Domingo, 24 de Setembro de 2017

ARTIGO

Mário Amaral Rodrigues: "Agora entendo melhor"

Docente aposentado da UFMS

18 JUL 2017Por 02h:00

Dalai Lama nos deixou: “Há dois dias em que não posso fazer nada, ontem e amanhã”. Entendo, grande mestre, devo viver intensamente o hoje, é nele que posso fazer o melhor possível e, com isso, não construir erro, o que terei a lamentar no amanhã. Hoje posso confessar o mal construído e implorar misericórdia e, melhor, posso me firmar no propósito de não tornar a errar. Assim posto, hoje construo o meu amanhã. Entendo o quanto tenho, e posso fazer hoje. 

Siddharta Gautama: “Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere”. Ah! nobre Buda, embora tenha entendido a mensagem, confesso não ter sido capaz de fidelidade a ela. 

Francisco de Assis faz a oração que a nós todos cumpre fazer: “Pai, fazei com que eu possa mais consolar que ser consolado, amar que ser amado, pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna”. Creio. Viver na vida eterna, só morrendo. Consolar mais, amar mais e dar convencido de que assim mais recebo, me custa algum esforço e não o tendo na mente custaria muito mais.

Viver neste hoje me é de incômodo desconforto, pois a imagem de milhões de refugiados estão na mídia, nesta que eu busco lazer, seu principal sentido. Ali presente, a imagem dessa multidão errante me leva a refletir: que amanhã constrói essa gente, que é gente como eu, com ontem do qual vem? Essa gente sim, pouco pode fazer no hoje que tem, com o ontem que lhe cabe esquecer e com amanhã que está sendo impedindo de mendigar. A vida eterna pode alguém lhe dar? Pode ela mais amar com o desamor que a vitima? Que perfume exala essa gente desvalida ante o golpe desferido pelos mandatários que a querem devolver ao inferno em fogo? 

Agora entendo melhor Charles Chaplin em seu dito: “Faço parte do mundo e no entanto ele me torna perplexo.”

Ante o dantesco drama dos fugitivos d’África, cruzando o Mediterrâneo, meio estranho a pedestres e ingrato, tenebroso, a navegantes em embarcações rudes, tenho a visão turvada ante o que de brutal a cena encerra, então entendo e chamo ao caso o brado de Castro Alves (Navio Negreiro): “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, se eu deliro... ou se é verdade tanto horror perante os céus?!” 

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