Artigos e Opinião

ARTIGO

Neimar Machado de Souza: "Brad Pitt"

Professor na Faculdade Intercultural Indígena da Universidade Federal da Grande Dourados

Redação

04/08/2015 - 00h00
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Os fãs de história e dos filmes épicos, aqueles que contam histórias do arco da velha ainda atuais, lembram-se do ator hollywoodiano Brad Pitt, que encenou o papel de Aquiles, no filme “Troia” (2004). Aquiles, segundo a mitologia, foi o herói que trocou a vida longa pela glória da guerra. Ele também foi o modelo arquetípico dos meninos na Grécia antiga, pois a pedagogia grega, a paideia, foi estruturada a partir de sua imagem mítica.

Outra herança grega, que ainda resiste ao Eduardo Cunha (PMDB), é a democracia. Na cidade de Atenas, fundada pela tribo dos Aqueus, uma das principais instituições da democracia era a grande assembleia, chamada de bulé, que deliberava sobre os assuntos mais importantes da cidade, a pólis. Esta assembleia, remédio encontrado para combater a tirania, era frequentada somente por homens ligados ao comércio ou descendentes das famílias aristocratas mais importantes.

Atenas e Jerusalém foram o modelo que orientou as instituições e os preconceitos do ocidente, dizia meu professor de História. Foi preciso mais de dez anos de ensino e pesquisa para descobrir que o  professor e a sua cartilha estavam enganados. Explico. Descobri, recentemente, que o costume de reunir assembleia comunitária para discutir problemas, bolar soluções, encaminhar petições, beber vinho (de milho), continua ocorrendo em sociedades de tradição oral, exatamente como faziam as tribos dos Aqueus, Eólios e Jônios, reunidos na colina do Areópago.

Há poucos dias, entre 16 e 19 de julho, na cidade de Paranhos, MS, tive a oportunidade de participar, como observador, de uma destas assembleias. O nome, porém, foi traduzido na língua franca da fronteira, o idioma guarani. A transposição, após mais de dois mil e quinhentos anos, ficou assim: bulé virou aty guasu, e pólis transformou-se em tekohá. Estes guaranis e kaiowás são realmente inovadores, pois, como escreveu Bartomeu Melià, apontam para o futuro, sem esquecer de onde vieram e quem são.

Durante a reunião, a aty guasu, grande conselho do povo guarani e kaiowá, cantaram, rezaram, dançaram, chamaram os jovens, deram a palavra às mulheres, convidaram o prefeito, juiz, deputado federal, envolveram professores, acadêmicos indígenas e até elaboraram uma carta à nação brasileira.

Para entender o que estava vendo, precisei conversar com o jesuíta Antonio Ruiz de Montoya. O padre contou-me que ouviu o termo “aty” entre os guaranis da região do Rio Paraná, em 1639. Usavam esta palavra para dizer ajuntamento, amontoado. Fui entrevistar também o professor Antônio Brand, que me contou terem estas assembleias ressurgido na década de 70, a partir da aldeia de Porto Lindo, entre os municípios de Iguatemi e Japorã. Naquela época, tinham a finalidade de organizar as roças comunitárias segundo o sistema de mutirão, chamado por eles de potirõ. De lá para cá, não pararam mais. No entanto, após o assassinato de Marçal de Souza (1983), o tema da violência e do genocídio tomou conta da maior parte dos debates.

Voltando à assembleia, a dos guaranis, não a dos gregos, circulei dois dias entre os participantes. Observei que bebiam mate, tereré, conversavam, riam e reencontravam os parentes de outras aldeias. Meu objetivo, confesso, como professor de História, era encontrar Helena e Aquiles. Helena eu encontrei, descobri que mora na aldeia Limão Verde, em Amambai – MS. Aquiles eu não vi, mas desconfio que seja ele em uma fotografia, pois carregava na mão um instrumento antigo e sagrado de guerra, o maracá.

Editorial

Equilíbrio fiscal exige atenção no Estado

Os números apresentados no primeiro quadrimestre servem como aviso claro de que a boa gestão fiscal continua sendo condição indispensável para preservar investimentos

10/06/2026 07h15

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O relatório de gestão fiscal apresentado pelo governo de Mato Grosso do Sul neste primeiro quadrimestre merece atenção.

