Quinta, 08 de Dezembro de 2016

Opinião

Octavio Luiz Franco: Reavaliando a genética humana e as mutações fatais através do exoma

Octavio Luiz Franco é Coordenador do S-Inova Biotech, Professor do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia na UCDB

16 OUT 2016Por 02h:00

As doenças genéticas tem sido foco de milhares de estudos por todo o mundo sendo normalmente correlacionadas com mutações e falhas no DNA. Embora muitas destas falhas tenham sido correlacionadas com inúmeras doenças, uma severa e radical reavaliação tem sido feita afim de realmente confirmar a causa e efeito de tais mutações. Muitos exemplos têm sido observados neste sentido. Em 2010 a jovem Sonia Vallabh observou sua mãe definhar e falecer de uma misteriosa doença chamada insônia familiar fatal. 

Esta doença tem sido correlacionada com proteínas prionicas enoveladas incorretamente, causando a destruição sistêmica do cérebro.  No ano seguinte Sonia, com 26 anos, foi avaliada e descobriu, para sua infelicidade, que apresentava uma cópia do gene codificador da proteína prionica com uma mutação D178N, conhecida por PRNP, relacionada com o desenvolvimento da doença. Em suma a presença desta mutação poderia ser considerada uma sentença de morte uma vez que as pessoas afetadas por tal doença morrem até os 50 anos, com uma progressão da doença extremamente rápida.  Neste momento ela e seu marido largaram suas carreiras na área de advocacia e começaram uma graduação em biologia afim de melhor entender a doença. Uma vez que muitas correlações diretas de mutações e doenças não tem tido uma base solida, o exoma destes pacientes começou a ser estudado. O conceito de exoma tem sido considerado simplista e pode ser correlacionado com o sequenciamente de genes que apresentam proteínas codantes ou seja, de genes que produzem proteínas com funções bem definidas.  

Desta forma, muitas das mutações antes correlacionadas com as doenças tem sido descartadas por não estarem associadas diretamente a função da proteína produzida no corpo humano. Este fato mudou a maneira de estudar e fazer genética em todo o mundo. No caso de Vallabhs, significava que a mutação era muito mais comum do que a presença da doença prionica propriamente dita. Trocando em miúdos, a presença da mutação não podia ser correlacionada com a mudança de estrutura de proteína na maioria dos casos, o que reduzia enormemente a probabilidade de Sonia de desenvolver a doença. Neste sentido o geneticista Daniel MacArthur, extremamente frustrado com a falta de correlação das mutações e doenças criou o ExAC, um enorme consorcio para sequenciamento de exomas de pessoas com doenças genéticas.

Ao criar tal consorcio, MacCartur encontrou Sonia e observou que a mesma não apresentava um quadro clinico compatível a sua doença. Após sequenciar mais de 60.000 pacientes, Daniel observou que mesmo com a presença destas mutações, pouca correlação podia ser feita com tais doenças, sugerindo que grande parte dos estudos desenvolvidos neste campo nas últimas cinco décadas deveria ser reavaliado. 

Daniel observou também que a grande parte das mutações sugeridas a causarem doenças eram na verdade inócuas ou até benéficas para o paciente. Assim o exoma tem modificado a linha de pensamento da maior parte dos geneticistas em todo o mundo. No momento Sonia continua estudando pois embora ela ainda não tenha uma correlação clara das mutações e do quadro clinico, ainda poderá desenvolver a doença. Agora com 32 anos, mais do que nunca ela não tem tempo a perder. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.

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