Segunda, 23 de Outubro de 2017

OPINIÃO

Ruben Figueró: "Extraordinário! ... Quarenta anos se passaram!"

3 OUT 2017Por 01h:00

Cavuquei os meandros da memória e lá escondidinha localizei: foi por volta do início do ano de 1947, quando se processava a campanha eleitoral para a eleição do primeiro governador do Estado de Mato Grosso após a queda do Estado Novo do ditador Getúlio Vargas, seguida da elaboração da Constituição Federal de 16 de setembro de 1946.

Disputava o governo do Estado, pelo PSD o Dr. Arnaldo Estevão de Figueiredo, residente em Campo Grande e filho de Rosário Oeste, no norte do Estado; seu principal opositor foi o Dr. Dolor Ferreira de Andrade pela UDN, paulista também radicado na Cidade Morena há muitos anos, tal qual o Dr. Arnaldo respeitados cidadãos de renome em todo o território mato-grossense. Entre eles apenas um detalhe significativo.

O Dr. Arnaldo era tido como ligado à estrutura administrativa nortista – embora se provasse anos mais tarde ser inverdade pela expressiva presença na campanha pela divisão do Estado; o Dr. Dolor, sem que a impressão fosse clara, carregava a imagem daqueles que almejavam a acalentada independência do Sul, exaltada em vários episódios cívicos, como a eclosão do Mato Grosso do Sul decorrente da Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, ambos de existência efêmera.

No auge daquela disputa eleitoral, eu ainda adolescente fiquei atento a uma tertúlia protagonizada entre meu pai Orcirio Thiago de Oliveira, o Gury Marques, e meu tio Martinho Marques, ambos divisionistas ferrenhos e, portanto, eleitores do Dr. Dolor. Empolguei-me pela ideia, face as suas razões fundamentais: a pujança econômica do Sul, titular da maior geração de recursos fiscais sem um retorno condizente pela quase absoluta concentração deles no Norte do Estado, o qual tinha o controle político e administrativo absoluto desde a origem – do Império e da República. Daquela eleição, o vencedor foi o Dr. Arnaldo e os ânimos separatistas se acirraram.

Daí transcorreram pelo menos vinte anos com vários episódios, mantendo vivo o propósito da criação de um novo estado na região sul. Quando estudante universitário, um dos campos de lutas entre sulistas e nortistas desenrolava-se entre os jovens da terra que estudavam na então Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro. E a disputa era pelo comando da AME – Associação Mato-grossense dos Estudantes, desde sua criação dominada pelos nortistas até que no ano de 1953 em acirradíssima disputa foi destronada a hegemonia “Cuiabana” com a minha eleição para a presidência – e a questão da divisão pegou fogo...
Em 1958, já formado advogado, acompanhei aqui em Campo Grande o movimento comandado desde o Rio de Janeiro pelo Dr. Paulo Coelho Machado, à época lá radicado, denominado “DIVIDIR PARA MULTIPLICAR”, cuja coordenação era dos advogados Eduardo Machado Metello, Paulo Jorge Simões Côrrea, Nelson Benedito Neto, sustentado por uma plêiade de idealistas de real prestígio na comunidade sulista.

DIVIDIR PARA MULTIPLICAR ia ganhando espaço até que na campanha para a Presidência da República, o candidato preferencial, sobretudo por ser filho de Campo Grande, Jânio Quadros, por aqui passando em campanha jogou água fria em nossas cívicas intenções, manifestando-se contra o processo de Divisão. Tentativa momentânea, pois não arrefeceu o nosso ideal. A luta continuou intensificando-se nos debates ocorridos na Assembleia Legislativa em Cuiabá, com o desenrolar de episódios de certa dramaticidade, em alguns dos quais participei no decorrer de oito anos que exerci mandatos como representante sulista, isto a partir de 1971.

O movimento divisionista chegou ao palco das grandes decisões nacionais, Brasília já no curso do Regime Militar com a ascensão à Presidência da República o general Ernesto Geisel percebeu a importância de redivisão territorial do País isto a partir do continental território mato-grossense. Pesou muito no convencimento do presidente Geisel a doutrina exposta no livro “Geopolítica do Brasil”, de autoria do general Goubery do Couto e Silva, seu chefe da Casa Civil. A decisão do presidente Geisel ocorreu solenemente em 11 de outubro de 1977, com a sanção da Lei Complementar n. 31. Eufórico, fui um dos presentes no histórico Ato, após o qual recebi da Presidência a caneta “BIC” com que Ernesto Geisel assinou a Lei. Após muitos anos a doei ao Instituto Histórico de Mato Grosso do Sul, seu merecido e honroso repouso.

Os tempos têm transcorrido céleres e já se foram quarenta anos. Dos que lutaram pela criação do Mato Grosso do Sul, muitos já são de saudosa memória, os que ainda permanecem se sentem orgulhosos com o ideal cumprido, com a pujança social, econômica e política do Estado (apesar de...) e a serena convicção de que somos todos, acima de regiões, uma só nação – o Brasil !!

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