Sábado, 29 de Abril de 2017

CRÔNICA

Theresa Hilcar: "A vida como ela é"

10 JAN 2017Por 04h:00

Praticamente vivo em um grande hospital. Há mais ou mesmos um mês, só saio para dormir ou quando sou obrigada a fazer alguma tarefa na rua. Às vezes vou contrariada, mas sei que é preciso tomar um ar fresco, ou deixar que o sol aqueça meu rosto e meu peito pelo menos uma vez a cada dois dias. Vivo, respiro, como e bebo dentro deste hospital. Conheço a maioria dos médicos pelo nome, sei de suas histórias, dos seus dramas e participo do sonho de cada um deles. Temos uma convivência quase íntima. Muitas vezes, choramos juntos, sentimos a mesma dor e, em algumas, ocasiões as mesmas alegrias. Não, não estou doente. Felizmente também não tenho ninguém internado. 

O hospital que frequento diariamente fica nos EUA, mais precisamente em Seattle, estado de Washington. É o famoso Seattle Grace, hospital-escola que tem um dos mais bens conceituados programas de residência em cirurgia da América, onde recém-formados de todos os cantos do mundo fazem residência durante cinco anos. Querem se tornar os melhores cirurgiões do mundo. E isto é apenas um dos motivos pelos quais eu passo boa parte do meu dia por lá, andando pelos corredores, entrando em salas de cirurgia, em UTIs e ainda tendo o privilégio de acompanhar todo tipo de procedimento cirúrgico. Virei adicta em medicina. Tivesse dezoito anos, talvez seguisse a carreira médica e salvasse vidas, em vez de apenas escrever sobre ela. A vida.

A mesma que agora se resume quase que exclusivamente a uma ficção. Sim, o hospital que frequento é o principal protagonista da série Grey’s Anatomy, criação fenomenal feita para a TV americana, com 13 temporadas (até agora) e que JÁ ganhou, merecidamente, diversos prêmios da crítica e do público. Não é por acaso que me viciei na série (embora deva confessar sou mesmo viciada em boas séries). Mas acompanhar Grey’s Anatomy não é apenas uma compulsão pela tela ou pela história. Não, é muito mais que isto. É uma experiência transformadora.

Embora tenha alguns amigos médicos, nunca soube (nem perguntei) detalhes deste complexo universo. Como é lidar com a vida e a morte todos os dias; decidir retirar um órgão, amputar um membro, escolher literalmente quem vive e quem morre, seja no centro cirúrgico ou num exíguo espaço de um pronto-socorro, porque algumas vezes preservar a vida pode ser ainda pior. Pode ser inviável, ou provisório. Mas, é claro, ninguém nem os personagens da série querem morrer. Por isto, eles suplicam, barganham, ficam ferozes por cada segundo de vida. Há quem desista. Quem não suporte mais viver no limite. Um drama cotidiano, literalmente.

Mas  cirurgiões, atendentes e residentes desafiando tudo e todos – a religião inclusive. Alguns até se acham Deus. Fazem plantões de 48 horas seguidas, cirurgias que duram 15 horas, comem o que tem pela frente, cochilam em camas estreitas, vivem se equilibrando entre a  vida pessoal, questões  existenciais e a missão de salvar pessoas. Posso afirmar que Grey’s Anatomy tem sido pra mim uma escola de vida. A cada episódio, aprendo um pouco sobre a ciência e o ser humano. Tenho aprendido que podemos mudar de ideia sempre que julgarmos necessário, que podemos (e devemos) pedir ajuda, que toda decisão tem consequência – e que é preciso ser responsável por ela –, que na maioria das vezes nossos instintos estão corretos, que nunca é demais pedir desculpas, dizer sinto muito, agradecer e perdoar. Porque podemos nos arrepender muito por não fazê-lo.

A série tem me ensinado todos os dias algo novo. Nem sempre triste, mas quase sempre difícil. Porque toda transformação é dolorosa. E a dor piora quando a gente resiste. Interna e externamente. Todos os dias vejo pacientes se despedindo de familiares, outros morrendo sozinhos. Famílias desesperadas, crianças lutadoras, idosos e jovens cheios de esperança. Vejo a angústia no rosto do médico que não conseguiu salvar seu paciente. A culpa de todos que ficam. Assisto a chegadas inesperadas, partidas improváveis. Eu vejo e sinto todo dia um pouco deste viver e vivo um pouco de tudo com cada um dos personagens. A série tem me ensinado. Inclusive a sair do lugar, mesmo sentindo medo. Porque a vida é um fio tênue e delicado. Melhor segurar firme.

 

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