Nesta edição mostramos alguns dos principais números divulgados pela administração estadual, e eles indicam que a situação financeira do Estado, embora controlada, talvez precise ser melhor explicada à sociedade.

Os dados revelam um desequilíbrio importante entre receitas e despesas. Enquanto a arrecadação cresceu 7,65% em relação ao mesmo período do ano passado, as despesas avançaram 19,3%, quase três vezes mais.

Os números detalhados estão apresentados adiante nesta edição, mas o que chama a atenção desde já é a velocidade com que os gastos públicos aumentam em comparação à capacidade de arrecadação do Estado.

Parte desse crescimento é explicada pelo aumento das despesas com pessoal. Não por acaso, quando observados os parâmetros estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal, Mato Grosso do Sul já aparece acima do limite prudencial da folha de pagamento.

Esse dado, por si só, exige cautela. A legislação criou mecanismos justamente para evitar que o peso da máquina pública comprometa investimentos e reduza a capacidade do Estado de responder às demandas da população.

Quando a folha cresce em ritmo acelerado, o orçamento perde flexibilidade. Recursos que poderiam ser destinados à infraestrutura, saúde, educação ou segurança acabam consumidos por despesas permanentes.

É um problema que não surge de uma hora para outra, mas que precisa ser enfrentado antes de se transformar em uma crise mais grave.

A grande salvação para este ano certamente foi a adesão de Mato Grosso do Sul ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), iniciativa federal de renegociação das dívidas estaduais.

Ao aderir ao programa no ano passado e aceitar as condições impostas pela União, o governo estadual ganhou fôlego financeiro importante.

Na prática, a renegociação permite que parte significativa dos recursos que antes seriam destinados ao pagamento da dívida pública – especialmente juros e amortizações – permaneça no caixa estadual para outras despesas orçamentárias.

Sem esse alívio temporário, o cenário fiscal provavelmente seria ainda mais apertado.

Governar também significa fazer escolhas difíceis. Ajustar as contas públicas nem sempre rende popularidade, mas é essencial para garantir estabilidade financeira no médio e longo prazo.

Quando o equilíbrio fiscal se deteriora, quem mais sofre é justamente a população que depende dos serviços públicos na ponta.

Mato Grosso do Sul ainda tem indicadores econômicos relevantes e capacidade de reação. Porém, os números apresentados neste quadrimestre servem como aviso claro de que a boa gestão fiscal continua sendo condição indispensável para preservar investimentos, manter serviços essenciais e evitar problemas maiores no futuro.

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Artigo

Tratamentos oncológicos: proteção reforçada na Justiça

Nos planos de saúde, há forte proteção jurídica para tratamentos oncológicos, especialmente para quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapias-alvo e medicamentos antineoplásicos orais

09/06/2026 07h30

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No debate da judicialização da saúde, a oncologia ocupa lugar especial. O câncer é uma doença grave, muitas vezes progressiva, e o tempo pode ser decisivo. Em diversos casos, perder a chamada “janela terapêutica” significa perder a oportunidade de tratamento eficaz. Compreender como funcionam os sistemas público e privado de saúde nessa questão faz toda a diferença.

Nos planos de saúde, há forte proteção jurídica para tratamentos oncológicos, especialmente para quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, terapias-alvo e medicamentos antineoplásicos orais.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconhece que, embora medicamentos de uso domiciliar possam ser excluídos em regra, há exceções importantes, como os antineoplásicos orais, medicamentos correlacionados, medicação assistida em home care e produtos incluídos no rol da ANS.

Em termos simples, o que se entende é que um remédio contra câncer não pode ser negado apenas porque é tomado em casa, se a lei e a indicação médica apontam para sua cobertura.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a assistência oncológica também vem passando por mudanças. A Portaria GM/MS nº 8.477/2025 instituiu o componente da assistência farmacêutica em oncologia, o AF-Onco, voltado ao financiamento, aquisição, distribuição e dispensação de medicamentos oncológicos no SUS.

Essa evolução mostra que o Estado também busca organizar melhor o acesso a medicamentos contra o câncer, embora a incorporação de novas tecnologias continue sendo um processo técnico e gradual.

