Terça, 19 de Setembro de 2017

OPINIÃO

Marçal Rogério Rizzo: "As necessidades nossas de cada dia"

Marçal é professor do curso de Administração da UFMS/Três Lagoas

20 MAR 2017Por DA REDAÇÃO01h:00

Dia desses aconteceu algo que me deixou sem saber o que fazer. Durante uma das aulas de Economia que ministro, cujo tema eram os recursos escassos e necessidades ilimitadas, disse aos alunos que, grosso modo, estamos aqui no planeta Terra para consumir. Afinal, nascemos consumindo e morremos consumindo. Há até quem diga: “Se consumo, logo existo!” 

Afirmei que nossas necessidades nunca se acabam; serão sempre ilimitadas: somos consumidores vorazes e nunca nos contentamos com o que temos. Se estamos indo a pé para a universidade, queremos um tênis propício pra caminhada, porém sonhamos com uma bicicleta; mas, quando compramos a bicicleta, queremos uma motocicleta, e, se comprarmos a motocicleta, logo sonharemos com o carro. E é claro: Se chegarmos ao carro popular, queremos um carro luxuoso, com muita tecnologia embarcada e do ano. Depois do carro, surgira o desejo da pick-up... do helicóptero... do jatinho... da nave espacial – e assim caminha a humanidade.

Para apimentar a reflexão coletiva, não resisti e logo perguntei: “Vocês estão aqui para quê? Qual o motivo de estarem buscando uma graduação? Seria para buscar somente conhecimento e tornar-se um expert na área, sonhando com o prêmio Nobel, ou vocês querem melhorar sua colocação profissional para ganharem mais?”

Senti o arregalar de seus olhos. O que estariam pensando? Será que os amedrontei em tempos em que se fala em redução de consumo, sustentabilidade, economia colaborativa, simplicidade voluntária, entre outros termos modernos?

Após um minuto de puro silêncio, um aluno, sentado mais à frente, se pronunciou dizendo que queria ganhar bem para ter uma casa bacana e um carro top. Já a aluna do fundo disse sonhar ter um bom salário para encher um enorme closet de roupas e sapatos.

De certa forma, estava assustando a todos, pois parece que, quando nos damos conta de que queremos maiores quantidade de “grana” para consumir mais, nós nos tornamos menos humanos. Pura bobagem pensar assim. Afinal de contas, esse é o motor do capitalismo, do mundo dos negócios, do lucro, da própria geração de empregos e renda. Sem consumo não há lucro, salários e impostos.

De fato, a todo momento estamos criando necessidades, desejos e sonhos, porém os recursos sempre serão escassos. Quando falei aos alunos que usarei o livro X do autor Y, eles saíram da sala com uma mensagem de necessidade embutida na cabeça: “Preciso do livro X.... Tenho que comprar o livro X”. Enquanto não comprarem, estarão sendo corroídos pelo bichinho famigerado da necessidade. O alívio só virá após a compra, gerando, porém, outra(s) “necessidade(s)”. 

As pessoas hoje têm o consumo no centro de suas vidas. Vão fazer compras, comer, beber, passear, viajar. Enfim, independente do que forem fazer, algo estará sendo consumido. Isso já está contido em nosso piloto automático – e quem nunca consumiu ou jamais pensou em ganhar mais que atire a primeira pedra.

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