Domingo, 23 de Julho de 2017

CENAS

Paulo Cesar Duarte Paes: "Mulheres negras revivem Tia Eva"

16 MAR 2017Por 03h:30

No dia 24 de setembro de 1993, o Correio do Estado publicava a seguinte matéria: “Teatro conta a história de Tia Eva: será amanhã à noite na comunidade São Benedito, com o Grupo Afroeva, formado por negros da comunidade”. 

A peça contava a história de uma mulher, negra, que venceu todas as adversidades dos tempos finais da escravidão, tornando-se um ícone poético e ético da resistência de um povo. Sua vida é prova de superação e antecipa aspectos da liberdade que somente muito depois seriam consolidados na história. 

Ela fundou, sem uso da força, uma comunidade negra em uma  sociedade machista e racista, ficando em pé de igualdade com o outro fundador da cidade: José Antônio Pereira.

A peça contava a história dessa mulher que liderou sua família e comunidade em busca de melhores condições de vida, numa difícil viagem desde Goiás até a região onde hoje está Campo Grande. 

Na longa jornada, foi acometida pela erisipela e fez uma promessa: se fosse curada, construiria uma igreja quando chegasse ao destino. Assim foi feito, e seus ancestrais até hoje realizam suas orações e festejos ao redor a Igreja de São Benedito.

O roteiro do espetáculo foi criado coletivamente em oficinas teatrais inspiradas em Augusto Boal e J. L. Moreno. Dinâmicas de relaxamento e de expressão corporal, realizadas coletivamente junto aos grupos comunitários, antecediam a representação das lembranças coletivas de Tia Eva.

Todos os atores eram da comunidade e o espetáculo, depois de muitas apresentações, ganhou o prêmio de melhor roteiro na Mostra Sul-Mato-Grossense de Teatro, que aconteceu em  Costa Rica, em 1994.

Quase todas as adolescentes que atuavam no espetáculo trabalhavam diariamente como empregadas domésticas – algumas ainda estudavam à noite. Os ensaios eram aos sábados e domingos e, em épocas de apresentação, estendiam-se durante dias inteiros. Essas meninas se apropriaram da garra e força herdadas de Tia Eva: trabalharam, estudaram, fizeram cursos de graduação e até mestrado e doutorado. 

Hoje, são exemplos de mulheres negras que continuam travando uma luta contra o preconceito e a falta de condições que se impõe para uma grande parte da sociedade.

A liberdade dada pela Lei Áurea ao povo negro, em muitos aspectos, foi uma perversidade. Jogando no total abandono milhões de pessoas que passaram a vagar sem qualquer forma de apoio social ou condições de sobrevivência econômica.

Tia Eva percebeu que não teria como concorrer com os brancos e seguiu para o oeste em busca de uma terra onde pudessem plantar e sobreviver com dignidade e paz. A vitória de sua travessia se corporifica hoje nessas mulheres negras, que souberam, ainda num Brasil racista e intolerante, ser exemplo de luta e resistência.

O texto interpretado pelas meninas, no espetáculo “Afroeva”, representa essa ancestralidade profunda e viva na memória de um povo. 

Os cenários, os cantos, a poesia, suas dores, amores e seu grito de força exalado nos palcos de Mato Grosso do Sul são papéis reais revividos no presente. Mulheres negras que na vida ou na arte seguem criativamente o exemplo lúcido e amoroso de Tia Eva.

*Professor de Artes da UFMS

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