Sábado, 18 de Novembro de 2017

Crônica

Leia crônica de Theresa Hilcar:
Quebra de confiança

24 OUT 2017Por Thereza Hilcar10h:44

Ninguém comentava nada no colégio. Poucas pessoas sabiam que o que o mestre fazia em nossa sala ao final das suas aulas de história. Um dia três colegas me contaram, mas pediram segredo. Não queriam que a notícia se espalhasse e pudesse chegar aos ouvidos dos pais. Eram meninas de famílias tradicionais da cidade. Daí o medo do escândalo – e a vergonha – eram maiores que o medo do professor. Junte a isto o fato de que, aos 12 anos de idade, por alguma razão, a gente acredita que a culpa é sempre nossa. Às vezes até mais velhas. Então o jeito era jogar tudo para debaixo do tapete. Mesmo pressentindo que aquilo iria continuar. Na sala de aula, a cabeça girava em perguntas: Quem será a próxima? Quem senta na frente, ou quem fica na última fila? Seria a menina do canto, sempre quieta, ou aquela que conversa a aula inteira? Mesmo sem identificar o critério, no fundo eu sabia que ele me escolheria.

O receio era proporcional ao desapontamento. A desilusão igual ao pavor de ser a próxima vítima. Difícil aceitar que o professor, nosso Sidney Potier do filme “Ao mestre com carinho”, sucesso na época, era o mesmo homem que agora nos deixava em pânico. Difícil entender que o mestre que ensinava a História do Brasil de um jeito tão encantador tinha duas faces. Patrício não era um ator de Holywood, mas assim que chegou à cidade ganhou uma legião de fás. Sua mulher, professora de Moral e Cívica, uma loura de dentes grandes e ligeiramente pronunciados, era doce e meiga. Como não tinham filhos, dedicavam o tempo aos alunos e ao colégio.

Nunca, nem nos nossos piores pesadelos, poderíamos imaginar que se tornaria o inimigo. Alguém que deveríamos, se possível, evitar. Passou de mestre para algoz. Depois de algumas confissões – ainda sigilosas – resolvemos conversar juntas sobre o assunto durante o recreio. Cada dia era um novo detalhe, uma descoberta. Foi assim que soube do método: toda sexta-feira quando sua aula encerrava o dia e o colégio ficava vazio, ele contava a mesma história. Assim que os alunos começavam a sair de sala, sempre mandava alguém ficar, com a desculpa do dever de casa mal feito ou outra coisa qualquer sobre a matéria. Depois trancava a porta e virava o monstro. Ele não falava nada. Elas choravam baixinho, enquanto suas saias eram amarfanhadas e as brancas camisas do uniforme desabotoadas.

Eu tremia só em pensar que minha vez chegaria. Seguindo o padrão, numa sexta-feira ele dispensou a turma e pediu que eu ficasse. Tentei argumentar mas ele foi ríspido e curto. Fica. Meu coração disparou, minha boca ficou seca e eu senti um pavor tão grande que a única chance que encontrei foi gritar por socorro. E num gesto quase instantâneo consegui pegar a chave em cima da mesa, abri a porta e sai correndo pelos corredores. Mas ainda podia ouvir sua voz forte e ríspida gritando: se não voltar agora vou lhe dar zero na prova. Mas isto não me impediu de continuar correndo pelo prédio vazio até alcançar o portão da saída.

Minhas amigas estavam lá fora à minha espera e em pânico. E agora? A minha coragem havia comprometido o segredo de todas. Mas não havia volta. Minha mãe, à época desquitada e sempre corajosa, apoiou minha decisão. No dia seguinte enfrentei o mal estar na sala do diretor que me olhou com olhos incomodados, como quem sabe perfeitamente do tumulto que o assunto causaria no colégio. Mais tarde foi o olhar surpreso e desconsolado da esposa. Não me lembro bem da conversa, só dos gestos cuidadosos da minha mãe, da conversa emocionada e de uma frase: “Eu nunca poderia imaginar”. Depois veio a demissão, a mudança da cidade e ninguém mais tocou no assunto. Eles eram meus vizinhos de rua. E aquela casa, vazia, ficou assombrada por um bom tempo. #metoo

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