Para além dos direitos ligados à saúde para tratamentos oncológicos, há outras doenças graves e raras, cujos custos, ao encontrar a urgência, também desembarcam na Justiça.

Essas doenças raras representam um dos maiores desafios da saúde contemporânea. Muitas atingem crianças, têm evolução rápida e não contam com várias opções terapêuticas.

Em alguns casos, a terapia gênica pode ser a única alternativa capaz de modificar o curso da doença.

Um exemplo conhecido é o Zolgensma, utilizado em determinados casos de atrofia muscular espinhal. A Conitec noticiou acordo para viabilizar sua oferta no SUS por meio de compartilhamento de risco, modelo em que parte do pagamento fica condicionada ao resultado clínico do tratamento.

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Esse tipo de solução tende a ganhar espaço. Em vez de simplesmente negar ou conceder tratamentos milionários, o sistema passa a discutir modelos de pagamento vinculados a resultado, negociação nacional de preços e acompanhamento clínico.

Na medicina atual, a terapia CAR-T Cell é uma das fronteiras mais relevantes. De forma simplificada, ela consiste em retirar células de defesa do paciente, modificá-las em laboratório e reinseri-las no organismo para combater células cancerígenas.

A Anvisa já aprovou produtos de terapia avançada com células CAR-T no Brasil, inclusive para determinados cânceres hematológicos.

A agência também esclarece que esses produtos fazem parte de uma nova categoria de medicamentos, chamados produtos de terapias avançadas, que incluem terapias gênicas, celulares e de engenharia tecidual.

Isso é importante porque muitas negativas de cobertura usam a palavra “experimental” de forma ampla. Mas nem todo tratamento inovador é experimental.

Um tratamento pode ser novo, complexo e caro, mas ainda assim ter registro sanitário, indicação médica e evidência científica. O que não se pode admitir é a confusão entre inovação e aventura terapêutica.

Essa “confusão”, por assim dizer, também acontece de forma recorrente no chamado uso off-label, que ocorre quando um medicamento registrado na Anvisa é prescrito para uma finalidade diferente daquela descrita originalmente na bula.

O uso off-label acontece em várias áreas da medicina, especialmente em oncologia, doenças autoimunes e doenças raras.

O ponto jurídico mais relevante é que off-label não significa, por si só, tratamento experimental.

Nesse sentido, o STJ já decidiu que plano de saúde não pode recusar automaticamente medicamento registrado na Anvisa apenas porque a prescrição é off-label, devendo o caso ser analisado conforme a indicação médica e os critérios técnicos aplicáveis.

Para o paciente, então, a mensagem é: o plano não pode negar de forma automática e genérica, mas o pedido também precisa estar bem fundamentado em evidências médicas.

Em ações de saúde, especialmente quando se pede uma liminar, a pressa é compreensível. Quem precisa de tratamento contra câncer, doença rara ou doença autoimune grave não pode esperar indefinidamente. Mas a urgência precisa vir acompanhada de prova.

O relatório médico deve explicar o diagnóstico, a gravidade, os tratamentos já tentados, a razão pela qual as alternativas disponíveis não servem, o risco da demora e a base científica da indicação.

A negativa do SUS ou do plano de saúde também deve ser documentada. Sem negativa formal, o processo pode começar mais frágil. Em demandas contra o SUS, é importante comprovar o pedido administrativo.

Contra planos de saúde, é essencial guardar protocolo, e-mails, relatórios de auditoria e a justificativa da recusa.

Com assistência jurídica e robustez documental, é amplamente possível a via judicial para a proteção da vida e da dignidade humana. Muitas decisões judiciais garantiram tratamentos que foram indevidamente negados.

A medicina evolui consideravelmente e em velocidade maior do que os sistemas de saúde se organizam. De um lado, o paciente não pode ser abandonado diante de uma negativa burocrática, abusiva ou desumana.

Do outro, é verdade que nenhum sistema, público ou privado, consegue sobreviver sem critérios técnicos, previsibilidade e responsabilidade. O caminho mais adequado está no equilíbrio.

O que se espera, afinal, é a construção de um sistema capaz de oferecer esperança real aos pacientes, sem transformar a inovação médica em privilégio para poucos ou em promessa impossível para todos.

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