Quinta, 19 de Outubro de 2017

Artigo

Paulo Cabral: Nem tudo está perdido

Paulo Cabral é sociólogo e professor

2 OUT 2017Por 01h:00

Conversando com um conhecido, “cabo” eleitoral das antigas, de uma pequena cidade, falou-me que começara a sondar o pessoal e antevia alguma dificuldade para o ano que vem, porque nas  eleições passadas, o custo médio para a compra de um voto a vereador teria sido R$ 250,00 e em 2018, considerada a inflação e a cobiça desses “eleitores”, o valor saltaria, no mínimo,  para R$ 300,00,  cifra muito alta, frente aos votos necessários para se fazer um deputado estadual ou federal.

Provoquei-o, “mas essa gente está habituada a vender o voto, se não tiver quem pague o que esperam, acabarão vendendo por qualquer preço”. Ele redarguiu: não é bem assim, hoje, nem se tem a certeza de que, mesmo recebendo antecipadamente, eles votem no candidato. Pelo que se gasta e pelo que se consegue, dá para saber que muitos não honram o compromisso. Não existe mais aquela confiança de outrora, quando voto comprado era voto apurado. Pensei, “ainda bem que essa coisa começa a mudar”.

Esse diálogo remete a uma questão central, sempre presente na política brasileira: a extraordinária força do poder econômico determinando o resultado de pleitos eleitorais. No Império, ela era explícita. Havia o critério econômico que estabelecia um piso de renda para que o homem, só ele, pudesse votar, contudo, sem poder se eleger, era o votante. A partir de um cabedal maior, podia votar e ser eleito. Na República, esse critério continuou a existir, mas de forma mascarada. Agora, não havia distinção de renda, porém, só os homens alfabetizados eram eleitores. À época, o analfabetismo girava ao redor de 90%, apenas os homens da elite  eram letrados. Assim, durante a República Velha (1889-1930) eles continuaram a mandar.

O processo de urbanização impulsionado na Era Vargas favoreceu a expansão do ensino fundamental, potencializando a massa de eleitores reforçada pelas mulheres, que conquistaram o direito de votar. No  interior, a arcaica figura do “coronel” permaneceu controlando tudo, mas nas cidades maiores o modelo já não podia ser aplicado. No período que vai de 1930 a 1946, por conta do Estado Novo, houve só a eleição de 1934, por isso, as mudanças aconteceriam depois.

Paralelamente, o advento do rádio incorpora um elemento novo ao processo eleitoral. Antes, o “líder” só podia se reportar ao eleitor por meio da mídia impressa ou participando pessoalmente de comícios. Agora, ele atinge, pelo rádio, uma população crescente, que sai do campo vindo se juntar à da cidade, dando origem a um novo fenômeno: o populismo. Nesse momento, a figura do “cabo” eleitoral ganha relevo, é ele que, tendo acesso capilar a toda a uma rede de vizinhança, colegas ou clientes, irá agenciar votos para o seu candidato. As velhas práticas clientelistas, implantadas pelos coronéis, ganham uma roupagem urbana. 

Por meio dessa estratégia, a elite “educa” o povo e o induz a fazer de seu voto uma mercadoria. Afinal, se não houver quem compre, não há mercado. Ela rebaixa o eleitor que se vende à condição de sub-cidadão. Esse tráfico mantém-se vigoroso. Assiste-se, em pleno século XXI, ao  “abuso” do poder econômico, largamente denunciado a cada eleição. Já o “uso”, não era crime...

Investigações no bojo da Lava-Jato deixaram patente a promiscuidade entre poder econômico, corrupção e eleição. Não por acaso, a classe política rejeitou a suspensão do financiamento de campanhas por empresas. Foi necessária a intervenção do STF para que fosse proibido. Os que sempre usaram e abusaram do dinheiro para alcançar ou se perpetuar no poder, nesse novo cenário,  precisarão ter muita criatividade para manter o velho esquema, porém, como “o lobo perde o pelo mas não perde o vício”, eles tentarão encontrar saídas. 

As eleições de 2018, trazem esse complicador para a classe política. Como dizia meu interlocutor, “a grana será curta, vai ser difícil “trabalhar” para conseguir votos”. Quem sabe, agora, sem esse dinheiro espúrio, sejam varridas da política figuras que há muito  deveriam ter sido afastadas, permitindo a emergência de lideranças capazes de interpretar os valores republicanos e os anseios da cidadania. Sob esse prisma, nem tudo está perdido.

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