Domingo, 19 de Novembro de 2017

ARTIGO

Luiz Fernando Mirault Pinto: “Marginal é nóis, mano!”

Físico e administrador

25 OUT 2017Por 02h:00

O termo marginal não é muito claro, pois pode se referir a pessoas, comportamentos, ou simplesmente uma referência espacial. Quanto ao estrato social ou às relações humanas o seu significado é sempre subjetivo porque “margem” se define como o limite de dentro ou de fora, de acordo com um ponto de vista. 

Normalmente essa designação se aplica àquele que não está enquadrado na lei, fora de um grupo social, à margem das regras que orientam a maioria das pessoas. Embora a referência se remeta a pessoa, marginal seria um comportamento que destoa da maioria que se julga normal, ou que se enquadra dentro de uma norma.

À medida que vivemos, tornamo-nos marginais. No caso das leis, cada vez mais somos considerados marginais, onde devemos permanecer eternamente sob o controle de uma sociedade de “imbecis” para que esta não nos julgue marginal.

Um idoso para usufruir de um direito, ou seja, da vaga em um estacionamento público, deve comprovar que é velho, por meio de um documento apócrifo, pois sua idade não é suficiente para comprovação. Uma forma não de garantia individual e cidadã, mas de subserviência ao poder público que estabelece uma prática para eximir-se da responsabilidade de sua fiscalização e que impõe regras absurdas ao cidadão. 

Armas deveriam ser banidas da sociedade, todavia sabemos que um cidadão de bem para tê-las deve comprovar seu comportamento por meio de situações de vida quando um bandido qualquer, as tem, sem qualquer controle sendo capaz de usá-las para seus intentos. A eles denominamos de marginais, quando na verdade nós é que o somos, ao não fazermos parte dos grupos armados.

Ao elegermos políticos por meio da “livre escolha”, passamos a nos distinguir do grupo de parlamentares, estes com foro privilegiado, à margem da lei, com direitos, salários e privilégios além da conta, decidem de madrugada e de suas cabeças privilegiadas a vida que devemos levar como se fôssemos marginais à sociedade que eles deveriam representar.  

Nossos veículos são documentados, registrados, atualizados e controlados, sujeitos a recebermos as penalidades a domicilio a partir das informações prestadas de boa vontade e que nos são solicitadas, quando muitos se alienam conveniente e propositadamente para ficarem livre das sanções a que estariam submetidos. As multas indiscriminadas nos criminalizam como marginais nos diferenciando daqueles condutores “isentos”.

Abril, mês da declaração de renda! Somos bombardeados semanas antes com ameaças de multas além do prazo estipulado para a entrega das informações, notificações de retenção, exigências de retificação, e espera de devolução. Com o tempo, nos cientificamos das contas em paraísos fiscais, da repatriação premiada de dinheiro sujo, de devolução de propinas, de “rolagem” ou perdão de dívidas impagáveis por grupos corporativos, de sinais de riquezas ignorados, e que a profissão de “doleiro” é legalmente reconhecida, o que nos dá a certeza de que “os dentro da lei” são os marginais.

Submetidos à ditadura da opinião pública e a mídia cooptada ficamos impedidos de emitir opiniões contrárias aos atuais métodos e procedimentos investigativos da justiça sob pena de sermos coniventes com a corrupção, tampouco discordarmos de performances “vanguardistas” da arte marginal, ou mesmo desaprovarmos “sketches” em que comediantes se “travestem” ridicularizando o sexo oposto que admite, para não sermos taxados de incultos ou homofóbicos, respectivamente.

Aguardamos numa UPA a boa vontade e a “lua” dos profissionais da saúde, enquanto traficantes assumem o comando da preferência no atendimento...

Não importando se representamos a maioria ou a minoria, do momento que o cenário atual define alguns comportamentos, atitudes ou procedimentos inadequados e anormais como legítimos, colocando-nos à margem da cidadania só me resta dizer: “Marginal é “nóis”, mano”.

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