Sábado, 03 de Dezembro de 2016

CENAS

Oswaldo Barbosa de Almeida: "O aeroviário"

Advogado e escritor (coxim.oba@gmail.com)

13 OUT 2016Por 03h:30

Agostinho Jesus da Silva era seu nome, mas ninguém sabia disso, porque ele era conhecido e se apresentava como Oscar Schultz. Trabalhava como atendente na agência de uma companhia de aviação, emitindo bilhetes de passagens aéreas, conhecimentos de despachos de cargas, etc. 

Era falante e bem relacionado, atendendo a todos com presteza, simpatia e boa vontade. Ia pela casa dos cinquenta e poucos anos de idade e era casado com uma senhora bem mais velha que ele, correndo “à boca pequena” que a união fora “por interesse”, ou seja, a referida matrona recebera uma apreciável herança, o que o levara a apaixonar-se perdidamente por ela.

Quem via o casal se enternecia pelo modo amoroso como ele a tratava, cumulando-a de carinhos e agrados. Embora se propalasse que a madame era rica, levavam uma vida até certo ponto modesta: a casa onde moravam era tipicamente de classe média, possuíam um único automóvel, de modelo comum e com algum tempo de uso, e não ostentavam sinais exteriores de riqueza.

Dizia ele que, quando mais jovem, fora piloto da aviação comercial, numa empresa brasileira extinta havia muito tempo. Ao encerrar suas atividades, a companhia deixou-o desempregado, vivendo ele por algum tempo com a indenização que recebera, pois fora empregado estável da aludida empresa. No ambiente de trabalho ele prendia a atenção dos colegas narrando aventuras e histórias que dizia ter vivido como piloto comercial. Exibia muitas fotos em que aparecia, ora na cabine de comando de uma aeronave, ora no meio de outros tripulantes, etc. No verso das fotos ele escrevia os nomes dos que nelas figuravam; o dele era sempre grafado como “Comandante Oscar von Schultz”.

Quando se indagava a origem de seu nome, afirmava que era filho de alemães que fugiram do regime nazista da Alemanha pouco antes da II Guerra Mundial, tendo ele nascido no Brasil. Exibia, inclusive, uma cédula de identidade com seu nome alemão e filiação.

Certo dia surgiu na agência um visitante, que se apresentou como ex-aeroviário e cumprimentou Oscar, ou melhor, Agostinho como velho conhecido. Afirmou ele aos demais que era nascido em Campo Grande e havia trabalhado com Agostinho na extinta empresa, em São Paulo. Nesse momento Oscar, alegando a necessidade de atender a um compromisso urgente, pediu licença e saiu apressado. 

O visitante, então, disse de sua surpresa em encontrar ali o ex-colega e contou sua verdadeira história: ele nunca fora piloto de aeronave, mas simples atendente na agência e no aeroporto, em São Paulo, quando aproveitava para tirar fotos posando de comandante. Pior: ele fora demitido por ter aplicado golpe na empresa, fraudando a emissão de conhecimentos de cargas e embolsando muito dinheiro. Seu documento de identidade certamente era falso.

Agostinho não voltou ao trabalho naquele dia. Nem nos posteriores. O gerente da agência mandou alguém à casa dele para verificar o que acontecera, mas ela estava fechada e com placa de “vende-se” indicando uma imobiliária para negociação. 

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