Sábado, 01 de Outubro de 2016

ARTIGO

Ruben Figueiró: "Arca de Noé"

Ex-senador da República

21 SET 2016Por 02h:00

Não sei exatamente de quantas, creio que tenha participado em torno de 50 eleições. Dentre elas, seis como candidato – relembro todas exitosas. Ainda muito jovem exerci o direito cívico do voto no pleito de janeiro de 1947, quando depositei-o em Dolor Ferreira de Andrade e José Fragelli, respectivamente para governador do estado e deputado estadual constituinte de nosso sempre lembrado Mato Grosso uno. Na mais recente, já octogenário, fui às urnas votar em Aécio Neves, presidente da República e Reinaldo Azambuja, governador do Estado. Espero em Deus possa voltar às urnas a dois de outubro próximo, às vésperas de meus 85 anos completos. Pela minha origem, não há necessidade de declinar meu voto. O será com a consciência cívica do cumprimento de um dever, mesmo dele dispensado pelo ônus da senectude. Pela minha cidade adotiva, Campo Grande, estarei presente.

Porém, confesso: sou um cético, decepcionado com a legislação eleitoral e partidária existente. Velhas como a Sé de Braga, mutiladas de remendos, desatualizadas e como tal impeditiva ao exercício democrático do voto e da prática sincera da militância partidária. Com elas o eleitor vai à sua secção eleitoral, mais das vezes pela obrigatoriedade legal - sempre fui favorável à implantação do voto facultativo, por entender que ele atende um desejo íntimo de cidadania. Muitos comparecem sem saber em quem votar, aí a abstenção, o voto nulo, o voto em branco ou o voto de favor para atender à uma referência amiga ou para um objetivo inconfessável. E por aí, vai.

A imprensa tem divulgado notícias de que após as eleições de outubro ocorrerão tentativas por uma nova legislação eleitoral e de reestruturação da lei orgânica dos partidos políticos. Os parlamentares que assim desejam, sempre bem intencionados, levarão um novo tombo. O terreno no Congresso Nacional sobretudo no da Câmara dos Deputados é escorregadio, há sabão esparramado por todos os seus salões e, claro o do Plenário! Neste estarão os “vigilantes de uma cartilha” que dela jamais largarão porque de vantagens mil, com baldes d’agua saboneira esparramando-a no recinto. Serão os militantes dos partidos nanicos com feição não dogmática para prostrar as ações de todos quanto advogam a “cláusula de barreira” os exemplos que vem do passado estão à luz solar, eu mesmo fui testemunha presencial durante os 22 anos de minha presença como  parlamentar.

Evidente não seria apenas a implantação da cláusula de barreira que permitiria a militância de partidos com estrutura ideológica e programática, prevêem que seriam ao redor de seis capazes de englobar as tendências políticas que enfecham o quadro do pensamento político do povo brasileiro. Na pretensa reforma pensa-se também na extinção das coligações entre partidos, contubérnio desagregador da unidade partidária, rendosa ação entre amigos... articula-se a implantação do voto distrital. Este sim identificador da vontade legítima do eleitor. 

Como seria benéfico ao país se tais reformas acontecessem. Não será fácil chegar a ela. Na contingência atual da política em nosso país,  há nuvens negras de interesses a impedi-la, via congressual. A tentativa mais viável seria por ato de coragem cívica do presidente da República. No sistema presidencialista de mando quase que autocrático do chefe do executivo, pela força imanente que dele parte poderia assumir a missão de colocar “cambão” no pescoço da maioria parlamentar e fazê-la votar uma proposta de reforma política. O presidente se disporia a tanto? Os ex presidentes Sarney, Color, FHC, Lula e Dilma rosnaram nesse sentido. Apenas rosnaram.

Enfim, os brasileiros irão às urnas a 2 de outubro. Há uma autêntica  arca de Noé contendo candidatos – só aqui em nossa Cidade Morena, são 15 candidatos a prefeito; ao redor de sete centenas à Câmara Municipal, entre ótimos, bons, regulares medíocres e até folclóricos. Que ventos saudáveis soprem sobre nossa Campo Grande, afastem-na da urucubaca que tanto tem prejudicado a administração municipal; que o eleitorado não seja pessimista a ponto de aceitar a desesperança daquele francês decepcionado que dizia: tout, c’est la même chose!

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