Quinta, 23 de Novembro de 2017

OPINIÃO

"Câncer e anorexia podem ser inspirações para droga emagrecedora"

Octavio Luiz Franco é cordenador do S-Inova Biotech e professor do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da UCDB

28 SET 2017Por 01h:00

Milhares de pessoas em todo o mundo desejam perder peso e manter um corpo perfeito. Dietas e programas de exercício auxiliam a população, que se esforça em ser menos sedentária. Contudo grande parte da população mundial apresenta sobrepeso e, por consequência, as doenças associadas a essa condição. Por outro lado, existe uma classe de pessoas em condições delicadas que não só perde peso com extrema facilidade, mas luta diariamente para mantê-lo. 

Anualmente, inúmeras pessoas acometidas por tumores sofrem grave perda de apetite em uma condição terrível conhecida como anorexia. A anorexia normalmente pode ser associada a cânceres de estágio tardio, levando a uma agressiva perda de massa corporal. Pesquisadores associados a três grandes empresas farmacêuticas publicaram de maneira independente artigos mostrando que o grande culpado da perda de apetite consiste em uma proteína conhecida como fator de diferenciação de crescimento 15 ou GDF15 (do inglês, “growth differentiation factor 15”). Após a descoberta, essa proteína foi testada em roedores e macacos, demonstrando sua apta capacidade de gerar perda de peso sem, entretanto, causar efeitos colaterais. 

Atualmente, existem cinco medicamentos antiobesidade aprovados pelo FDA (Food Drug Administration) americano para o gerenciamento de peso em longo prazo. Esses fármacos podem levar à perda de 5% a 8% do peso corporal em média, o que consiste em medicamentos extremamente limitados. O potencial de GDF15 como agente de perda de peso foi proposto inicialmente pelo pesquisador australiano Samuel Breit. Ele e seu grupo observaram que, durante a anorexia causada por tumores, os níveis de GDF15 aumentavam de 10 a 100 vezes mais do que em camundongos normais. 

Para descobrir o alvo primário da GDF15, pesquisadores dinamarqueses selecionaram, entre as milhares de proteínas em membranas de células humanas, um único receptor para o GDF15 nomeado GFRAL. Esse receptor foi então mapeado no corpo de roedores e encontrado em duas regiões cerebrais. A primeira em uma área conhecida como o centro indutor de vômitos e uma segunda região envolvida na regulação do apetite. Em ambos os casos, esses são fortes indicativos de que o GDF15 controla o apetite, agindo em áreas cerebrais notoriamente relacionadas à redução da alimentação. 

A fim de comprovar que GDF15 precisava se conectar a GFRAL para reduzir a perda de peso, ratos geneticamente modificados foram criados com o propósito de não produzir o receptor. Em experimentos com ratos comuns alimentados com uma dieta rica em gordura, observou-se um claro aumento de peso. Por outro lado aplicações de GDF15 reduziram a ingestão, fazendo com que os animais perdessem uma fração significativa de sua massa corporal. Finalmente os ratos sem o receptor GFRAL não conseguiram perder peso, mesmo quando tratados com GDF15, sinalizando para a necessidade do receptor. Vale ainda ressaltar que não foram detectados sinais de náusea.

Assim mais uma vez pode-se observar que, mesmo de uma situação terrível, como um câncer, é possível aprender e desenvolver compostos de enorme valia. A ciência está vigilante ao nosso lado, atuando sabiamente para solucionar os problemas de nossa sociedade.

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