Segunda, 05 de Dezembro de 2016

OPINIÃO

Luiz Fernando Mirault Pinto: "Falta de educação"

Físico e administrador

18 OUT 2016Por 01h:00

Fala-se muito em falta de qualidade na educação brasileira. Cientistas políticos, sociólogos, educadores, pedagogos e palpiteiros dão seus pitacos como quem ouve o canto do galo sem saber de onde! 

O discurso comum parte das comparações inadequadas (“Brasil das Comparações” – Correio do Estado) com demais países que se caracterizariam por certas semelhanças ao nosso, mas diferentes pelos altos índices de desenvolvimento em todas as áreas. Enquanto um aluno brasileiro se vê obrigado a cruzar um rio em uma canoa furada, um dinamarquês atravessa um fiorde em um navio de cruzeiro. 

A aprovação automática no Ensino Fundamental sem os rudimentos de linguagem e de cálculo elementar praticada num passado recente resultou no mau desempenho escolar atual, em que a “analfabetização” baseada nas exigências neoliberais do cumprimento de metas e redução de custos na educação exigida pelos controladores financeiros externos refletiu nos atuais baixos índices da avaliação do Ensino Médio da rede pública, hoje divulgados pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). 

Para corrigir tais distorções, foram propostas reformas com o viés de maleabilidade curricular, abrangendo disciplinas comuns voltadas para a inserção ao trabalho, à indústria e à tecnologia e outras opcionais, todas ocupando o tempo integral, a princípio dirigido às escolas públicas certamente com a intenção “velada” de baratear o ensino e, naturalmente, em prejuízo das classes menos favorecidas. 

Para alguns “espertalistas”, é preciso garantir novas práticas pedagógicas, novas tecnologias, para atrair os alunos e evitar a evasão escolar, uma vez que a era das aulas expositivas, com conteúdos “nonsenses”, já era. Na realidade, são outras as reais razões das reformas, da evasão, da má qualidade, do custo, o que caberá aos profissionais da educação debater eternamente.

A obrigatoriedade de disciplinas como Português e Matemática será mantida, enquanto outras terão o caráter de opcionalidade, isto é, os alunos serão levados ao desinteresse antes mesmo de conhecerem do que tratam, sob a justificativa que delas suas vidas não dependerão, porque são “decorativas”, enfadonhamente difundidas e não encontram espaço no mercado e trabalho! 

No meu perfunctório entendimento, tal propositura, uma reforma do ensino em vez da educação, cujas matérias imprescindíveis à formação do homem (identidade individual e coletiva, cidadania, direitos, ética, democracia, comunicação, cultura, formação socioeconômica) tornam-se “facultativas” em confronto com o aprendizado de tecnicidades, apenas dá razão ao “torneiro mecânico”.

Para quem adota o ideário “Ordem e Progresso”, nada como o “positivismo tecnicista” na educação. A escola tecnicista surge com a República acreditando que o ensino das ciências (física, química e biologia) era essencial para a formação do espírito científico e o centro da educação. Dessa maneira, as ciências exatas viriam a ser a contraposição da escola humanista, dando ênfase à partição do conhecimento (currículo multidisciplinar) e à especialização.

Não acredito que tais mudanças qualificarão os resultados educacionais, enquanto houver um discurso hipócrita relativo à ideologização político-social intrassala de aula, o cerceamento do pensamento crítico na escola, ou ainda a conjuminação do pensamento capitalista, do lucro, das imposições mercadológicas com a ideologia neoliberal existente, que fatalmente fará a educação sucumbir à lógica do mercado, que a considera apenas como um bem econômico.

A educação é uma necessidade para o desenvolvimento econômico, mas nunca foi prioridade, embora nos últimos 12 anos ocorreu a valorização do Ensino Superior, programas socioeducativos, criação de universidades, escolas técnicas, das bolsas de estudo, expressivos investimentos (223% no orçamento), bolsas para pós-graduação (187%), e outros. Sempre haverá quem prefira nos comparar ao Chile, à Finlândia ou à Austrália, fechando os olhos à realidade e ignorando que países continentais como o nosso, não desenvolvido, jovem, historicamente espoliado por colonizadores, superpopuloso, PIB irrisório, ainda tem inúmeras restrições para investir e não pode ficar refém de índices comparativamente inadequados. Ao criticarmos o estágio que alcançamos na educação, comparando “bananas com laranjas”, estamos reafirmando nossa “falta de educação”.

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