Sábado, 21 de Janeiro de 2017

OPINIÃO

Luci Carlos de Andrade: "Eu estudei, e você?"

Professora doutora da UFMS

11 JAN 2017Por 01h:00

Em tempos difíceis, caóticos e visivelmente instáveis em todos os lugares e praticamente em todas as áreas, embora em um cenário de velozes e constantes transformações, deparamos, ainda, ou cada vez mais com a falta de informação, a apatia, passividade, e mediocridade de boa parte de pessoas que tem dificuldade em pensar, entender, conhecer a evolução do mundo, das coisas e da própria ciência. Costumam pairar na superficialidade e no sarcasmo, aliás, competência que o brasileiro tem de fazer piada e chacota de tudo. 

Na atual situação do nosso país, aquele que consegue concluir uma faculdade, e alçar voos, ingressando em um Programa de Mestrado ou Doutorado, deveria ser digno de reconhecimento, senão, no mínimo de respeito, por conseguir alcançar um grau elevado nos estudos, como o Doutorado, por exemplo. Determinados lugares, algumas pessoas para nos exaltar dizem, ela é Doutora...aí começa nosso calvário...somos alvos de preconceito, piadas, desconsideração, e por aí afora. 

Ninguém consegue, ou não quer pensar o quão difícil é ingressar num curso desse e atender as exigências da academia, o rigor das leituras, os trabalhos complexos, os prazos, datas. Negligenciamos nossa vida pessoal, família, passeios, lazer e tudo mais em nome de um ideal, de uma oportunidade de um crescimento acadêmico.

Ninguém sabe ou imagina o percurso silencioso da escrita da tese, a rotina da pesquisa e o aprofundamento das teorias, para finalmente conquistar o tão merecido Título após quatro anos de dedicação exclusiva. Daí eu digo, quem se atreve? Eu estudei, e ainda trilho os caminhos como pesquisadora, eu tive a coragem e a ousadia de me lançar nessa empreitada, gratificante sim, mas de um caminho árduo, penoso e fatigante.

Vir de uma família simples e humilde, superar a si mesmo, romper barreiras, e chegar ao ápice de um grau acadêmico, evidencia no mínimo, persistência, determinação e a realização de um ideal. Ocorre que todos tem essa oportunidade, porque não o fazem?   Porque se preparar, ser alguém, desafiar os próprios limites, implica uma generosa dose de responsabilidade.

E o que mais representa a maioria dos brasileiros, do que acomodação, preguiça, oportunismo, “querer tudo de mão beijada”, o tal “jeitinho brasileiro”, “depois eu faço” e por aí afora? Vivemos mais que nunca uma crise de valores, princípios, civilidade, respeito. E ainda assim, o brasileiro tem por hábito lançar o fel da ironia e do deboche sobre seus semelhantes. 

Atitudes merecedoras de admiração, reconhecimento e valorização na maioria das vezes inexistem. Por pura insatisfação, ou porque carregamos todos nós, os fragmentos da ambição, da ganância e oportunismo que marcam a história de um país que já nasceu torto. Esses caminhos tortuosos modelaram no nosso povo, uma mentalidade torpe, equivocada e lamentavelmente debochada.

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