Homens, em geral, não. No contexto, vale incluir o triste fato de que meninas entre 7 e 12 anos sejam as maiores vítimas dessa cultura, com traumas imensuráveis e amplas consequências para a existência. As possíveis consequências para as vítimas da violência sexual são: sequelas físicas (marcas, dores, DST), dificuldades de ligação afetiva, dependência química, autoestima fragilizada, autoimagem distorcida, intenção de suicídio, condutas agressivas, doenças psiquiátricas, insônia ou sono perturbado e sentimento de culpa, medo, raiva, vergonha. O silêncio e a sentença social das vítimas como culpadas são alguns dos trágicos desdobramentos deste ciclo de medo, cujo legado é uma cultura de violação estabelecida. “A droga é algo que tem mais valor que uma mulher. A droga você cuida, se cai um restinho você vai lá e pega. A mulher não, é um lixo, um trapo rasgado, totalmente sem valor, como se não tivesse sentimento, totalmente impotente. Resumindo: é a coisa mais desprezível.” (Daniele*) 

Segundo o Datafolha (2016), 20,4 bilhões de mulheres sofreram assédio com palavras; 5,2 milhões sofreram assédio com toque físico em locais públicos; 2,2 milhões sofreram assédio sexual; 52% das mulheres se calam diante das violências sofridas; 11% fazem a denúncia; 13% falam para a família. O Brasil é o 5º no ranking mundial em homicídios de mulheres: 4,8 em cada 100 mil mulheres. (OMS)  
Para mudar esse quadro, sugerimos 10 atitudes para combater a cultura do estupro: evite o uso de falas que denigram a mulher; nunca atribua culpa à vítima; posicione-se diante de uma piada ofensiva ou de uma violação trivial; diante de um relato de violência, seja solidário; pense criticamente nas mensagens da mídia sobre mulheres, homens, relacionamentos e violência; seja respeitoso com o espaço físico dos outros, mesmo em situações casuais; estabeleça uma comunicação saudável com parceiros sexuais, baseada em respeito mútuo e consentimento plenos; respeite o tempo que cada um leva para definir o momento e a forma de sua iniciação sexual; proteja os direitos dos menores de 14 anos diante de qualquer ato libidinoso, visto que é considerado estupro de vulnerável; se você tem filhos, ensine-os a respeitar seu próprio corpo e o corpo do outro.

Organizações internacionais de direitos humanos acreditam que é possível erradicar a violência por meio de atitudes conscientes, por isso, é necessário difundir esse tipo de informação nas várias formas de mídia. Ainda é importante ressaltar as formas de proteção e denúncia de qualquer violência, seja ela verbal, moral, psicológica, física ou sexual, por intermédio do Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência), do Disque 100 e também do aplicativo “Proteja Brasil”, em que é possível fazer denúncias direto pelo aplicativo, localizar os órgãos de proteção nas principais capitais e ainda se informar sobre as diferentes violações.

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